A necessidade de redesenhar negócios com IA é um imperativo para as empresas que almejam extrair o potencial transformacional da inteligência artificial. Essa é a análise de Silvio Meira, renomado cientista-chefe da TDS Company e cofundador do Porto Digital, que argumenta que as organizações ainda falham em capturar o verdadeiro valor da tecnologia por tentarem aplicá-la em estruturas e processos obsoletos, sem uma revisão profunda da sua arquitetura ou do papel humano.
Durante sua participação no prestigiado Prêmio Valor Inovação Brasil 2026, realizado nesta segunda-feira (3), em São Paulo, Meira abordou a editora-chefe de Época NEGÓCIOS, Elisa Campos. Para o especialista, a revolução promovida pela inteligência artificial representa a maior transformação já vista a partir de uma tecnologia de propósito geral. Ele enfatizou que a mera substituição de tarefas humanas, buscando apenas maior velocidade na execução, não é suficiente para agregar o valor que a IA é capaz de proporcionar.
Redesenhar Negócios com IA: Silvio Meira Orienta Empresas
Para ilustrar os ganhos limitados que muitas companhias experimentam com a adoção inicial da IA, Meira estabeleceu um paralelo histórico com a chegada da eletricidade nas fábricas. Inicialmente, as indústrias substituíram grandes máquinas a vapor por motores elétricos de porte similar, mas mantiveram a mesma organização de produção e sistemas de transmissão de força. O avanço real na produtividade só foi observado quando motores menores foram estrategicamente distribuídos pela fábrica e todo o modelo de produção foi reestruturado. Conforme ele pontuou, a maior parte das empresas hoje não está modificando seus processos e, consequentemente, suas arquiteturas de negócios de maneira satisfatória. A dificuldade reside também na resistência em abandonar conhecimentos, práticas e estruturas que foram construídas para contextos passados, ao mesmo tempo em que precisam adquirir as habilidades necessárias para atividades até então inimagináveis.
O Novo Papel do Trabalho Humano na Era Cognitiva
Silvio Meira defende que a transformação impulsionada pela IA vai muito além da simples transferência de tarefas do humano para sistemas automatizados. Ele preconiza uma redefinição do trabalho humano, que deve deixar de lado a execução cognitiva repetitiva para focar em funções de alto valor: criar contexto, formular problemas complexos, orquestrar diferentes inteligências e, crucialmente, validar as soluções geradas pelas máquinas. Na área da programação, campo de formação de Meira, ele estima que a IA já consegue escrever 95% do código que seria produzido por humanos, com igual ou superior qualidade. O desafio, portanto, migra da quantidade de linhas de código para a sua relevância e adequação. É fundamental, segundo ele, assegurar que as dezenas de milhares de linhas de código realmente resolvam o problema correto, respeitem os limites éticos e legais estabelecidos e correspondam ao produto que deveria ser entregue.
O cientista ilustra essa lacuna de compreensão com o exemplo de um aluno de doutorado que, utilizando sistemas de IA, gerasse uma solução para um problema, mas não conseguisse discuti-la sem a ajuda de uma apresentação digital. Nesse cenário, embora a máquina tivesse fornecido a resposta, o estudante não teria assimilado o método ou o raciocínio subjacente. Meira resume a situação: “Você resolveu, a resposta é 42, mas não entendeu absolutamente nada.” Empresas correm risco similar ao confundirem a conclusão de uma tarefa com a verdadeira criação e incorporação de conhecimento organizacional.
Da Automação à Gestão de Inteligências Artificiais e Humanas
A percepção da dimensão da mudança provocada pela inteligência artificial começa a ser compreendida pelas futuras lideranças, conforme observado por Meira ao interagir com estudantes do primeiro ano do ADM Tech, curso da CESAR School que integra administração e tecnologia. Ao ouvir que o trabalho humano passaria a incluir a criação de contexto e a orquestração de inteligências, um aluno questionou: “Se a gente não está aqui para aprender a mandar nas organizações, vai fazer o quê? Para que serve o curso?”. A pergunta, para Meira, reflete uma importante mudança de paradigma: “mandar” no novo cenário não significa apenas dirigir pessoas, mas também a capacidade de coordenar eficientemente tanto inteligências humanas quanto artificiais.
