Entenda a Política Econômica do 4º Mandato de Lula

Economia

Desde a sua surpreendente vitória no segundo turno das eleições, as discussões sobre a política econômica do 4º mandato de Lula ganharam destaque, permeando os bastidores políticos e o mercado financeiro. Diferentemente de outros momentos, o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, tem se mostrado menos suscetível às habituais pressões por cargos ministeriais. Esse comportamento o poupou de lidar com disputas internas até o final do processo eleitoral, uma estratégia que contrasta com a do seu adversário, cuja campanha sofreu desgaste ao confrontar promessas com os movimentos de seus pretendentes ministros.

A celebração da vitória em São Paulo, ainda na noite do domingo, não liberou apenas a euforia, mas também intensificou as disputas por posições dentro do próprio campo governista. Paralelamente, os ativos brasileiros reagiram no mercado futuro internacional, alavancados pela expectativa em torno de certas escolhas ministeriais. No entanto, a confiança de que o presidente Lula cederá a pressões — sejam elas aliadas ou contrárias — pode ignorar os sinais emitidos em seus poucos pronunciamentos pós-eleição. Ele, por sua vez, tem reiterado que não há nomes pré-definidos para as pastas, mas sim critérios bem estabelecidos que guiarão suas escolhas.

Entenda a Política Econômica do 4º Mandato de Lula

A percepção de que o presidente Lula indicaria nomes que dariam a tônica de seu governo é falha. Na realidade, um líder eleito para um quarto mandato é quem dita as diretrizes. O escolhido para cada função será aquele que mais o convencer de sua capacidade em seguir essas diretrizes estabelecidas por ele próprio. Esse é o ponto central para Entender a Política Econômica do 4º Mandato de Lula. No campo econômico, onde residem as maiores preocupações pelo impacto sobre as expectativas do mercado, a pista mais significativa dada por Lula veio de uma dupla que ele fez questão de homenagear publicamente na Avenida Paulista após a virada eleitoral: os netos que levaram os avós para votar.

A cena de idosos, alguns se locomovendo com dificuldades, de bengala, cadeiras de rodas, macas e até com aparelhos de oxigênio, se dirigindo às urnas emocionou profundamente o presidente, que narrou o ocorrido com a voz embargada no dia do seu aniversário. Desta profunda emoção, é possível inferir um direcionamento claro: a descartada de qualquer proposta de desvinculação do reajuste das aposentadorias da política do salário mínimo. Isso implica em manter a valorização dos benefícios em patamares que, mesmo que venham a considerar índices de inflação mais impactados por itens essenciais como remédios, preservarão o poder de compra dessa parcela da população.

Por outro lado, a homenagem aos jovens que não só carregaram seus avós, mas também deram tração à campanha e encheram as ruas, aponta para outra vertente crucial na estratégia do presidente reeleito. Ela sinaliza uma política econômica atenta aos anseios dos investidores. Para a juventude, e não apenas no Brasil (vide manifestações na França), o interesse primordial recai sobre a geração de empregos qualificados. Contudo, não há capital nacional em volume suficiente para atender a essa demanda. Sem a atração de investimentos estrangeiros substanciais, o governo Lula teria dificuldade em atender essa “tropa” decisiva mobilizada por figuras como o deputado federal André Janones.

A questão que se impõe, portanto, é: quem melhor equilibraria esses dois pratos – a agenda social de apoio aos idosos e a necessidade de atração de capital e geração de empregos para os jovens? As análises frequentemente levantam os nomes do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, e do vice-presidente Geraldo Alckmin como possíveis ministros da Fazenda. A resposta para essa equação complexa está exclusivamente na cabeça do presidente Lula, o que exige uma análise cuidadosa do que está em jogo.

Com aproximadamente metade da idade do presidente, Fonteles é considerado um dos mais promissores quadros do Partido dos Trabalhadores. Sua genialidade, evidenciada por um decantado desempenho em Olimpíadas de Matemática, materializou-se em um modelo estatístico inovador que deu à campanha a certeza da vitória com apenas 1,5% dos votos apurados. Ademais, a quantidade de entrevistas concedidas por Fonteles desde a vitória de Lula sugere que os expressivos 75% dos votos concedidos pelo Piauí ao presidente, a maior votação proporcional em sua campanha, são lidos como um aval para sua possível indicação para a Fazenda.

