IA Eleições 2026: Escala Ampliada, Vitória Exige Mais

Economia

As Eleições 2026 se aproximam e, com elas, uma revolução tecnológica promete remodelar o cenário das campanhas: a inteligência artificial (IA). A tecnologia generativa de IA emerge como uma ferramenta capaz de impactar profundamente as estratégias políticas, oferecendo aos partidos a chance de otimizar gastos e produzir conteúdo altamente segmentado. No entanto, o simples aumento no volume de material gerado por si só não se configura como um atalho garantido para o sucesso nas urnas.

De acordo com o cientista político Renato Dolci, a inteligência artificial proporciona às legendas uma capacidade inédita de desenvolver inúmeras variações de uma mesma campanha, promovendo um ambiente fértil para a inovação criativa na transmissão de suas mensagens aos eleitores. Apesar dessa ampliação, Dolci ressalta que o fator primordial para que essas mensagens realmente cheguem ao público-alvo continua sendo a distribuição estratégica nas redes sociais. É por meio dessas plataformas que a interação com o eleitorado se estabelece, transcendendo a mera produção de conteúdo.

IA Eleições 2026: Escala Ampliada, Vitória Exige Mais

A grande inovação que a IA introduz nas campanhas eleitorais reside na sua habilidade de diminuir drasticamente os custos associados à criação de diferentes versões de uma mesma comunicação. Conforme observa Dolci, embora a inteligência artificial expanda consideravelmente a oferta de conteúdo, o protagonismo na gestão da atenção e da distribuição permanece nas mãos das redes sociais. Elas atuam como curadoras, determinando o que efetivamente alcançará o eleitor, tornando a mera escala da produção menos relevante se não houver uma estratégia eficaz de veiculação. Este cenário estabelece um novo desafio para as equipes de campanha, que precisarão balancear a inovação tecnológica com táticas comprovadas de engajamento online.

Engajamento e Receptividade do Eleitorado à IA

Apesar da capacidade da inteligência artificial de escalar a produção de conteúdo, Renato Dolci aponta uma disparidade preocupante entre volume e engajamento. Em um estudo próprio, o pesquisador monitorou um crescimento expressivo: nas últimas duas semanas de julho, foram identificados 6.022 vídeos com selo de produção por IA, um salto significativo em relação aos aproximadamente 600 vídeos observados nas duas semanas anteriores. Este aumento, dez vezes maior no período analisado, não se traduziu em um incremento proporcional na interação do público.

O levantamento revela uma faceta desfavorável do uso da tecnologia: “Quando retiramos os dez vídeos de grandes candidatos, os outros 6.012 conteúdos somaram apenas 117 interações”, detalha Dolci. Este dado sugere um baixo interesse por parte do eleitorado em relação aos materiais produzidos com IA, resultado que encontra eco em pesquisa da Quaest. Conforme este último levantamento, uma parcela expressiva de 73% dos brasileiros manifesta desaprovação ao uso da inteligência artificial nas campanhas dos candidatos. Essa rejeição se mostra consistente em todas as faixas etárias, com 68% dos jovens até 34 anos rejeitando o uso de ferramentas generativas, percentual que se eleva para 76% entre eleitores com mais de 60 anos.

A Atenção da Justiça Eleitoral e o Caso Bolsonaro

O debate sobre a aplicação da inteligência artificial em campanhas eleitorais ganhou notoriedade entre o público e, especialmente, na Justiça Eleitoral após um episódio marcante. O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) fez uso de um vídeo contendo a imagem de seu pai, Jair Bolsonaro, durante a convenção nacional do Partido Liberal que confirmou sua candidatura. A situação gerou questionamentos em função das restrições judiciais impostas a Jair Bolsonaro, que está impedido de emitir declarações públicas e de se ausentar de sua prisão domiciliar.

Na peça publicitária, o ex-presidente Jair Bolsonaro aparece em uma breve declaração endossando a candidatura de Flávio, afirmando que o filho daria continuidade ao seu projeto político. O vídeo, em tom artificial na voz do ex-presidente, especificava claramente que seu conteúdo havia sido integralmente gerado por inteligência artificial, buscando atender às medidas restritivas estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal. O uso deste vídeo motivou uma série de denúncias por parte de diversos partidos, sobretudo aliados do governo federal e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que levantaram questões sobre a legalidade da peça e a potencial violação dos termos da prisão domiciliar através de uma representação artificial.

