Mola Gestacional: Entenda a Doença e Risco de Câncer

Saúde

A descoberta de uma gravidez geralmente é motivo de grande alegria e expectativa, mas em algumas circunstâncias, pode vir acompanhada de desafios inesperados. A mola gestacional, conhecida clinicamente como doença trofoblástica gestacional, representa um cenário onde o desenvolvimento da gestação segue um curso anômalo, transformando um momento de celebração em uma luta contra uma condição que pode evoluir para um câncer.

Foi essa a realidade enfrentada pela terapeuta ocupacional Daiana Nascimento há aproximadamente dois anos. Após um período de tentativas e ansiedade, ela finalmente recebeu a notícia da gravidez. No entanto, a alegria durou pouco. Em um intervalo de menos de três dias, a gestação revelou-se ser uma mola, e, surpreendentemente, em menos de um mês, Daiana estava em tratamento para um câncer decorrente dessa condição. A situação foi descrita por ela como extremamente difícil, pois nunca imaginou vivenciar tal experiência.

Mola Gestacional: Entenda a Doença e Risco de Câncer

A doença trofoblástica gestacional, popularmente conhecida como mola, é classificada como um tumor benigno originado na placenta. Entretanto, este tipo de formação pode apresentar um risco significativo, evoluindo para um câncer de placenta maligno em até 20% dos casos, como lamentavelmente ocorreu com a terapeuta Daiana Nascimento. A compreensão de suas causas e manifestações é crucial para um diagnóstico precoce e um manejo adequado da condição.

Como Surge a Mola Gestacional?

O ponto de partida para a mola gestacional é um erro fundamental no processo de fertilização. Existem dois tipos principais dessa anomalia: a mola incompleta e a mola completa.

  • Mola Incompleta: Caracteriza-se quando um óvulo normal é fecundado por um espermatozoide cujo DNA está duplicado, ou por dois espermatozoides. O resultado é a formação de uma placenta com imperfeições, que coexiste com um embrião que possui anomalias genéticas incompatíveis com a vida.
  • Mola Completa: Nesta situação, um óvulo que carece de DNA é fecundado por um espermatozoide com DNA duplicado ou por dois espermatozoides. Diferentemente da mola incompleta, não há formação de embrião, desenvolvendo-se apenas uma placenta anormal.

Em ambos os casos, a gestação deve ser necessariamente interrompida e a mola precisa ser removida. A permanência da mola acarreta riscos graves, incluindo sangramento uterino intenso e desregulação de funções como a tireoide e a pressão sanguínea, exigindo atenção médica imediata.

Evolução para o Câncer de Placenta

O mais temido efeito da doença trofoblástica gestacional é sua possível transformação em um câncer de placenta, ou seja, um tumor maligno que surge quando células da mola se disseminam e se fixam no útero. A ocorrência é relativamente baixa em mulheres com mola parcial, afetando menos de 5% desses casos. Contudo, em pacientes diagnosticadas com mola completa, o risco aumenta significativamente, com uma em cada cinco desenvolvendo a doença. Em quadros mais agressivos, o câncer pode metastizar para outras regiões do corpo, sendo o pulmão o órgão mais frequentemente atingido.

O professor de obstetrícia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Antônio Braga, uma autoridade no assunto, explica detalhadamente sobre a mola gestacional. Ele é coordenador do Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da Maternidade Escola da UFRJ, uma unidade de referência mundial no atendimento e na pesquisa dessa patologia. O centro se destaca como o terceiro mais importante globalmente nesse campo de estudo e tratamento.

A incidência da mola gestacional varia significativamente por região. No Brasil, aproximadamente uma em cada 200 a 400 mulheres gestantes será diagnosticada com a doença. Esse índice é substancialmente mais elevado quando comparado aos Estados Unidos, onde a taxa é de uma a cada mil mulheres, e à Inglaterra, com uma em cada duas mil. Professor Braga pontua que diversas hipóteses, como fatores genéticos, imunológicos e alimentares, estão sob investigação para explicar essas disparidades regionais, embora ainda não haja conclusões definitivas.

