Dr. Éverton Sagiorato e a Saúde Mental no Trabalho

Economia

A discussão sobre a saúde mental no trabalho deixou de ser uma exclusividade da área de recursos humanos, estabelecendo uma conexão direta e mensurável com a performance global das empresas. A crescente percepção de seus impactos econômicos e operacionais ressalta sua importância como fator estratégico para a sustentabilidade corporativa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a ansiedade e a depressão são responsáveis por um prejuízo global de aproximadamente 12 bilhões de dias úteis anualmente, representando um impacto financeiro estimado em um trilhão de dólares para a economia mundial.

No Brasil, um marco crucial para essa transição ocorreu com a vigência da fiscalização da Norma Regulamentadora 1 (NR-1), que passou a abordar os riscos psicossociais. Segundo Dr. Éverton da Costa Sagiorato, médico do trabalho, essa medida proporcionou um ponto de partida mais concreto para o gerenciamento da questão dentro das organizações, elevando-a a um patamar de gestão semelhante a outros riscos ocupacionais.

Dr. Éverton Sagiorato e a Saúde Mental no Trabalho

Até um passado recente, as consequências da negligência com a saúde mental no ambiente de trabalho manifestavam-se de maneira difusa e eram dificilmente associadas a uma única origem. Fenômenos como a queda de produtividade, o absenteísmo frequente e a alta rotatividade de pessoal eram percebidos como problemas isolados na rotina empresarial. No entanto, a exigência da NR-1 para que as empresas identifiquem e documentem os fatores de risco psicossocial no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) altera profundamente essa lógica.

Do Sintoma Difuso à Gestão Estruturada

Essa nova obrigatoriedade impõe que as empresas não apenas reconheçam, mas também nomeiem e monitorem esses fatores de forma estruturada, em vez de tratá-los como meras questões de clima organizacional, antes percebidas como subjetivas. Dr. Éverton da Costa Sagiorato enfatiza que, “quando você é obrigado a documentar o que antes ficava só na percepção informal de que ‘aquele setor está desgastado’, você começa a enxergar padrão onde antes só havia impressão”. Essa abordagem, segundo o especialista, transforma a capacidade da empresa de intervir proativamente, antes que os problemas evoluam para afastamentos por questões de saúde.

A formalização dos riscos psicossociais permite que as organizações deixem de agir de forma reativa para adotar uma postura preventiva. Isso se traduz em um olhar mais apurado para as causas de desgaste e sobrecarga, impulsionando a criação de ambientes de trabalho mais saudáveis e resilientes. A capacidade de analisar dados documentados revela tendências e gargalos que, anteriormente, passavam despercebidos, fortalecendo a gestão da saúde e segurança do trabalho como um todo.

Detecção Precoce pela Medicina do Trabalho

Do ponto de vista da medicina ocupacional, a detecção de sinais de sobrecarga psicossocial muitas vezes precede um diagnóstico formal de burnout ou de outros transtornos de ansiedade relacionados à atividade laboral. Dr. Sagiorato explica que indícios como queixas repetitivas durante os exames periódicos, a recorrência de atestados médicos de curta duração e os relatos informais captados em consultas ocupacionais, quando analisados em conjunto, podem revelar padrões setoriais em vez de casos isolados de mal-estar. A identificação desses padrões permite intervenções precoces, evitando o agravamento das condições e a necessidade de afastamentos prolongados.

O médico do trabalho desempenha um papel fundamental nesse processo de rastreamento. “O papel do médico do trabalho nesse processo é justamente cruzar essas informações clínicas com a realidade da organização do trabalho. Um exame periódico isolado não conta essa história. O padrão ao longo do tempo, sim”, pondera Dr. Éverton da Costa Sagiorato. Essa análise aprofundada, que une o conhecimento clínico com o contexto organizacional, é essencial para uma gestão de riscos psicossociais eficaz e humanizada, garantindo a prevenção antes do diagnóstico formal.

