Obesidade Infantil em Ribeirão Preto: Hábitos Saudáveis Transformam Vidas

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Em Ribeirão Preto, SP, a batalha contra a obesidade infantil ganha força através de iniciativas que transformam a vida de jovens. Exemplo disso é Rafaela Nogueira, carinhosamente chamada de Rafa, uma menina de 10 anos que, há cerca de dois meses, encontrou no crossfit para crianças um caminho para a saúde e inspirou seis colegas de sala a segui-la. A adesão dos amigos, incentivada após uma aula experimental que encantou a todos, marca a parte mais visível de uma profunda reestruturação de hábitos em seu lar, segundo relatos de sua mãe, Jessica Nogueira, de 37 anos.

A mudança na casa de Rafa foi um pilar fundamental no combate ao ganho de peso da menina, que já era uma preocupação desde os seus três anos de idade. Para apoiar a filha, toda a família adotou uma alimentação mais saudável, ajustando as escolhas alimentares em busca de um estilo de vida mais equilibrado. Este engajamento familiar demonstra a complexidade e a necessidade de apoio conjunto no enfrentamento da obesidade, um desafio crescente em todo o país e, de forma particular, na região de Ribeirão Preto.

Obesidade Infantil em Ribeirão Preto: Hábitos Saudáveis Transformam Vidas

Os dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), do Ministério da Saúde, evidenciam a seriedade do problema em Ribeirão Preto. Quase quatro em cada dez adolescentes com idade entre 10 e 19 anos, acompanhados pelo sistema, sofrem de sobrepeso ou obesidade. O índice, que era de 22,8% em 2008, alcançou 39,3% até setembro de 2026, com 5.126 adolescentes nessa condição, evidenciando uma escalada preocupante. Em 2025, o estado de São Paulo registrou 38,4% e o Brasil, 33,4% de adolescentes com sobrepeso ou obesidade, mostrando que Ribeirão Preto supera as médias estadual e nacional.

A iniciativa familiar de Rafa ganha relevância diante desses números alarmantes. A mãe de Rafaela relata que o ganho de peso da filha começou após um período de cerca de um ano, quando ela utilizou corticoides devido a uma crise respiratória, medicamento que a mãe acredita ter aumentado o apetite da menina. Além disso, os “mimos” da família e parcerias de Rafa, que é influenciadora digital, com estabelecimentos de lanches e pizzarias, contribuíam para uma dieta desregrada. “Tinha semanas que praticamente ela não comia comida à noite. Um dia era lanche, um dia era pizza, um dia era esfirra, um dia era comida japonesa”, recorda Jessica.

A Virada de Chave: Decisão Pessoal e Apoio Familiar

A motivação para a mudança surgiu por volta dos oito anos, quando Rafa chorou ao experimentar roupas que não serviam. “E aí foi onde virou a minha chave”, diz Jessica, que compreendeu a necessidade de ser o exemplo para a filha. Embora a primeira tentativa de tratamento não tenha sido bem-sucedida, um ano depois, após não conseguir subir um quarteirão durante uma caminhada, Rafaela, por iniciativa própria, decidiu buscar ajuda médica novamente. A partir desse momento, a transformação foi profunda: “A casa inteira mudou”, enfatiza a mãe, que também estava acima do peso e, hoje, dedica-se a preparar marmitas balanceadas para a semana. Rafa agora consome mais frutas, mas ainda se esforça para incluir vegetais como alface, tomate e couve, mostrando que a jornada exige persistência. “A gente tem que ser exemplo. A criança não faz com cobrança. Ela te imita, ela faz o que você faz”, reitera Jessica.

Os resultados são animadores. Rafaela treina diariamente e, para evitar o trauma da balança, o médico optou por acompanhar sua evolução através de medidas. Em uma das consultas, ela havia perdido 10 centímetros de abdômen, e quatro meses depois, mais 4. Sem uso de remédios ou cirurgias para emagrecer, ela hoje desfruta da liberdade de não temer a compra de roupas. Perguntada sobre sua sensação atual, Rafa prontamente responde: “Muito melhor”. Até as parcerias da jovem influenciadora com restaurantes nas redes sociais se tornaram raras; atualmente, ela treina na academia em troca de divulgação, sinalizando uma nova fase em sua vida.

O Papel do Nobin no Enfrentamento à Obesidade Pediátrica

Na rede municipal, o Núcleo de Obesidade Infantil (Nobin), inaugurado pela prefeitura de Ribeirão Preto em dezembro de 2025, desempenha um papel crucial no tratamento de crianças e adolescentes com obesidade. O núcleo acolhe pacientes encaminhados pelas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) após a persistência do quadro por, no mínimo, seis meses. O protocolo inicial inclui uma consulta com a nutróloga Valéria Moro, seguida por atendimentos individuais e em grupo às quartas-feiras à tarde, com uma equipe multidisciplinar composta por nutricionistas, psicóloga e educador físico. Há, inclusive, um grupo de apoio para os responsáveis, reconhecendo que a abordagem da obesidade requer o envolvimento de toda a família.

Apesar da relevância do serviço, o Nobin enfrenta desafios significativos com as faltas às consultas. Entre janeiro e setembro deste ano, o percentual de pacientes que não compareceram às 297 consultas agendadas chegou a 54%, totalizando 161 faltas. Nos retornos, seis em cada dez agendamentos (113 de 186) foram perdidos. Preocupa ainda mais o fato de que, dos 111 pacientes com casos novos, 48 faltaram à primeira consulta. A nutricionista Gisele, integrante da equipe do Nobin, classifica a obesidade como “uma doença grave, crônica, multifatorial, de difícil tratamento” e aponta razões para as faltas, como a dificuldade de alguém para levar a criança, o custo do transporte e a incompatibilidade com os horários escolares, uma vez que os encontros ocorrem à tarde, exigindo que quem estuda nesse período precise sair da aula. “Acaba que fica tudo em cima da mãe fazer tudo”, lamenta.

Thalia Leme: Mais Uma História de Transformação com o Apoio do Nobin

Outro exemplo de sucesso é a de Thalia Leme de Oliveira, de 9 anos, acompanhada pelo Nobin desde janeiro. Assim como Rafaela, a mudança em sua casa teve início com o exemplo da mãe, Rosana de Andrade Leme, que transformou sua alimentação após um diagnóstico de diabetes gestacional, resultando na perda de 30 quilos. No mesmo ano, um exame de rotina revelou que Thalia apresentava colesterol um pouco elevado, o que impulsionou novas modificações em seu estilo de vida. A menina trocou o balé pela dança de rua e agora pratica atividade física ao longo de toda a semana. Chocolate e refrigerante, antes rotina, tornaram-se raras exceções. “A gente não tirou a comida dela. Ela foi tirando aos poucos”, explica Rosana.

Thalia, motivada, não gosta de faltar aos encontros de quartas-feiras do Nobin e, segundo a mãe, é ela quem lembra o horário das consultas. Para Rosana, o feedback dos profissionais foi determinante: “As crianças escutam mais quando é outra pessoa”. O resultado é evidente: “Meu Deus, é outra menina”, resume Rosana com alegria. Thalia se recorda dos dias em que “As minhas roupas ficavam muito grudadas, às vezes nem serviam”. Como um marco dessa nova fase, a menina fará uma apresentação de dança de rua em um teatro em 15 de novembro.

Diretrizes da OMS e o Panorama Global da Obesidade Pediátrica

A importância do combate à obesidade infantil é corroborada pelas diretrizes globais da Organização Mundial da Saúde (OMS), lançadas em 7 de outubro. A entidade recomenda, para menores de 10 anos, foco em alimentação saudável, atividade física e mudança comportamental, desaconselhando o uso de remédios ou cirurgia bariátrica nessa faixa etária. Para adolescentes de 10 a 19 anos, medicamentos podem ser considerados caso programas de mudança de hábitos supervisionados falhem. A cirurgia bariátrica é uma opção restrita a casos de obesidade grave, sob rigorosas condições. A OMS enfatiza também a necessidade de abordar a obesidade e a saúde mental em conjunto e desde cedo, reconhecendo que problemas como ansiedade, depressão e baixa autoestima podem influenciar negativamente os hábitos alimentares. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2024, 400 milhões de crianças e adolescentes (5 a 19 anos) em todo o mundo apresentavam sobrepeso, com 170 milhões classificados como obesos. Entre os menores de 5 anos, o número de crianças com sobrepeso era de 35 milhões. A OMS classifica a obesidade como uma doença crônica e recorrente, reforçando a urgência da atuação preventiva e terapêutica.

O endocrinologista pediátrico Thiago Hirose, especialista pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HC-FMRP/USP), salienta que o aumento dos casos de obesidade em crianças e adolescentes é uma tendência global. A pandemia de Covid-19, com o confinamento, a ansiedade, a diminuição da atividade física e as aulas online, contribuiu significativamente para o agravamento do problema. Atualmente, a soma de fatores como menor tempo de sono, maior tempo em casa, uso excessivo de telas e o consumo elevado de alimentos ultraprocessados (muitas vezes assistindo à televisão) são preponderantes. O Dr. Hirose tem observado casos em crianças cada vez mais jovens.

Entre as complicações mais comuns da obesidade pediátrica, o especialista menciona a resistência à insulina, que pode levar a problemas como hipertensão, diabetes tipo 2 e alterações no colesterol. Outros riscos incluem gordura no fígado, apneia do sono e alterações na puberdade. Para além do peso, ele aconselha o monitoramento da circunferência abdominal, sempre com avaliação do pediatra e conforme a idade da criança, uma medida que a família de Rafa adotou. Na comunicação com a criança, o médico enfatiza a importância de tratar a obesidade como uma questão de saúde, e não meramente estética, utilizando uma linguagem adequada à idade e evitando radicalismos. Envolver a criança no preparo das refeições e promover a troca de tempo de tela por brincadeiras são estratégias eficazes que ele sugere para construir um futuro mais saudável.

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A história de Rafaela e Thalia em Ribeirão Preto ressalta a importância crucial da intervenção precoce e do apoio familiar no combate à obesidade infantil, bem como o papel fundamental de serviços especializados como o Nobin. Essas jornadas inspiradoras demonstram que, com dedicação e orientação adequada, é possível reverter quadros e promover vidas mais saudáveis para nossas crianças. Para mais notícias e análises sobre saúde, bem-estar e o que acontece em nossas cidades, continue explorando nossa editoria em Hora de Começar.

Crédito da imagem: Valdinei Malagutti/EPTV

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