Contudo, as qualidades de Fonteles representam, paradoxalmente, seu maior óbice. Embora o governador se encaixe perfeitamente no modelo “cearense do ITA”, que tanto orgulha Lula e o levou a instalar um novo campus do Instituto Tecnológico da Aeronáutica no estado, ninguém ignora o histórico desgaste inerente à Pasta da Fazenda. Historicamente, apenas Fernando Henrique Cardoso conseguiu projetar-se a partir dela para a Presidência da República, pois seu cargo abrigava um projeto de poder singular: o Plano Real. Em seu quarto mandato, o plano é o próprio plano de Lula, que talvez não queira “queimar” um quadro jovem tão promissor visando a eleição de 2030.

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Imagem: Agustin Marcarian via valor.globo.com

E quanto a Geraldo Alckmin? É fundamental não confundir a relação de confiança e lealdade entre o presidente e seu vice com uma total comunhão de ideias. Durante sua atuação como vice-governador de São Paulo, na gestão de Mario Covas, Alckmin presidiu o Programa Estadual de Desestatização, que abrangia privatizações e concessões de rodovias e ferrovias. A intervenção do Banco Central no Banespa à época impôs ao governo paulista a proibição de novos empréstimos e a necessidade de desestatização, cumprida rigorosamente. Embora o vice-presidente tenha deixado o PSDB – um partido que hoje quase fecha as portas –, a essência do PSDB, para muitos, jamais o deixou.

Lula arriscaria essa relação de confiança e lealdade colocando Alckmin em um cargo tão estratégico e, potencialmente, de atrito como o Ministério da Fazenda? Dado o reconhecimento público que Lula fez de seu vice em dois discursos pós-vitória, é plausível que Alckmin assuma um papel que transcenda as funções habituais de vice-presidente. Sua credibilidade junto ao empresariado e ao setor financeiro o gabaritou para representar esses setores dentro do Palácio. Para tal, uma nova estrutura poderia ser criada, como uma secretaria com status de ministério, acesso direto a Lula e ascendência sobre a Fazenda. Ele atuaria como a “voz do empresário”, tornando-se um porta-voz de um conselho mais efetivo e influente nas ações e decisões do governo, o que naturalmente envolveria pautas cruciais que afetam a política econômica, e informações que são detalhadamente acompanhadas pelo portal oficial do Ministério da Fazenda, por exemplo.

Essa elucubração, feita por observadores próximos, ainda não atende às ansiedades daqueles que esperam o rápido anúncio de um Ministro da Fazenda. Contudo, como nenhum nome deve ser divulgado antes de dezembro, é mais prudente focar na discussão do que será implementado. Tanto no governo quanto no mercado, a ideia de criar um conselho fiscal e monetário, proposta pelo economista André Lara Resende, tem circulado. Essa proposta, detalhada em artigos recentes do economista e em uma palestra no Cebri no fim de setembro, não choca o gasto público atual, mas não o culpa pela trajetória da dívida/PIB, atribuindo-a à evolução exponencial da dívida pública e sugerindo que este conselho arbitre a taxa de juros.

Lula foi apresentado aos pressupostos desse conselho há quatro anos, e, embora não tenha demonstrado objeção formal, tampouco o adotou. Luiz Orenstein, da Dynamo, debatedor de Lara Resende no Cebri, relatou a reação de gestores de seu fundo de investimentos ao ouvir a proposta: “Correriam todos para comprar dólares.” Ele resumiu essa reação como uma “chantagem”, antecipando a resposta do mercado, algo que Lara Resende, de fato, não ignora. Ao longo do mês de novembro, o plano de voo para o quarto mandato será delineado e, em dezembro, a composição do ministério será finalmente conhecida. Até lá, a disputa interna dos governistas e a pressão do mercado persistirão, sem garantias de que influenciarão decisivamente o rumo traçado por Lula. Resta observar se a bússola guiada pela dupla de netos e avós resistirá à turbulência iminente.

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Em suma, a política econômica do 4º mandato de Lula emerge como um delicado balanço entre a sensibilidade social, expressa na manutenção dos benefícios para idosos, e a necessidade de atração de capital para a criação de empregos qualificados, essenciais para a juventude. As decisões sobre o Ministério da Fazenda e as estratégias fiscais refletirão a capacidade do presidente em consolidar uma visão coesa frente às diversas pressões. Para acompanhar de perto os desdobramentos deste e outros temas cruciais da gestão pública, continue lendo nossa editoria de Política.

Crédito da imagem: Divulgação

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