Diagnóstico e Acompanhamento Essenciais

Conforme observado pelo professor Braga, a maioria das pacientes descobre a mola gestacional durante exames de ultrassom de rotina, após a confirmação da gravidez por testes de sangue ou urina, assim como aconteceu com Daiana. É comum que a doença seja completamente desconhecida para as mulheres antes do diagnóstico, o que não implica sua raridade.

O Ambulatório da Maternidade Escola da UFRJ, que faz parte da rede HU Brasil, atende semanalmente cerca de 80 pacientes diagnosticadas com mola por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). A unidade acolhe não apenas moradoras do Rio de Janeiro, mas também mulheres vindas de outras cidades do estado fluminense e até de outras federações. Interessantemente, aproximadamente 30% dessas pacientes possuem planos de saúde privados, mas optam por realizar seu tratamento na unidade pública, destacando a excelência do centro.

“É imprescindível que essas mulheres recebam atendimento em um centro de referência. Nossas pesquisas demonstram que pacientes acompanhadas fora de tais centros têm um risco de mortalidade 10 a 20 vezes maior,” enfatiza o médico e pesquisador.

A remoção da mola, geralmente realizada por aspiração uterina, marca apenas o início de um rigoroso e criterioso acompanhamento. Após a retirada, um exame histopatológico é fundamental para determinar se a mola é parcial ou completa. Com base nesse diagnóstico, a paciente é submetida a consultas periódicas para uma avaliação geral e monitoramento contínuo dos níveis de HCG, o hormônio da gravidez.

Braga explica uma característica única da mola gestacional: “Este é o único câncer humano cujo diagnóstico não depende de histopatologia ou biópsia. A identificação é feita através do hormônio da gravidez, que atua como marcador tumoral da doença.” Em condições normais, após a interrupção da gravidez, os níveis de HCG deveriam diminuir e se estabilizar dentro dos padrões regulares. A persistência ou elevação do hormônio indica que as células da mola migraram para o útero, caracterizando o desenvolvimento do câncer. Nesses casos, o tratamento indicado é a quimioterapia.

Mola Gestacional: Entenda a Doença e Risco de Câncer - Imagem do artigo original

Imagem: Tânia Rêgo via agenciabrasil.ebc.com.br

Apesar da gravidade do diagnóstico, a boa notícia é que grande parte das mulheres que recebem tratamento adequado consegue a cura completa. Uma vez curadas, essas pacientes podem, inclusive, tentar uma nova gravidez. “Elas realizam o pré-natal aqui conosco e muitas dão à luz seus bebês em nossa maternidade, completando suas famílias,” celebra o chefe do ambulatório.

Essa é a esperança de Daiana e seu esposo, Lucas Felipe, que veem a possibilidade de uma nova gravidez como “um sonho adiado por dois anos, mas que, se Deus quiser, se concretizará!” Após concluir as sessões de quimioterapia e com o HCG normalizado, Daiana está curada do câncer. Contudo, ela precisa aguardar alguns meses antes de tentar engravidar novamente, pois um teste de gravidez positivo poderia camuflar uma eventual recorrência da doença.

Histerectomia: Uma Opção em Casos Específicos

Para pacientes mais velhas, que já têm filhos ou que não planejam engravidar novamente, a histerectomia, procedimento cirúrgico de remoção do útero, pode ser recomendada como parte do tratamento. Mônica Rosa do Amaral Pelizari vivenciou essa situação. Aos 45 anos, já mãe de uma filha, descobriu a mola após um aborto espontâneo. Além de enfrentar a perda gestacional em uma idade limite, Mônica também desenvolveu câncer de placenta cerca de um mês depois.

