A presença de mercúrio e chumbo em caranguejos-uçá, um dos principais crustáceos do litoral do Paraná, tem gerado alerta entre pesquisadores e comunidades locais. Recentes análises do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar) identificaram esses elementos químicos indesejáveis nos animais, levantando preocupações sobre a saúde ambiental e, potencialmente, a saúde humana na região. Este achado, apesar de não ser constante, acende um sinal de atenção para os ecossistemas de manguezal e suas delicadas interações.
Antônio de Souza, conhecido como Pano entre seus colegas, é um experiente caiçara que, por quase 50 anos, se dedica à captura de caranguejos nos manguezais do litoral paranaense. Ele utiliza o período de pesca liberada, que se estende de dezembro até meados de março, como meio de sustento para sua família e fonte de renda. Durante a entressafra, Souza se dedica à pesca de peixes. A Agência Brasil o acompanhou em uma visita ao manguezal da Oceania, localizado na cidade de Paranaguá, onde Pano defendeu a relevância do período de defeso para a conservação e reprodução natural da espécie, visando garantir a disponibilidade do crustáceo para as futuras gerações.
Os levantamentos realizados pelo Rebimar evidenciam a detecção desses metais pesados. Por isso, as pesquisas buscam compreender a fundo os impactos da contaminação. Essa iniciativa ressalta a importância da contínua investigação para proteger a fauna marinha e a saúde da população local que depende desses recursos. Para detalhes adicionais sobre o estudo, confira a seguir informações mais aprofundadas sobre o que o
Estudo Revela Mercúrio e Chumbo em Caranguejos no Paraná
Identificação de Contaminantes e Preocupações
O Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar) desempenha um papel fundamental no litoral do Paraná, realizando diversas ações ambientais, como o monitoramento constante da saúde dos mangues e do caranguejo-uçá. Este crustáceo é uma parte vital da economia local; em 2024, a pesca de caranguejos movimentou aproximadamente R$ 9,8 milhões no estado, com destaque para as cidades de Guaraqueçaba, Guaratuba, Paranaguá, Antonina e Pontal do Paraná.
Um estudo relevante, coordenado pela professora Cassiana Baptista Metri, da Universidade Estadual do Paraná (Unespar) e pesquisadora do Rebimar, concentra-se na análise da presença de elementos químicos no caranguejo-uçá. Inicialmente, a pesquisa identificou concentrações de zinco, manganês e magnésio, que são minerais importantes para a constituição do corpo humano. No entanto, a análise revelou um achado preocupante: a presença de contaminantes como mercúrio e chumbo, elementos que não são desejáveis. A pesquisadora enfatiza que a detecção desses elementos não foi constante, variando conforme a localização e a época do ano.
Implicações para a Saúde Humana e Contexto Ambiental
A professora Cassiana Metri alerta que mais estudos são cruciais para compreender o impacto exato do consumo de caranguejos potencialmente contaminados na saúde humana. Ela destaca que o consumo do caranguejo-uçá na região é tradicionalmente sazonal e localizado, geralmente concentrado no período de verão, fora do defeso, diferentemente de alimentos consumidos diariamente. Ainda assim, a preocupação existe devido à característica de alguns metais acumularem-se no organismo e não serem eliminados. Cálculos sobre as quantidades consumidas serão realizados para avaliar riscos.
O ecossistema dos manguezais na região de Paranaguá está inserido em um contexto ambiental complexo e diversificado. Próximo ao manguezal, encontram-se áreas de intensa atividade, como o Porto de Paranaguá, que gera um tráfego considerável de navios; a Ilha da Cotinga, uma terra indígena; e a Ilha do Mel, um destino turístico reconhecido. Essa heterogeneidade sugere múltiplos fatores potenciais que podem influenciar a presença de elementos químicos no ambiente.
Resiliência dos Caranguejos e Ações do Rebimar
Apesar da identificação de mercúrio e chumbo nos caranguejos-uçá, a pesquisadora Cassiana Metri observou que os crustáceos monitorados demonstravam boa saúde e vida normal. Esse fato levanta duas hipóteses principais sobre como os animais lidam com a contaminação. Uma das linhas de investigação sugere que os caranguejos podem eliminar os contaminantes através da carapaça, que é trocada anualmente. A outra hipótese explora a base alimentar do caranguejo-uçá, que inclui as folhas de mangue. Essas folhas, ricas em tanino, podem possuir uma atividade antioxidante que oferece proteção aos animais. A descoberta de tais mecanismos pode inclusive abrir caminhos para o desenvolvimento de novos produtos na indústria farmacêutica, aprofundando o conhecimento sobre como contaminantes químicos afetam os seres vivos.
A Associação Mar Brasil, por meio do Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar), conta com o patrocínio do Programa Socioambiental da Petrobras desde 2009. Atualmente, a Petrobras destina R$ 6 milhões para um ciclo de quatro anos, financiando o monitoramento da fauna e do ambiente marinho na vasta Grande Reserva Mata Atlântica, que se estende do litoral sul de São Paulo até o litoral norte de Santa Catarina, passando pelo Paraná. Utilizando tecnologias avançadas como imagens de satélite, drones e georreferenciamento, o projeto estima uma área de 49 mil hectares de manguezais, equivalentes à superfície da cidade de Porto Alegre. Para a Petrobras, cada real investido no programa retorna em média R$ 4,88 em benefícios sociais e ambientais.
Manguezais: Carbono Azul e Soluções Climáticas
A oceanógrafa Sarah Charlier Sarubo, outra pesquisadora do Rebimar, lidera o monitoramento da saúde da vegetação dos manguezais, registrando anualmente o crescimento das árvores, a espessura de seus troncos e a qualidade do solo. Essas informações são vitais para compreender a vitalidade e a saúde desses ecossistemas. A pesquisadora ressalta a importância da conservação dos manguezais, especialmente pelo seu papel crucial como “carbono azul”. Esse termo se refere à capacidade desses ecossistemas costeiros e marinhos de capturar e armazenar dióxido de carbono (CO₂), superando em eficiência outros biomas como a Floresta Amazônica, o Cerrado e a Caatinga. As características únicas dos manguezais, como a entrada diária da maré, a salinidade e o ambiente anóxico (com baixo oxigênio), são fundamentais para uma captura e armazenamento de carbono significativamente mais eficiente no solo.
Sarah Sarubo destaca os manguezais como soluções naturais perfeitas para a mitigação de problemas climáticos, como as inundações recorrentes. Uma linha de 100 metros de manguezal é capaz de atenuar a energia das ondas em até 60%, conforme estudos. Além disso, o tipo de solo característico previne a erosão, evitando o assoreamento de áreas vizinhas. Os manguezais também funcionam como grandes filtros naturais, depurando contaminantes e matéria orgânica provenientes das cidades e entregando água mais limpa e saudável para as baías e estuários, atuando como verdadeiras “esponjas” naturais contra a poluição.
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A identificação de mercúrio e chumbo nos caranguejos do litoral do Paraná reforça a necessidade de vigilância constante e de investimentos em pesquisa ambiental. O trabalho conjunto de pescadores locais e programas como o Rebimar, com apoio de entidades como a Petrobras, é essencial para a conservação dos manguezais e a proteção da saúde pública. Para continuar acompanhando notícias e análises sobre temas ambientais, sociais e urbanos que afetam nossas comunidades, explore mais conteúdos em nossa seção de Cidades e mantenha-se informado sobre as iniciativas que moldam o futuro de nossas regiões.
Crédito da Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil
