Uma pesquisa recente e alarmante trouxe à tona que um em cada cinco estudantes, abrangendo os anos finais do ensino fundamental e o ensino médio, já se engajou em apostas online, popularmente conhecidas como “bets”. Essa proporção corresponde a 20,4% do total de alunos investigados, conforme revelado pela Frente Parlamentar Mista da Educação na quarta-feira, dia 9 de setembro de 2026. O cenário se agrava consideravelmente no terceiro ano do ensino médio, onde a porcentagem de estudantes envolvidos com as plataformas de apostas atinge quase metade dos pesquisados, marcando 49,7%.
O estudo, realizado em colaboração com a Equidade.info – uma iniciativa dedicada à produção de dados para pesquisas —, abrangeu 1.912 estudantes distribuídos por 191 escolas em diversas regiões do Brasil. Um dos pontos mais impactantes levantados pela investigação é a precoce idade de início das apostas: atividades com as “bets” podem começar já aos 11 anos de idade. Para ilustrar essa preocupante tendência, a pesquisa apontou que 9,5% dos alunos até essa faixa etária declararam já ter feito alguma aposta via internet.
Um em cada cinco estudantes faz apostas online, revela pesquisa
É importante ressaltar que, de acordo com a legislação brasileira vigente, o acesso e a participação de menores de idade em plataformas de apostas online são terminantemente proibidos. Apesar dessa restrição legal, os dados indicam uma lacuna na fiscalização ou na eficácia das barreiras de entrada impostas por essas plataformas.
Engajamento Diferenciado por Gênero e Etapa Escolar
A pesquisa também detalha uma disparidade notável no comportamento de apostas entre os sexos. Os resultados indicam que a participação dos meninos em apostas online é significativamente maior, com 27,8% declarando ter feito “bets”, em contraste com 12,6% das meninas. Essa diferença se acentua ainda mais quando se analisam os dados por etapa escolar.
No segmento do ensino médio, o percentual de meninos que já apostaram online atinge 41,7%. Este número representa mais do que o dobro do registrado entre os estudantes do ensino fundamental 2 (anos finais do fundamental), onde 19% dos alunos do sexo masculino se engajaram em apostas. O levantamento que fundamenta essas conclusões foi meticulosamente conduzido nos meses de agosto e setembro de 2026, por meio de entrevistas presenciais e questionários cuidadosamente estruturados, garantindo a solidez dos dados apresentados.
Análise de Desafios e Insuficiência de Soluções Individuais
Para o professor e pesquisador brasileiro Guilherme Lichand, coordenador responsável pela pesquisa e acadêmico da Stanford Graduate School of Education, as abordagens focadas exclusivamente no comportamento individual dos usuários demonstram ser insuficientes para combater a problemática do jogo online entre jovens. Lichand, cuja afiliação pode ser conferida em instituições como a Stanford Graduate School of Education, alerta contra a tendência de atribuir a culpa às pessoas. Ele também criticou a estratégia das plataformas de apostas que sugerem moderação de jogo após perdas, afirmando que estudos científicos já demonstram a ineficácia de tais “soluções” centradas no autocontrole individual.
O pesquisador enfatiza que, em vez disso, medidas sistêmicas apresentam maior potencial de eficácia. A proibição categórica da publicidade relacionada a apostas e a aplicação de impostos substanciais sobre os valores transacionados pelas plataformas de “bets” são estratégias que, segundo Lichand, direcionam a responsabilidade aos atores corretos. Essas ações têm efeitos comprovados na redução do risco de exposição dos indivíduos, especialmente os mais vulneráveis, ao universo das apostas online.
Caminhos Propostos e Impacto da Educação Financeira
Os dados coletados pela Frente Parlamentar Mista da Educação e Equidade.info sugerem, ainda, que a educação financeira, apesar de sua importância, não tem sido um instrumento eficaz por si só na prevenção da exposição de estudantes a “bets”. A pesquisa indicou que, surpreendentemente, alunos em escolas com um percentual maior de letramento financeiro apresentavam maior probabilidade de se envolver em apostas e menor capacidade de gerenciar ganhos e perdas resultantes. Isso reforça a tese de que o problema é mais complexo do que a simples falta de conhecimento sobre dinheiro.
O levantamento estima que as perdas financeiras agregadas entre o público estudantil pesquisado poderiam facilmente exceder a marca de R$ 1 bilhão. Diante desse panorama preocupante, os organizadores da pesquisa formularam uma série de recomendações práticas e estratégicas com o objetivo de intensificar a proteção dos jovens. Entre as principais propostas, destacam-se a necessidade de maior tributação sobre todas as transações realizadas nas plataformas de apostas, a imposição de restrições mais severas à publicidade de jogos de azar e a implementação de medidas de proteção direcionadas especificamente a indivíduos menores de 18 anos, fortalecendo a legislação existente e criando novas barreiras contra o acesso ilegal de menores ao universo das apostas.
Confira também: Imoveis em Rio das Ostras
A revelação de que um número expressivo de jovens estudantes já se envolve com apostas online sublinha a urgência de uma ação coordenada e multifacetada, envolvendo não apenas as escolas e famílias, mas também reguladores e legisladores, para mitigar os riscos associados. Mantenha-se informado sobre este e outros temas críticos em nossa seção de Análises.
Crédito da imagem: REUTERS/Alexandre Meneghini/Proibida reprodução