“Sinceramente, não conseguia processar o luto, minha única preocupação era o câncer, um nome que, para mim, sempre soou terrível. Fiquei apavorada, pois nunca havia ouvido falar em mola,” relata Mônica. Apesar do susto e da gravidade, ela compartilha que o tratamento transcorreu de forma “leve”, atribuindo esse resultado ao incondicional apoio familiar e à dedicação dos profissionais de saúde que a acompanharam. “Não houve um único dia em que não tivesse pessoas queridas ao meu lado. Eu e minhas irmãs íamos à clínica como se fosse um passeio, cada uma com um lenço diferente. Foi um período turbulento, mas não angustiante,” ela acrescenta, reforçando a importância do suporte emocional.

Acolhimento e Suporte Abrangente

Os eventos descritos por Mônica ocorreram entre 2018 e 2019. Após a cirurgia e a quimioterapia, ela alcançou a cura do câncer, mas mantém consultas anuais no ambulatório para monitorar sua saúde e os níveis hormonais. A unidade oferece uma gama de serviços de apoio, incluindo atendimento social e psicológico, além de atividades de acolhimento como a musicoterapia. A médica Gabriela Paiva, do ambulatório, sublinha a relevância desse suporte.

“A gestação é acompanhada de expectativas, não só da paciente, mas também do companheiro e da família. Quando chegam aqui, elas estão muito fragilizadas. Em nossa primeira consulta, fazemos questão de reforçar que isso acontece por acaso, que não há culpa e que elas não estão sozinhas,” explica a médica, referindo-se ao apoio que oferecem às pacientes. O site da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) também oferece informações e diretrizes importantes sobre a doença trofoblástica gestacional, que podem complementar o entendimento das pacientes.

Lucas Felipe, o marido de Daiana, valida a perspectiva de que o impacto da perda gestacional, especialmente quando seguido por um diagnóstico de câncer, se estende a toda a família. Ele aconselha que as pessoas próximas também se preocupem com a própria saúde mental para que possam apoiar adequadamente a paciente. “Eu tentei manter o máximo de pé no chão possível ao lado dela, porque percebi o quão devastador foi para ela no dia a dia. Para mim também foi, mas senti que deveria me manter firme. Contudo, a gente aprende que é preciso saber lidar com nossas próprias emoções e que reprimir o que sentimos não é a solução,” ele completa, ressaltando a importância do autocuidado do acompanhante.

As pacientes que desenvolvem a mola frequentemente precisam de suporte logístico e financeiro considerável. Daiana compartilha que sua vida profissional foi completamente paralisada devido ao tratamento, alterando todos os seus planos. Recentemente, conseguiu retornar ao trabalho por um dia na semana, planejando um aumento gradual. Residente em São Pedro da Aldeia, a 141 km da capital fluminense, Daiana dependeu do transporte médico da prefeitura de sua cidade para as múltiplas consultas e sessões de quimioterapia, dedicando um dia inteiro a cada viagem. Há alguns meses, ela descobriu seu direito à gratuidade em ônibus intermunicipais, o que facilitou consideravelmente sua rotina.

A Dra. Gabriela Paiva reforça: “Essas mulheres permanecerão vindo aqui por, no mínimo, seis meses. É um processo exaustivo. E, por vezes, temos a dura tarefa de comunicar que a mola se transformou em câncer. Por essa razão, sempre pedimos que venham acompanhadas. Além disso, a troca com outras pacientes no ambulatório é fundamental para o acolhimento. A mulher que descobre uma doença até então desconhecida percebe que há outras pessoas enfrentando o mesmo, o que gera um senso de comunidade e apoio mútuo.”

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A compreensão da mola gestacional e seus desdobramentos, como o câncer de placenta, é crucial para pacientes e profissionais de saúde. A busca por centros de referência e o suporte emocional se revelam pilares fundamentais para atravessar essa jornada com as maiores chances de cura e bem-estar. Para continuar aprofundando-se em temas de saúde e bem-estar, convidamos você a explorar outras análises e notícias em nosso portal: clique aqui para mais informações.

Crédito da imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil

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