A renomada ativista e pesquisadora Angela Davis Critica Gentrificação e Racismo Ambiental durante a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip 2026). Em um evento público e gratuito realizado no Sesc Caborê, a filósofa compartilhou suas perspectivas em uma conversa mediada pela jornalista Flávia Oliveira, destacando-se como uma das vozes mais potentes nas celebrações do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, bem como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, ambos ocorridos neste sábado, 25 de julho de 2026. O diálogo foi parte da programação paralela do festival, que se encerra hoje, 26 de julho de 2026.
Durante sua participação, Davis enfatizou a profunda conexão entre a história e o presente da cidade de Paraty. Ela ressaltou que a atmosfera do local permite sentir a presença dos ancestrais, cujos papéis foram cruciais durante o período da escravização. Para a ativista, o movimento negro em sua busca por liberdade possui uma dimensão cultural intrínseca, que, segundo ela, estava sendo glorificada durante a ocasião do evento. A capacidade da música, da arte e da literatura, conforme apontado por Davis, reside em nos transportar para esferas de compreensão inatingíveis por outros meios.
Angela Davis Critica Gentrificação e Racismo na Flip Paraty
Angela Davis não se limitou a observar, denunciando de forma incisiva os problemas sociais locais. Ela focou especialmente na ocorrência de gentrificação e racismo ambiental em Paraty. A ativista expressou preocupação com as comunidades mais vulneráveis, alertando: “Queria falar sobre a gentrificação que está acontecendo em comunidades pobres aqui em Paraty. E também sobre o racismo ambiental. Os jovens nos falam que estão preocupados com o meio ambiente, que eles não têm futuro. Eles não terão futuro para viver neste planeta. Aqui em Paraty, tentam criar meios para ganhar mais lucro, tirando as pessoas das suas terras, das terras dos seus ancestrais.” O processo de gentrificação, explicou, é caracterizado pela valorização de uma área que resulta no aumento do custo de vida, forçando os residentes de menor renda a se deslocarem para regiões mais periféricas.
A experiência direta de Angela Davis com as comunidades de Paraty foi um pilar em sua fala. Ela narrou ter tido a oportunidade de dialogar com os próprios moradores, permitindo-lhe “escutar o que está acontecendo aqui nessa área.” Davis salientou que a atenção não deve ser dedicada apenas à literatura em si, mas ao papel intrínseco que a arte da palavra desempenha na capacidade de influenciar as massas e promover transformações sociais e estruturais significativas. Para entender mais sobre este conceito, você pode consultar estudos sobre racismo ambiental e suas barreiras para a sustentabilidade.
Legado de Pensadores Afro-Brasileiros e a Força da Literatura
Expressando sua satisfação em participar do evento, Davis lamentou a ausência do convidado Wole Soyinka, primeiro africano a conquistar o Nobel de Literatura, que não pôde comparecer por motivos de saúde e dividiria a mesa com ela. A ativista também fez questão de saudar e agradecer a presença na plateia da aclamada escritora mineira Conceição Evaristo, dedicando-lhe as palavras: “É um prazer que ela esteja aqui presente. Muito obrigada pela sua literatura tão bela.” Davis posicionou Conceição Evaristo em um patamar de relevância comparável ao da icônica cantora norte-americana Nina Simone e da monumental escritora Toni Morrison.
A “escrevivência”, conceito literário pioneiro de Conceição Evaristo, foi tema de análise por Davis. Ela discorreu sobre o longo tempo que se levou para que houvesse o reconhecimento da necessidade das pessoas negras contarem e partilharem suas próprias narrativas. Ao citar Toni Morrison, que foi a primeira mulher negra a ser laureada com o Prêmio Nobel de Literatura em 1993, Angela Davis destacou: “Toni Morrison nos mostrou que a experiência branca não é universal.”