Essa transformação subjaz ao que Meira denomina “mercado cognitivo”. Enquanto, historicamente, a humanidade desenvolveu ferramentas para amplificar capacidades físicas (como alavancas, óculos e meios de transporte), a IA se distingue por atuar diretamente nas duas operações fundamentais que as pessoas usam para interagir e moldar a realidade: abstrair problemas em perguntas e concretizar respostas em soluções. Como prova dessa nova capacidade, o cientista citou o desempenho impressionante do GPT-4 em um rigoroso exame de admissão à advocacia nos Estados Unidos. A conclusão é que os sistemas de inteligência artificial já são aptos a participar do processo que inicia com um problema, o desmembra em questões e produz respostas que culminam em uma solução viável. O desafio e, ao mesmo tempo, a imensa oportunidade para indivíduos e empresas é aprender a operar neste novo mundo, onde uma parte substancial da capacidade cognitiva e repetitiva humana pode ser emulada e superada por sistemas de informação em velocidades não-humanas, transformando fundamentalmente o futuro do trabalho e os negócios globais.

Imagem: Gabriel Reis via valor.globo.com
O “Teatro da Inovação” e a Estratégia de Longo Prazo
Para Silvio Meira, a dificuldade em extrair valor tangível da inteligência artificial insere-se em uma problemática organizacional mais ampla. Ele identifica o fenômeno que chamou de “teatro da inovação”, onde muitas empresas manifestam intenções de mudança, mas falham em construir as capacidades intrínsecas para concretizá-las. “Eu vejo muito pouca estratégia e muito discurso, muito pitch e muito motivacional quando a gente fala de inovação”, criticou o cientista. Reuniões e eventos promovidos para debater e inspirar a mudança frequentemente resultam em pouca alteração efetiva no cerne da organização.
Meira define estratégia não como um elenco de aspirações, mas como um processo contínuo e colaborativo de converter objetivos em conhecimento prático, habilidades específicas, recursos adequados e limites operacionais claros, tudo isso com o propósito de gerar resultados. A primeira atribuição da liderança, em sua visão, é reconhecer honestamente o contexto real em que a empresa atua e suas capacidades efetivas. Ele fez uma crítica veemente às companhias que elaboram planos baseados em condições econômicas ou institucionais irreais, que ele sarcasticamente apelida de “Nárnia”. A inovação estrutural, acrescentou, não pode ser vista como uma solução instantânea para a pressão por resultados de curto prazo. Pelo contrário, exige tempo, tolerância ao risco e sistemas de reconhecimento e remuneração que não penalizem profissionais por experimentos que não alcancem sucesso de imediato. A questão “Como resolvemos a inovação no curto prazo?” tem uma resposta simples para ele: “Não resolve. Inovação é um problema de longo prazo.”
A Inovação Começa nas Bordas: Lições da História Tecnológica
Por essa razão, mudanças de caráter mais profundo frequentemente têm sua origem nas periferias das organizações, em atividades tidas como secundárias, mas que funcionam como autênticos laboratórios. São nesses espaços que as empresas podem formular hipóteses, realizar experimentos controlados, aprender com os próprios erros e desenvolver novos produtos antes de tentar uma alteração disruptiva no core das operações já lucrativas. Meira evocou a transformação do mercado de celulares pela Apple como um exemplo marcante do perigo de uma empresa tecnicamente competente, como a Nokia, não perceber que o próprio mercado estava se redefinindo. A Nokia possuía vasta tecnologia e capacidade de engenharia, mas não conseguiu antever que o smartphone criaria uma categoria de produto totalmente nova, para além daquela onde seus aparelhos competiam com sucesso. A lição extraída é que a inovação transcende a mera melhoria de desempenho, qualidade ou custo. Sua função primordial é capacitar o negócio a reconhecer e se adaptar às mudanças do mercado antes que os modelos operacionais que sustentam sua existência se tornem obsoletos. Concluindo, o especialista pontua que “não é o presente que vai levar o passado para o futuro. É o presente que vai trazer novos futuros para o passado. Aí, a inovação vira a arte de sobreviver às mudanças.”
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As perspectivas de Silvio Meira sublinham que o caminho para as empresas capitalizarem plenamente a inteligência artificial exige mais do que apenas investimento em tecnologia; demanda uma reinvenção de sua arquitetura de negócios e do papel de cada indivíduo na organização. Ficar à frente nesse cenário dinâmico requer não só visão, mas uma execução estratégica de longo prazo. Para continuar explorando temas sobre o futuro dos negócios e as tendências do mercado, convidamos você a navegar em nossa editoria de Economia e descobrir mais análises aprofundadas.
Crédito da imagem: ÉPOCA NEGÓCIOS
