Neste último domingo, 26 de julho, milhares de mulheres negras marcharam no Rio de Janeiro, precisamente na orla de Copacabana, em uma poderosa manifestação por democracia, contra o racismo, pela reparação de injustiças históricas e em defesa do bem-viver. O evento marcou a 12ª edição da Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro, reafirmando o compromisso com a justiça social e a luta por condições de vida dignas para a população negra do Brasil.
O lema “Bem-Viver” guiou a mobilização, que surgiu como uma resposta veemente à necessidade de implementação de políticas públicas efetivas capazes de erradicar as desigualdades arraigadas e o racismo estrutural. As participantes, unidas em um clamor coletivo, exigiram atenção para as reivindicações de uma comunidade que historicamente enfrenta desafios desproporcionais e busca o reconhecimento pleno de sua dignidade e direitos. A data escolhida para a marcha também possuía um significado profundo, ocorrendo logo após o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela, ambos celebrados em 25 de julho, o que reforça o contexto de resistência e celebração da ancestralidade feminina negra.
Marcha Mulheres Negras Rio: Bem-Viver e Reparação em Foco
A coordenadora do Fórum Estadual de Mulheres Negras do Rio de Janeiro, Clátia Vieira, enfatizou a importância de alcançar o “bem-viver”, articulando-o intrinsecamente com a adoção de medidas de reparação. Segundo Vieira, o processo exige, em primeiro lugar, a escuta atenta das demandas das mulheres negras. Em segundo, é fundamental que o racismo seja reconhecido e abordado como uma pauta estrutural da sociedade brasileira. Ela destacou ainda a profunda e prejudicial conexão entre o racismo e o sistema capitalista, que perpetua a instabilidade econômica, política e social, resultando em altas taxas de desemprego e outras formas de marginalização que afetam desproporcionalmente as mulheres negras.
A participação na marcha foi diversificada, incluindo famílias inteiras que se engajaram ativamente. A educadora Bárbara Carine, por exemplo, trouxe sua família, defendendo a relevância de inserir as crianças nos espaços de mobilização social e política. Para Carine, a política se manifesta no entendimento da própria identidade, na compreensão dos direitos inerentes e na percepção da distância que ainda separa a sociedade de um patamar ideal de justiça e igualdade. A Marcha das Mulheres Negras do Rio, em sua visão, é um momento para celebrar os avanços históricos e a caminhada percorrida, mas, acima de tudo, para vislumbrar um futuro onde as pautas superem a mera sobrevivência e alcancem o tão almejado “bem-viver”. Essa perspectiva reflete o anseio por um futuro onde a plenitude de vida seja a norma, e não a exceção, para as mulheres negras e suas comunidades.
Um dos símbolos mais potentes e recorrentes da marcha foi a memória de Marielle Franco, vereadora carioca brutalmente assassinada em 2018 em um crime de natureza política. Faixas, camisetas e discursos frequentemente reverenciavam Marielle como um eterno ícone da luta e resistência. A mãe da vereadora, Marinete Silva, fez questão de participar do ato, reiterando que Marielle, presente na marcha de 2017, estaria novamente nas ruas junto às mulheres negras. Para Marinete, mesmo “tombada”, a figura de Marielle permanece uma inspiração que impede o silêncio. A participação política feminina era uma das grandes causas defendidas por Marielle, e a presença de sua mãe ressaltou a continuidade desse legado e a vitalidade do movimento de base.
Além dos discursos políticos incisivos, a 12ª Marcha das Mulheres Negras do Rio foi um espaço de vibrante celebração cultural. Apresentações artísticas pontuaram o percurso, intercalando as falas e enriquecendo a experiência dos participantes. Grupos como Afrolaje, Angoleiras e Obara Ylê de Ouro trouxeram ao público manifestações que honravam a ancestralidade, celebravam a resistência cultural e a rica produção artística negra. Essa dimensão cultural da marcha demonstrou que a luta por direitos está intrinsecamente ligada à valorização da identidade e do patrimônio cultural.
Cinthia Garcia e Laísse Santos, um casal vindo de Maricá, participaram da mobilização e ressaltaram a importância dessa celebração cultural e identitária. Para Laísse, se houvesse uma única palavra para descrever a essência da sua presença no evento, seria “pertencimento”. Cinthia, por sua vez, complementou que a marcha representa a defesa do direito de existir plenamente, ser quem se é. Ela destacou a liberdade de usar os cabelos de forma autêntica, sem críticas, e o orgulho de exibir elementos ancestrais, como o turbante. Esses pequenos grandes atos de resistência e afirmação cultural são fundamentais para combater o racismo cotidiano e a microagressão.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
Atuando no campo do afroturismo em Maricá, Cinthia e Laísse também trouxeram para o debate a forma como o racismo se manifesta no apagamento das contribuições históricas e culturais da população negra para o desenvolvimento do Brasil. Segundo Cinthia, as cidades frequentemente são apresentadas com foco exclusivo na presença de personalidades brancas importantes, minimizando ou ignorando o papel fundamental dos afrodescendentes. “Pouco se fala de quem realmente construiu a cidade, quem foram as mãos que construíram, de quem foi a tecnologia e a nossa luta é de resgate dessas histórias invisibilizadas”, complementou, evidenciando que a luta vai além do presente e busca reescrever a história com a devida representatividade.
A constante mobilização por direitos humanos e justiça social é crucial em contextos onde as desigualdades raciais ainda são latentes. Compreender as demandas de grupos minorizados é essencial para o desenvolvimento de uma sociedade mais equitativa e justa. A 12ª Marcha das Mulheres Negras no Rio de Janeiro ressoou esses clamores, reforçando a importância da visibilidade e da ação coletiva para transformar realidades, conforme documentos importantes como os da Organização das Nações Unidas apontam em seus esforços contra a discriminação racial e a xenofobia globalmente.
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A edição da marcha neste domingo sublinhou que a defesa dos direitos das mulheres negras e a busca pelo “bem-viver” são batalhas contínuas, enraizadas na história e projetadas para o futuro. As milhares de vozes em Copacabana reiteraram o chamado por uma sociedade que verdadeiramente celebre a diversidade e garanta dignidade para todos. Continue acompanhando a cobertura de Política em nosso blog para ficar por dentro dos principais acontecimentos e debates sociais que moldam o nosso país.
Crédito da imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil

