Com o acordo de livre comércio entre Mercosul UE em pleno vigor, empresas de médio porte brasileiras intensificam seus planos de expansão para o continente europeu. Desde 1º de maio, após um período de negociação que se estendeu por mais de 25 anos, o pacto comercial elimina tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul, abrindo portas para um mercado exigente, mas repleto de oportunidades. Este cenário se mostra promissor, especialmente considerando que as trocas comerciais entre o Brasil e a Europa já atingiram um recorde de US$ 100 bilhões em 2025, evidenciando o potencial dessa relação.
A jornada para conquistar o mercado europeu, no entanto, transcende a simples redução de custos tributários. As empresas precisam demonstrar uma visão internacional estratégica e um compromisso irrestrito com a excelência em toda a cadeia produtiva. É fundamental atender às rigorosas exigências regulatórias, sanitárias, fitossanitárias e de sustentabilidade impostas pela União Europeia, que não foram flexibilizadas pelo acordo. Entre essas normas, destaca-se o Regulamento de Desmatamento Zero da UE (EUDR), que demanda conformidade total dos produtos.
Empresas Médias Otimizam Exportação com Acordo Mercosul UE
Um exemplo notável dessa adaptação é a Peach Up, marca de cosméticos de Santa Catarina, conhecida por seu creme redutor de flacidez e celulites. Após um processo de nove meses, a empresa obteve a licença de vendas para os 27 países membros da UE. Segundo Lu Soares, fundadora da Peach Up, a União Europeia impõe padrões ainda mais rigorosos do que os dos Estados Unidos, onde a empresa iniciou sua expansão internacional via aprovação pela Food and Drug Administration (FDA).
A aprovação da FDA foi uma etapa estratégica para a Peach Up, pois os órgãos reguladores europeus consideram o aval americano como um fator de credibilidade e aprovação técnica. Para adequar o produto ao mercado norte-americano e, consequentemente, ao europeu, a empresa precisou modificar a fórmula original, eliminando um corante laranja por solicitação da FDA. Além disso, foi necessário comprovar que as embalagens, importadas da China, não continham insumos tóxicos. Outra exigência fundamental é a presença de um responsável técnico localizado em solo europeu.
Com a recente certificação europeia, a Peach Up, que faturou R$ 20 milhões em 2025, projeta uma redução de aproximadamente 30% nos custos tributários. A expectativa é que os primeiros embarques para a Europa ocorram em até 90 dias, enquanto a empresa busca representantes comerciais no continente para distribuir seus produtos.
No mesmo segmento de cosméticos, a cearense Labotrat já superou todas as fases de regulamentação necessárias para operar na Europa. André Rios, diretor comercial da Labotrat, ressalta que o maior benefício do acordo está na significativa simplificação dos processos. Anteriormente, o trâmite regulatório podia se estender por períodos de três meses a um ano. Ele estima que o consumidor final europeu poderá ter uma economia de cerca de 10% no preço dos produtos da Labotrat.
Além da vantagem para o consumidor, a Labotrat antevê uma redução ainda maior de custos em sua cadeia de produção. Isso inclui a isenção de tarifas sobre a importação de máquinas, equipamentos e insumos químicos de alta tecnologia, como fragrâncias e moléculas, que hoje possuem uma alta carga tributária quando importados da Europa. Com um faturamento de R$ 230 milhões no ano passado, a Labotrat já realizou o envio de seu primeiro contêiner para a Europa há cerca de um mês, iniciando as operações em Portugal, por meio da Wells, uma rede de beleza com mais de 100 lojas. A empresa já projeta uma expansão para o mercado espanhol, com André Rios acreditando que o impacto total do pacto será percebido a partir do próximo ano devido à sua implementação gradual.
A Amma Chocolate, empresa baiana especializada em cacau orgânico, também está reativando suas operações de exportação para França, Espanha e Dinamarca, que haviam sido suspensas durante a pandemia de Covid-19. A empresa já possui o selo oficial de orgânico da Europa, atestando a conformidade com requisitos como o desenvolvimento sustentável da cadeia de valor e o cultivo do cacau em sistemas agroflorestais. Fernanda Schwarzstein, gerente geral da Amma, projeta uma melhoria tributária entre 5% e 15% e enxerga no acordo uma oportunidade para importar tecnologia industrial, já que parte do maquinário ainda depende de fabricantes estrangeiros, apesar da utilização de ingredientes integralmente nacionais.
Virginia Vaamonde, CEO da GS1 Brasil, entidade global responsável pela padronização de códigos de barras, destaca que o acordo exige maior rastreabilidade em toda a cadeia produtiva. As novas regulamentações focam em produtos livres de desmatamento, na origem dos produtos, segurança, economia circular e sustentabilidade. Segundo Vaamonde, a identificação dos produtos desde o seu nascimento é crucial para que possam ser compreendidos na complexa cadeia de suprimentos global, e a GS1 Brasil oferece apoio fundamental a médias empresas que não possuem a mesma estrutura jurídica das grandes corporações. De suas 61 mil associadas, 25% são médias empresas, e a GS1 planeja lançar materiais de orientação técnica para auxiliar os empresários na compreensão das exigências europeias, garantindo que todos os elos da cadeia estejam alinhados às normas.

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Na visão de Camila Nicolau, advogada do escritório Tardioli Lima, que assessora empresas do agronegócio — setor responsável por 49,5% das exportações brasileiras — a conformidade com normas ambientais e de rastreabilidade transcende o diferencial competitivo e se torna uma condição essencial para a sobrevivência no mercado. Nicolau afirma que “o cumprimento de regras ESG [ambiental, social e governança] deixa de ser uma questão de marketing para ser uma questão de barreira”. A advogada observou um aumento de 30% a 40% nos pedidos de recuperação judicial entre clientes pequenos e médios do agronegócio no último ano, e adverte que a incapacidade de adaptação às novas exigências climáticas e técnicas pode agravar essa tendência.
Para mitigar esses riscos, as empresas precisam buscar assessoria especializada em múltiplas áreas. Isso inclui orientação sobre padrões sanitários, rotulagem, adequação jurídica de contratos internacionais e, crucialmente, o registro de suas marcas nos 27 países da União Europeia para proteger-se da concorrência desleal.
Outro exemplo de sucesso na adaptação é a Prática, uma empresa brasileira de equipamentos para o setor de alimentação, que inaugurou um escritório em Colônia, na Alemanha, no ano passado, e planeja abrir capital na Bolsa de Madri até o final de 2026. André Rezende, cofundador da Prática, enfatiza que o investimento em conformidade com as normas locais é indispensável. A empresa precisou realizar testes de compatibilidade eletromagnética, uma exigência para o mercado europeu que não é aplicada no Brasil. Para adequar apenas a linha de *speed ovens* (fornos rápidos), o investimento em certificações e no desenvolvimento de fornecedores específicos foi de aproximadamente €150 mil. Com faturamento de R$ 460 milhões no ano passado, a Prática está otimista com a extinção das tarifas de importação em seu segmento, notando que o braço internacional já corresponde a 25% a 30% da receita, com um aumento de 73% nas vendas para o mercado europeu no último ano.
O acordo Mercosul UE, portanto, redefine o panorama da exportação para empresas brasileiras. Para explorar a fundo as condições do tratado e seus desdobramentos diplomáticos, você pode consultar o site do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
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Este movimento das médias empresas, impulsionado pela desburocratização e redução tarifária do acordo, não apenas abre novos mercados, mas também exige uma profunda transformação em termos de qualidade e sustentabilidade. A capacidade de se adaptar a estas novas condições será determinante para o sucesso das empresas brasileiras no rigoroso, porém lucrativo, mercado europeu. Continue acompanhando as notícias em nossa editoria de Economia para mais análises e desenvolvimentos sobre o impacto do acordo Mercosul UE no cenário empresarial brasileiro.
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