Produtores de Água no Centro-Oeste Protegem Cerrado

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Iniciativas inovadoras têm transformado a paisagem e a sustentabilidade no coração do Brasil. Os produtores de água no Centro-Oeste, notadamente em Mato Grosso do Sul, demonstram que é possível conciliar produção agrícola com a conservação ambiental, protegendo o Cerrado, um dos biomas mais ricos e ameaçados do planeta. Fazendeiros da região estão à frente de projetos de recuperação ambiental que garantem não apenas a produção de alimentos, mas também a revitalização de mananciais essenciais para a biodiversidade e o abastecimento humano.

A recuperação de biomas brasileiros tem sido pauta frequente, e a atuação desses “plantadores de água” se destaca como um exemplo notório. Longe das preocupações imediatas com a próxima safra, proprietários rurais como Cristina Possari Lemos, da Fazenda Crescente, buscam deixar um legado de um mundo melhor para as futuras gerações. Essa abordagem sustentável transcende a visão tradicional da agricultura, promovendo um aprendizado contínuo na relação milenar do ser humano com a terra.

Produtores de Água no Centro-Oeste Protegem Cerrado

Vitor Luis Barbosa, dono da Fazenda Paraíso, exemplifica esse novo perfil, afirmando: “Ainda não existe esse termo, mas a gente já se considera aqui na região. Nós somos produtores de água”. A atuação se estende aos arredores de Campo Grande, a capital de Mato Grosso do Sul, conhecida por sua rica arborização e pela exuberância do ipê amarelo. O Cerrado, apesar de ocupar pouco mais de 1% da superfície terrestre, abriga quase 5% das espécies de animais e plantas globais, constituindo um mosaico de vida intensa.

A presença histórica do gado no bioma, com mais de 18 milhões de cabeças em Mato Grosso do Sul – seis vezes a população do estado – gerou, ao longo do tempo, desafios significativos, como o aumento da escassez hídrica. Há oito anos, pecuaristas como Vitor enfrentaram o desespero de rios e nascentes secando, uma realidade confirmada por Claudinei Pecois, presidente da Associação dos Produtores de Água (APA) Guariroba. Essa experiência crítica impulsionou uma mudança de paradigma urgente.

A ciência endossou a urgência. Paulo Artaxo, cientista e professor da USP, ressalta a necessidade de repensar o uso racional da água no Brasil, especialmente porque o período de excesso de chuvas, que favoreceu a produção de alimentos, pode estar se encerrando. Contudo, em Campo Grande, essa lição começou a ser aplicada muito antes, com produtores como Vitor Luis Barbosa, que herdou do pai não só as terras, mas também os ensinamentos sobre a conciliação entre natureza e produtividade.

Na Fazenda Paraíso, outrora utilizada como corredor de boiada, áreas degradadas estão sendo transformadas. A atitude de afastar o gado das nascentes permitiu a rebrota de vegetação e o reaparecimento de fluxos de água. Atualmente, a área da fazenda é rica em nascentes que se conectam, formando o Córrego dos Tocos e, posteriormente, o Guariroba. A Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) comprovou o sucesso dessas ações, registrando um aumento de um terço na vazão do reservatório da APA Guariroba, responsável por 40% do abastecimento de água da capital Campo Grande.

Claudinei Pecois destaca que, com essa ampliação, o reservatório já possui capacidade para abastecer toda Campo Grande com água de alta qualidade, aguardando apenas a infraestrutura necessária para distribuição. O conceito de “plantar água” vai além de uma metáfora, traduzindo-se na restauração da vegetação nativa, devolvendo a funcionalidade a ecossistemas degradados. Verônica Maioli, especialista em conservação do WWF Brasil, explica que essa prática impede a perda de água e promove sua infiltração no solo, realimentando rios e o ciclo hidrológico. Em terrenos degradados, a água escorre superficialmente, causando erosão e assoreamento. Com a floresta, o solo absorve e libera a água de forma gradual, assegurando sua disponibilidade.

Os benefícios se estendem para a fauna. Na APA Guariroba, a volta de animais nativos do Cerrado, como a anta, é um indicativo da recuperação do ambiente e da disponibilidade de recursos alimentares. Embora, inicialmente, produtores demonstrassem receio em dedicar 20 metros de área produtiva para Áreas de Preservação Permanente (APPs), a percepção muda ao constatarem que a preservação da água e do ecossistema reflete positivamente na produtividade das fazendas e no desempenho dos animais.

A transformação também se manifesta na Fazenda Arara Azul, na Serra de Maracaju, onde a produção de gado convive harmoniosamente com o ecossistema, chegando a oferecer “música clássica” ao rebanho em meio à sofisticação das instalações. O biólogo Werner Moreno enfatiza a importância de cada gota de água, como a do Rio do Peixe, que nasce na fazenda e é fundamental para alimentar o Pantanal, bioma para o qual o Cerrado é a principal “caixa d’água”.

A força da natureza pode surpreender. Em outubro de 2024, um período de estiagem severa levou ao ressecamento da Cachoeira do Rio do Peixe, que despenca 75 metros. Contudo, ações coordenadas pelos plantadores de água, lideradas por Werner, para desobstruir e reabrir o caminho das águas, trouxeram a cachoeira de volta. Em apenas cinco dias de trabalho, o fluxo foi restabelecido e, desde então, a queda d’água permanece ativa. Essa experiência reforça a crença de Cristina Possari Lemos: “Respeitando a natureza, ela brota.”

A filosofia dos “plantadores de água” vai além da prática; é um compromisso com o futuro. Cristina descreve a semeadura de sementes variadas para o crescimento de uma mata mista e colorida, um método inspirado na própria biodiversidade. Esse trabalho árduo no campo demonstra que, semeando o bem e cultivando a natureza, colhe-se abundância e vida. Essa iniciativa serve de inspiração para a construção de um futuro mais sustentável para todos.

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As iniciativas dos produtores de água no Centro-Oeste revelam a profunda conexão entre a produção rural sustentável e a vitalidade do Cerrado e do Pantanal. A dedicação desses agricultores e pecuaristas em recuperar e proteger nascentes não só assegura recursos hídricos e biodiversidade, mas também inspira uma nova forma de viver e produzir. Para explorar mais sobre como as práticas de sustentabilidade impactam o desenvolvimento regional, continue acompanhando nossa editoria de Cidades e demais análises no blog.

Foto: Jornal Nacional/ Reprodução