Diante da crescente complexidade e dos desdobramentos éticos e legais do uso da IA, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) convocou uma reunião a portas fechadas na terça-feira (18) para discutir o tema. Integrantes da Corte, nos bastidores, descreveram o encontro como tranquilo, com a apresentação preliminar de argumentos pelos ministros. Contudo, até o momento, o presidente do TSE não estabeleceu uma data para o julgamento final sobre a matéria. Este é um exemplo claro de como o TSE busca ativamente regulamentar a aplicação de IA no contexto eleitoral, dada sua relevância.

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Imagem: infomoney.com.br

A Regulamentação da IA nas Campanhas: Desafios e Limites

Para Renato Dolci, a atuação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em relação à regulamentação da IA deve se focar primordialmente na coibição de conteúdos fraudulentos. Ele destaca a necessidade de abordar especialmente os chamados “deepfakes” e materiais desenvolvidos com a intenção explícita de manipular a percepção do eleitorado sobre um candidato ou tema específico. O especialista aponta que a regulamentação precisa considerar a intenção de enganar, a relevância política da manipulação, o alcance que essa manipulação pode atingir e, crucialmente, a capacidade do eleitor de identificar que uma alteração ou criação artificial foi realizada.

A rotulagem de conteúdo gerado por IA, embora importante, não deve ser interpretada como um “salvo-conduto” para falsificações que possam causar danos antes que o público as compreenda em sua totalidade. Dolci ressalta o equilíbrio delicado: “O desafio é proteger o eleitor sem transformar toda linguagem política em infração e sem confundir criatividade com fraude”. Ele ainda analisa as medidas já adotadas pelo TSE, que exigem a explicitação de que textos, áudios, vídeos ou imagens foram criados ou alterados por IA. Embora as considere necessárias, o analista as avalia como ainda insuficientes. A sua crítica principal recai no foco quase exclusivo da Corte na “peça produzida”, deixando de lado a questão da distribuição.

“A pergunta não é apenas quem fabricou o conteúdo, mas quem o impulsionou, para quais públicos, com que frequência e por meio de quais sistemas de recomendação”, afirma Dolci, argumentando que a distribuição é um fator tão ou mais crítico do que a mera criação. No entanto, mesmo com essa ressalva, Dolci defende que a Justiça Eleitoral deve estabelecer um “piso de proteção” claro, evitando a armadilha de tentar controlar cada faceta do uso tecnológico. Segundo ele, a linha divisória deve ser estabelecida quando a representação política deixa de ser uma “escolha estética” e começa a gerar uma “impressão materialmente enganosa sobre os fatos ou as capacidades do candidato”.

A Neutralidade Tecnológica e a Lógica de Mercado

Renato Dolci reitera a posição de que a inteligência artificial, em sua essência, não possui uma inclinação política ou ideológica intrínseca. A eficácia da infraestrutura tecnológica dependerá da qualidade dos dados que a alimentam e da capacidade de distribuição de quem a opera. Dessa forma, na sua análise, não existe uma vantagem ideológica inerente à tecnologia em uma disputa eleitoral. O cerne da questão não reside em determinar “qual lado ganhou a IA”, mas sim em quem consegue convertê-la em estratégias efetivas de distribuição, construir confiança e mobilizar o eleitorado, tudo isso sem gerar um público tão saturado que perca a crença na busca pela verdade.

Concluindo, o especialista pontua que “Os algoritmos, em si, não são ideológicos, mas, sim, mercadológicos”. Isso significa que o verdadeiro poder da inteligência artificial nas campanhas reside em sua otimização para alcançar e engajar o maior número de pessoas, guiada mais por lógicas de mercado e comportamento do usuário do que por alinhamentos políticos específicos. Assim, a eficiência no uso da IA passa pela inteligência na sua aplicação estratégica e na compreensão profunda do ambiente digital e social.

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Em suma, a IA redefine o panorama das campanhas das Eleições 2026, com potencial de otimizar a produção de conteúdo e reduzir custos, mas como Renato Dolci esclarece, não é um passaporte para a vitória. O sucesso continua atrelado à capacidade de engajamento e à distribuição estratégica. Para se aprofundar nas discussões sobre tecnologia, política e sociedade, continue explorando nossa seção de Política.

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