Com a jornalista Flávia Oliveira apresentando uma série de nomes de pesquisadores e ativistas ligados ao movimento negro, ambiental e de direitos humanos, Angela Davis comentou sobre as relevantes contribuições da intelectual brasileira Beatriz Nascimento. Ao parafrasear Nascimento, “Quando ela falou eu sou atlântica, ela emitiu o sentimento que nos chega a todos, que nos faz sentir parte de um mundo gigantesco,” Davis capturou a essência de um internacionalismo que, segundo ela, foi sua primeira “iluminação.”
Reflexões sobre Internacionalismo e a Luta contra o Capitalismo
Angela Davis relembrou uma de suas primeiras experiências em busca de igualdade no exterior. Ao ir para a França, inicialmente buscou os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade propagados pela Revolução Francesa, porém se deparou com uma realidade diferente. “Eu não encontrei o que estava procurando. Eu descobri a revolução argelina,” relatou. A observação dos argelinos sob ataque da polícia francesa revelou a ela a possibilidade de solidariedade transnacional, uma conexão a algo maior, tal como expressado por Beatriz Nascimento ao afirmar “eu sou atlântica.”
Outra figura central em sua palestra foi a autora e ativista brasileira Lélia Gonzalez, ícone nos estudos e debates sobre gênero, raça e classe. Angela Davis expressou abertamente seu apreço: “Eu amo a Lélia Gonzalez.” Ela salientou que Lélia tem sido uma inspiração duradoura, evidenciando especialmente o conceito da “Amefricanidade” desenvolvido pela ativista e professora. Davis exemplificou esse conceito ao explicar que “a luta negra, em qualquer parte do mundo, não pode acontecer também sem o povo indígena.”
Davis aprofundou sua homenagem a Lélia Gonzalez, descrevendo-a como uma crítica do capitalismo, uma perspectiva que, na sua opinião, é mais relevante do que nunca. “Eu gostaria de dizer que a Lélia Gonzalez é uma crítica do capitalismo, algo que precisamos fazer na primeira era dos trilionários, especialmente porque temos bilionários e trilionários que estão explorando a terra, não se preocupam com nada mais do que fazer dinheiro sem pensar nas consequências,” ponderou a filósofa. Em sua contundente crítica aos indivíduos com vastas fortunas, ela reiterou que estes não personificam o futuro do planeta, mas representam a razão pela qual a vida se torna tão desafiadora para grande parte da população mundial. O capitalismo, concluiu Davis, tem o lucro exacerbado como sua prioridade.
Capitalismo e Desafios Atuais
A filósofa vê o sistema capitalista como um dos principais obstáculos para que as pessoas possam habitar o planeta de maneira equitativa e justa. Angela Davis enfatizou que a exploração e a destruição inerentes a este sistema não se limitam apenas aos recursos naturais, mas se estendem, de forma igualmente prejudicial, aos próprios seres humanos.
Comentando sobre o cenário político atual, a ativista abordou o impacto prejudicial do avanço de governos autoritários nas populações, reiterando que “o povo é mais forte do que o fascismo que pretende governá-lo.” Davis observou que o fascismo é uma tendência preocupante emergente na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, mas que “não entre o povo.” Referindo-se às eleições brasileiras que se aproximam neste ano, ela fez um apelo para que não se permita a ascensão de candidatos alinhados a ideologias fascistas ao poder.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
Outros tópicos relevantes em sua discussão incluíram a proposta de redução da jornada de trabalho e a urgente necessidade de maior inclusão de pessoas negras nas universidades. Segundo Angela Davis, uma jornada de trabalho reduzida poderia oferecer mais tempo de lazer aos trabalhadores, possibilitando-lhes maior acesso à cultura e educação. Ela observou que algumas nações europeias já estão experimentando e vivenciando a implementação dessa medida.
Relembrando sua primeira visita ao Brasil, Davis notou a escassa representatividade de estudantes negros no ambiente universitário daquela época. Contudo, ela reconheceu e celebrou as transformações. “Eu estava aqui e eu vi um novo sistema universitário se desenvolver na Bahia, eu vi mudanças palpáveis e nós devemos celebrar essas mudanças porque vocês as conquistaram. Nós conquistamos essas vitórias, mas não nos acomodemos com essas vistorias. Temos que continuar lutando.”