Sinais Cruciais de Alerta Psicossocial

A atenção a indicadores específicos pode ser vital para as empresas identificarem riscos psicossociais antes que se tornem problemas mais graves. Queixas persistentes em exames ocupacionais de rotina, o aumento perceptível no número de atestados médicos de curta duração e frequentes, além de relatos concentrados de desgaste emocional em determinadas equipes ou setores, são sinais de alerta. Quando observados de forma cumulativa e ao longo do tempo, esses fatores apontam para a possível existência de riscos psicossociais não devidamente gerenciados dentro da organização. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a falta de atenção a essas questões gera um impacto significativo na produtividade e bem-estar global.

A recorrência desses sinais não deve ser ignorada. Eles são a manifestação de um ambiente que, talvez, esteja impondo exigências excessivas, fornecendo recursos insuficientes ou promovendo dinâmicas interpessoais desfavoráveis. Monitorar esses indícios permite às empresas atuar proativamente na modificação de processos e na promoção de uma cultura que valorize a saúde integral dos seus colaboradores, mitiga a necessidade de afastamentos e otimiza a produtividade geral.

O Impacto da Documentação Compulsória na Prevenção

A obrigatoriedade de manter registros contínuos dos riscos psicossociais, incluindo um plano de ação e revisão periódica, transcende o mero cumprimento regulatório. Essa exigência instaura uma rotina de acompanhamento que, anteriormente, dependia unicamente da iniciativa e maturidade de cada empresa. Dr. Éverton Sagiorato destaca que essa equiparação da gestão de riscos psicossociais com outros riscos ocupacionais – como a exposição a agentes químicos ou ergonômicos, que já demandam inventário, plano de ação e monitoramento contínuo – é o cerne da transformação introduzida pela nova fase da NR-1.

“Risco psicossocial deixou de ser tratado como categoria à parte, mais subjetiva, e passou a seguir a mesma lógica de gestão que já se aplica a qualquer outro risco ocupacional. Isso profissionaliza a forma como a empresa lida com o tema”, reitera o médico do trabalho. Essa mudança de paradigma é fundamental, pois retira a subjetividade e a informalidade do tratamento da saúde mental, integrando-a plenamente às estratégias de gestão de riscos e segurança do trabalho, exigindo responsabilidade e documentação clara para todas as ações. O impacto se reflete em políticas empresariais mais consistentes e no fortalecimento de ambientes corporativos mais seguros e conscientes.

A Visibilidade Crescente de Um Desafio Organizacional

Com a fase de fiscalização punitiva da NR-1 ainda recente, a expectativa é que um número cada vez maior de empresas, à medida que se adaptam às exigências normativas, identifique e documente proativamente os fatores de risco psicossociais. Esse movimento tende a trazer à luz um problema que, por muito tempo, permaneceu diluído e pouco visível, misturado em indicadores empresariais que não se conectavam de forma explícita.

Ao se profissionalizar a abordagem da saúde mental ocupacional, o tema ganha um espaço mais concreto e estratégico na rotina de gestão de qualquer organização, independentemente de seu porte ou setor de atuação. Essa visibilidade é crucial para o desenvolvimento de soluções mais assertivas e a construção de um ambiente corporativo que realmente priorize o bem-estar e a produtividade de seus colaboradores a longo prazo, contribuindo para uma economia mais saudável e sustentável. Este cenário representa não apenas um cumprimento regulatório, mas uma evolução na gestão de pessoas e riscos empresariais.

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Em suma, a expertise do Dr. Éverton da Costa Sagiorato e a evolução da NR-1 reafirmam que a saúde mental no trabalho é, hoje, um fator de custo mensurável e uma prioridade estratégica inegável para as empresas. Ignorá-la implica riscos financeiros e operacionais substanciais, enquanto gerenciá-la adequadamente promove um ambiente produtivo e saudável. Para aprofundar a compreensão sobre como as mudanças regulatórias impactam o cenário corporativo brasileiro e temas econômicos relacionados, explore outros artigos em nossa editoria de Economia.

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