Na busca por influenciar o panorama político e a participação cívica, uma série de mobilizações tomou as ruas de cidades em todos os Estados Unidos no sábado, 17 de novembro, como parte dos protestos contra Trump que visam incentivar o voto antecipado. Organizado pelo grupo “No Kings”, o movimento articulou centenas de atos por todo o território norte-americano com o objetivo central de motivar eleitores a registrarem seu voto antes do dia oficial das eleições, agendado para 3 de novembro.
Embora apresentadas com um caráter apartidário, as manifestações do “No Kings” claramente prosseguem uma sequência de mobilizações e marchas que já somam quase dois anos, impulsionadas por cidadãos descontentes com a administração do então presidente Donald Trump. Enquanto os críticos se organizavam nas ruas, o próprio Trump conduzia um comício em Kentucky no mesmo dia, visando galvanizar o eleitorado republicano. Nesse evento, o presidente sublinhou e exaltou seu próprio poder, chegando a afirmar: “Posso fazer coisas que são inacreditáveis”, conforme relatos da agência Associated Press.
Protestos Contra Trump Incentivam Voto Antecipado nos EUA
A pauta das mobilizações do grupo “No Kings” girou em torno de questões democráticas fundamentais e da necessidade de um engajamento eleitoral precoce. Em Washington, centenas de pessoas se reuniram no Lincoln Memorial, onde uma banda se apresentou para animar o público. Apesar do clima frio, parte dos presentes dançou, exibindo cartazes com mensagens como “vote cedo” e “tirem as mãos do meu voto”, refletindo a preocupação com a integridade do processo eleitoral e o clamor pela antecipação do voto. Estes eventos espelharam um sentimento nacional de urgência.
Na capital da Geórgia, Atlanta, a importância da participação popular foi destacada pelo vereador Michael Julian Bond. Ele conclamou os manifestantes a ativamente convencerem outras pessoas a votar antes do dia das eleições. Bond comparou o direito ao voto aos superpoderes e enfatizou a responsabilidade dos cidadãos. “A Constituição dá a vocês um poder, certo? É o poder do voto. Vocês vão usar esse poder?”, questionou o vereador, incitando a plateia a fazer uso de sua prerrogativa democrática e ir às urnas. A tônica era clara: o futuro político dependia da ação individual e coletiva dos eleitores.
O Contraste da Retórica de Trump em Seus Comícios
No palanque de Kentucky, o discurso de Donald Trump, como era de praxe, contrastava marcadamente com o teor dos protestos. O presidente proferiu diversas promessas e atacou seus oponentes democratas, fazendo declarações ousadas sobre a política externa e interna. Trump reiterou sua já frequente afirmação de que a “guerra com o Irã terminaria em breve”, uma declaração feita diversas vezes ao longo dos quase oito meses de conflito, e previu uma queda nos preços da gasolina. Tais assertivas faziam parte de um esforço para projetar uma imagem de força e eficácia.
Uma de suas promessas mais ambiciosas incluía a de que, em caso de vitória republicana na Câmara e no Senado, todo adulto americano receberia US$ 5 mil. No entanto, a agência AP noticiou que essa medida teria um custo de mais de US$ 1 trilhão, exigindo aprovação do Congresso e, inevitavelmente, agravaria o déficit orçamentário anual do país, que já se aproximava de US$ 1,8 trilhão. Adicionalmente, Trump prometeu um investimento do Departamento de Defesa na revitalização de uma fábrica de medicamentos específica em Kentucky, caso o partido republicano saísse vitorioso. Tais propostas, ainda que cativantes para alguns setores, enfrentavam questionamentos sobre sua viabilidade e impacto fiscal.
Além das promessas, o presidente Donald Trump alertou sobre as consequências de uma possível vitória democrata, prognosticando uma “depressão econômica” para o país. Ele também propagou a ideia de que o programa do Partido Democrata incluiria a extinção do Senado e da Suprema Corte. A AP, no entanto, prontamente desmentiu essas alegações, afirmando que tais propostas não constavam do programa partidário. Trump ainda tentou criar uma ligação entre os democratas e o grupo “Socialistas Democráticos da América”, que teve candidatos eleitos em primárias recentes, buscando descredibilizar a oposição através de associações estratégicas.
Durante o comício, Trump trouxe ao palco Ed Gallrein, um desafiante vitorioso sobre o deputado Thomas Massie na primária republicana do distrito. Massie havia incorrido na insatisfação do presidente por defender a divulgação dos arquivos de Jeffrey Epstein e por se opor à guerra com o Irã, motivando Trump a apoiar Gallrein na disputa interna. Apesar dos ataques de Trump a Massie, classificando-o como “idiota” e “perdedor”, a reação da plateia a Gallrein foi moderada. Apenas cerca de metade do ginásio aplaudiu a apresentação, enquanto a outra metade permaneceu em silêncio, um indicativo da lealdade contínua de parte dos eleitores a Massie, que mantinha apoio por sua defesa de princípios conservadores, mesmo em divergência com seu próprio partido.
Desafios Legais e Garantias Eleitorais
As questões em torno da integridade eleitoral também se desdobravam em frentes legais. O governo Trump, há anos questionando a lisura do voto pelo correio e afirmando, sem provas concretas, que uma suposta fraude eleitoral lhe custou as eleições presidenciais de 2020, moveu uma ação judicial contra autoridades eleitorais da Califórnia na quinta-feira, 15 de novembro. A ação pedia a um juiz que impedisse o estado de contabilizar votos pelo correio de indivíduos que o governo federal identificava como “provavelmente não cidadãos” até que sua situação imigratória pudesse ser confirmada. Em uma medida subsequente, o Departamento de Justiça advertiu, em 16 de novembro, que funcionários locais responsáveis pelo processamento e apuração de votos enviados por supostos não-cidadãos poderiam ser sujeitos a investigações criminais e processados legalmente. Este conjunto de ações adicionou mais uma camada de controvérsia ao processo eleitoral.

Imagem: g1.globo.com
No mesmo período, senadores democratas elevaram preocupações com a segurança do pleito. Alex Padilla, da Califórnia; Sheldon Whitehouse, de Rhode Island; e Dick Durbin, de Illinois, enviaram uma carta ao procurador-geral, Todd Blanche. No documento, os senadores exigiam um compromisso formal do Departamento de Justiça de não apreender cédulas ou quaisquer outros materiais eleitorais antes da certificação final dos resultados das eleições, uma tentativa de assegurar a transparência e a integridade do processo de contagem dos votos frente às crescentes tensões. Para aprofundar a compreensão sobre os processos eleitorais americanos, você pode consultar o site oficial da Federal Election Commission. O sistema eleitoral nos Estados Unidos é complexo e multi-camadas, merecendo a devida atenção de pesquisadores e eleitores.
Entendendo as Eleições de Meio de Mandato nos EUA
É crucial entender o contexto das “eleições de meio de mandato”, ou midterms, no sistema político dos Estados Unidos. As eleições nacionais ocorrem a cada dois anos, sendo as presidenciais a cada quatro anos. Nos intervalos entre as eleições presidenciais, acontecem as midterms, que não têm como objetivo escolher o presidente, mas sim definir a composição do Congresso e de outras instâncias estaduais e locais, um indicativo claro do apoio popular ao governo vigente. Tais eleições servem frequentemente como um barômetro para a popularidade do partido na Casa Branca, conforme a estrutura política americana funciona.
A disputa nas eleições de meio de mandato abrange todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, cujos mandatos duram dois anos, equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil. Adicionalmente, 35 cadeiras do Senado, onde os mandatos são de seis anos, também estão em jogo. Dentre estas 35 vagas senatoriais, 33 são renovações regulares e duas são “eleições especiais” nos estados da Flórida e Ohio. Estas eleições especiais foram abertas após Marco Rubio ter deixado a cadeira da Flórida para assumir a Secretaria de Estado e JD Vance ter se afastado da cadeira de Ohio para se tornar vice-presidente. Os vencedores destas disputas cumpririam os dois anos restantes dos mandatos originais.
Historicamente, das cadeiras em disputa nas eleições de meio de mandato em questão, 22 eram ocupadas por republicanos e 13 por democratas. Naquele momento, o partido de Donald Trump detinha a maioria em ambas as casas do Congresso. No Senado, a divisão era de 53 republicanos, 45 democratas e 2 independentes, sendo necessárias 51 cadeiras para alcançar a maioria simples. Além das eleições legislativas federais, as midterms também elegem governadores em parte dos estados, bem como deputados estaduais, prefeitos e vereadores, sem que haja um calendário estadual unificado, e cada estado operando sob suas próprias regras eleitorais. Estes resultados têm um peso considerável no apoio que o presidente em exercício terá no Congresso durante a segunda metade de seu mandato. A perda da maioria em uma ou ambas as casas, para o partido do presidente, tende a dificultar a aprovação de orçamentos e políticas públicas, além de conceder à oposição maior poder para iniciar investigações, um fenômeno político bastante comum e antecipado.
Confira também: Imoveis em Rio das Ostas
Este cenário complexo de protestos, comícios e disputas legais destaca a vitalidade da democracia americana e a constante polarização de opiniões em torno da figura de Donald Trump e das políticas governamentais. Os apelos ao voto antecipado sublinham a importância que o eleitorado, tanto descontente quanto apoiador, confere à participação cívica no destino do país. Para ficar por dentro de outros desdobramentos políticos, continue acompanhando nossa editoria de Política e entenda os acontecimentos que moldam o cenário global.
Crédito da imagem: Madison Swart/AP