A Importância da Luta Coletiva
Em um momento comovente de sua fala, Angela Davis compartilhou uma parte de sua própria história para ilustrar o poder irrestrito da luta coletiva frente às instâncias de poder. Ela recordou seu período de prisão, sublinhando que seu papel foi limitado pela sua condição de confinada: “Eu digo que eu não fiz muito, eu estava sentada na prisão.” A verdadeira força, ela argumentou, estava nas ruas: “As pessoas estavam nas ruas gerando o movimento que impediria que aqueles homens que estavam no poder tomassem essa decisão [pela pena de morte].”
Essa vivência lhe conferiu um profundo ensinamento: a união das pessoas, transcendendo fronteiras geográficas e culturais, possui o poder de deter aqueles que buscam violar os direitos humanos. “Em todo o mundo as pessoas disseram: não vamos permitir que nossa irmã seja executada,” concluiu. Perseguida por seu ativismo no Partido Comunista e nos Panteras Negras, Angela Davis foi injustamente detida sob a acusação falsa de conspiração, sequestro e homicídio, desencadeando protestos globais clamando por sua libertação.
Ao refletir sobre essa etapa desafiadora de sua vida, a ativista afirmou que grande parte de seu ativismo e de seu percurso acadêmico foi moldada e evoluiu por conta da experiência da prisão. “Quando olho pra trás naquele período, vejo que foi um presente. Eu fui moldada pelo que passei naquela cadeia, com a experiência com aquelas mulheres que estavam encarceradas também. Nunca pensei que isso acabaria moldando a minha vida,” declarou.
Davis ainda fez menção à sua participação contínua na luta pela defesa da Palestina desde a década de 60. “Uma das vantagens de a gente ficar velha é que a gente acaba reconhecendo que as coisas podem mudar. Eu digo isso porque, por um longo período, parecia que seria impossível a opinião pública mundial ser contrária ao Estado de Israel,” pontuou, ressaltando a perspectiva de mudança que a longevidade lhe concedeu.
Críticas à Violência Estatal e a Luta de Marielle Franco
Ao abordar o grave tema da violência de gênero, Angela Davis ampliou a discussão para além da violência íntima, que se manifesta no âmbito doméstico, para incluir as violências perpetradas pelo Estado. “Vamos pensar também na violência do Estado, as conexões entre a violência íntima e a violência contra mulheres que estão encarceradas, por exemplo, as mulheres sujeitas a violência policial. Isso acaba aumentando a medida da violência no mundo e no contexto da violência íntima,” destacou a ativista.
De forma emotiva, Davis relembrou a vereadora Marielle Franco, tragicamente assassinada em 2018. “E eu quero dizer obrigada a Marielle. Muito obrigada, Marielle Franco,” disse ela, fazendo questão de mencionar a dedicação da irmã de Marielle, Anielle Franco, em preservar e continuar o inestimável legado. Para a ativista, a violência contra a mulher representa uma das formas mais cruéis de agressão, e ela identificou os grupos mais vulneráveis neste contexto. “Eu acho que aprendemos que nós [mulheres negras] somos as que sofremos mais [violência de gênero], e nós sabemos que as mulheres trans negras aqui no Brasil e nos Estados Unidos sofrem muito mais violência do que outro grupo de mulheres. Isso nos indica que temos que quantificar isso de algum modo,” concluiu.
Confira também: Imoveis em Rio das Ostras
A presença e as profundas análises de Angela Davis na Flip 2026 reforçaram a urgência de debates sobre gentrificação, racismo ambiental, e a contínua luta por direitos e justiça social, resgatando a voz de importantes pensadores brasileiros e conectando as lutas locais a um contexto global. Continue acompanhando a cobertura completa de temas de grande impacto social em nossa editoria de Política e Análises, e não perca as últimas novidades.
Crédito da imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil
