O avanço da telecirurgia robótica no SUS (Sistema Único de Saúde) está prestes a alcançar um novo patamar no Brasil, impulsionado por investimentos governamentais estratégicos. Contudo, essa notável expansão tecnológica confronta um obstáculo significativo: a crescente escassez de profissionais técnicos especializados, cuja atuação é vital para garantir a operação segura e eficiente desses equipamentos de alta complexidade. Esse panorama, marcado pela inovação tecnológica e pela precariedade no suporte técnico essencial, exige uma análise aprofundada para evitar comprometimentos na segurança do paciente e na efetividade dos procedimentos.
Recentemente, o governo federal anunciou um aporte substancial de R$ 50 milhões, destinados à estruturação de uma rede robusta de telecirurgia robótica no âmbito do SUS. Esta iniciativa de vanguarda tem como objetivo primário interligar o conceituado Hospital de Amor, localizado em Barretos (SP), a uma unidade hospitalar em Porto Velho (RO). A previsão é que as operações estratégicas desta rede comecem em julho de 2026, reafirmando o compromisso com a modernização da saúde pública nacional e a democratização do acesso a tratamentos de alta complexidade em áreas mais distantes.
Telecirurgia Robótica no SUS: Avanços e Falta de Técnicos
A trajetória do Brasil no campo da telecirurgia robótica já apresenta marcos históricos de grande relevância global. Em outubro de 2025, o país alcançou uma distinção mundial ao executar a primeira telecirurgia robótica com internet de baixo custo, estabelecendo uma conexão pioneira entre João Pessoa (PB) e Curitiba (PR). Este feito notável demandou uma coordenação intrincada, envolvendo 42 profissionais de diversas especialidades e a colaboração sinérgica de 17 empresas parceiras, sublinhando a capacidade técnica e o espírito de colaboração do Brasil. Pouco tempo depois, em fevereiro de 2026, a Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) conduziu as telecirurgias robóticas inaugurais no SUS. Esses procedimentos foram rigorosamente supervisionados, com a presença indispensável de no mínimo 15 profissionais em cada sala cirúrgica, todos focados no acompanhamento técnico contínuo dos braços robóticos, o que ressalta a importância insubstituível da expertise humana mesmo em sistemas altamente automatizados.
O Mercado Global e o Gargalo de Especialistas
A rápida proliferação de tecnologias na área da saúde é um indicativo do dinamismo do mercado global. Segundo dados fornecidos pela Precedence Research, o setor de robótica cirúrgica registrou um valor expressivo de US$ 12,49 bilhões em 2025, com uma projeção de crescimento de 14,95% ao ano, alcançando a marca de US$ 50,29 bilhões até 2035. Contudo, a mesma pesquisa expõe uma vulnerabilidade crítica: cerca de 59% dos hospitais globalmente reportam atrasos significativos na implementação de robôs cirúrgicos. Esse retardo é atribuído diretamente à escassez de profissionais técnicos devidamente capacitados. Este dado posiciona a falta de suporte especializado não como uma questão menor, mas como uma barreira operacional tão crucial quanto as limitações de custos ou infraestrutura física.
Impacto Crítico da Falha Técnica
Matheus Moreira Soares, um especialista com vasta vivência em suporte técnico intraoperatório e manutenção de equipamentos médico-cirúrgicos em instituições de saúde públicas e privadas, enfatiza a essencialidade do apoio especializado. Para ele, as exigências técnicas inerentes à telecirurgia robótica tornam o suporte intraoperatório uma condição operacional insubstituível. “Quando um sistema de videocirurgia falha no meio de um procedimento laparoscópico, o tempo de resposta técnica não é uma questão logística, é uma questão clínica. A diferença entre uma intervenção de dois minutos e uma de vinte pode determinar o desfecho da cirurgia”, alerta Soares, ilustrando a natureza crítica da agilidade e precisão técnicas.
O Hospital de Amor, reconhecido como uma das instituições pilares do programa de telecirurgia robótica no SUS, já totaliza quase 4 mil procedimentos robóticos. A operação exige o cumprimento de critérios rigorosos, que englobam uma rede de alta performance, estabilidade ininterrupta de conexão e medidas de segurança cibernética robustas, aspectos que amplificam a complexidade inerente ao ambiente técnico-cirúrgico.
Um Problema Estrutural e de Escopo Global
A dificuldade em identificar, formar e reter profissionais técnicos especializados não é uma peculiaridade brasileira. O mercado de telecirurgia nos Estados Unidos, por exemplo, projeta um salto de US$ 1,2 bilhão em 2025 para US$ 3,6 bilhões em 2031. No entanto, um relatório da Mobility Foresights aponta a carência de treinamento específico e a extensa curva de aprendizado técnico como os principais fatores que dificultam a ampla adoção da telecirurgia em território americano. Moreira Soares classifica esta problemática como estrutural. “O investimento em robótica e videocirurgia não vem acompanhado automaticamente de estrutura técnica para sustentá-lo. Hospitais que adquirem sistemas de alta complexidade frequentemente subestimam o custo operacional de mantê-los disponíveis e seguros durante os procedimentos”, ressalta o especialista. Uma análise publicada em junho de 2025 pela Global Growth Insights reitera que a escassez global de técnicos em robótica cirúrgica é a principal barreira para a expansão do setor, validando os 59% de atrasos na implantação hospitalar anteriormente mencionados.
No contexto específico do SUS, a dimensão da questão torna-se ainda mais tangível. Com um volume estimado de 192 mil videolaparoscopias anuais, Moreira Soares pontua que qualquer falha que afete meros 1% desses procedimentos representa quase dois mil casos comprometidos. “Em um traçado de 192 mil videolaparoscopias por ano só pelo SUS, qualquer falha sistêmica de equipamento que afete 1% dos procedimentos representa quase duas mil intervenções comprometidas. O impacto não é estatístico, é clínico e financeiro”, descreve, enfatizando as consequências diretas tanto para os pacientes quanto para a saúde fiscal do sistema.
Protocolos e Soluções para Reduzir Falhas
Diante deste cenário desafiador, Matheus Moreira Soares não se limita à análise, propondo também soluções práticas e inovadoras. Ele é o idealizador do Protocolo SCIDP (Standardized Capture and Image Documentation Protocol), um sistema projetado para padronizar as operações de sistemas de videocirurgia. A urgência e relevância de tal abordagem são amplificadas pelos dados do mercado: a cirurgia robótica gerou US$ 8,89 bilhões globalmente em 2025, um aumento de 13,4% em relação ao ano anterior, e a telecirurgia é vislumbrada como a próxima fronteira de expansão, de acordo com a plataforma médica Sermo.
A aplicação do SCIDP tem demonstrado resultados promissores, com uma redução estimada entre 30% e 45% nas falhas técnicas durante os procedimentos intraoperatórios, além de uma impressionante disponibilidade operacional superior a 95%. “O protocolo foi construído a partir da observação direta de falhas recorrentes em campo, não de manuais de fabricante. Parâmetros operacionais genéricos não respondem às variações de uso clínico real entre especialidades”, esclarece Moreira Soares, ressaltando a metodologia empírica e adaptada às necessidades clínicas. Em complemento ao SCIDP, o especialista também estruturou a Intraoperative Clinical Support and Integrated Prevention Methodology (ICSIP).
O Valor Financeiro do Suporte Técnico
O suporte técnico especializado se consolida não como um diferencial, mas como um imperativo econômico com valor financeiro explícito. Atualmente, o Brasil possui cerca de 200 plataformas robóticas instaladas, com custos que variam entre R$ 7,5 milhões e R$ 16 milhões por equipamento. Além disso, cada procedimento incorre em gastos de R$ 10 mil a R$ 15 mil em materiais e manutenção. Segundo o portal Saúde Business, qualquer falha técnica durante o uso desses equipamentos representa um passivo operacional e clínico imediato e substancial.
“A manutenção corretiva resolve a falha depois que ela ocorre. O modelo ICSIP funciona antes: monitora continuamente, reconfigura em tempo real e elimina a necessidade de parar o procedimento para intervir no equipamento”, detalha Moreira Soares. Com sete anos de experiência em suporte intraoperatório, participando ativamente de 150 a 250 cirurgias anualmente em contextos de média e alta complexidade, o especialista compilou sua vasta experiência no Manual Técnico de Boas Práticas e Operação Segura de Equipamentos Médico-Cirúrgicos. Este manual é atualmente adotado em diversas clínicas e hospitais para o treinamento de equipes médicas, de enfermagem e de engenharia clínica, sistematizando protocolos de operação para diferentes marcas e configurações de equipamentos, visando primordialmente a redução de erros e a padronização de condutas, um aspecto crucial em ambientes com alta rotatividade de pessoal.
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Matheus Moreira Soares sumariza o cenário contemporâneo: a conjunção entre a acelerada expansão tecnológica na área da cirurgia robótica e o perceptível déficit de profissionais com formação técnica especializada em suporte intraoperatório acarreta uma pressão considerável sobre os indicadores de segurança e os custos operacionais das instituições de saúde. “Expansão de cirurgia robótica sem formação técnica especializada em suporte intraoperatório é uma equação incompleta. O equipamento chega, mas o profissional que garante que ele funciona durante a cirurgia ainda é escasso, e esse gargalo tem custo direto em cancelamentos, riscos clínicos e retrabalho de manutenção”, conclui ele, enfatizando a urgência em mitigar essa disparidade para assegurar a sustentabilidade e a excelência dos avanços na medicina brasileira.
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