Uma significativa parcela dos empreendedores brasileiros, especialmente aqueles que já experimentaram o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), manifesta o desejo de retornar ao emprego formal. Esse é o principal achado de um amplo estudo conduzido no Brasil, que revela uma contradição latente entre a percepção pública sobre o empreendedorismo e os anseios individuais da força de trabalho.
Historicamente, a estabilidade da carteira assinada representou um pilar no mercado de trabalho. Contudo, nas últimas décadas, a ascensão da figura do “empreendedor” trouxe uma nova perspectiva, associada à liberdade e a um suposto caminho mais rápido para a ascensão financeira. Essa transição gerou dilemas e, por vezes, uma certa ambiguidade em relação ao papel do profissional no cenário econômico atual.
Empreendedores Brasileiros: Mais da Metade Quer Voltar à CLT
Os dados, coletados em uma pesquisa presencial envolvendo 3.850 pessoas – incluindo a População Economicamente Ativa, Não Ativa e trabalhadores de plataformas digitais em todas as cinco regiões do país –, foram encomendados pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e executados pela Vox Populi, em parceria com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese). O estudo, descrito por Marta Maia, responsável técnica da Vox Populi, como um vasto banco de dados segmentável para debates aprofundados, mostra que, embora 53,4% dos entrevistados acreditem na preferência geral dos brasileiros pelo empreendedorismo, alarmantes 56% dos autônomos do setor privado com histórico CLT afirmam que definitivamente voltariam ao trabalho com carteira assinada. Há ainda um percentual de 30,9% que “poderia” voltar.
Fatores que Afastam do Trabalho Formal
Um dos pontos cruciais destacados pela pesquisa CUT-Vox Populi reside nos motivos que levam os trabalhadores a se distanciarem do vínculo formal. Para os integrantes da População Economicamente Ativa (PEA), a baixa remuneração e as excessivas exigências de qualificação e experiência despontam como os principais obstáculos. Salários considerados insuficientes foram apontados por 44,5% dos entrevistados, enquanto as qualificações exageradas surgiram como empecilho para 38,7%.
Sérgio Nobre, presidente nacional da CUT, exemplifica essa realidade com situações cotidianas. Ele menciona montadoras que ofertam dois salários mínimos, mas requerem alta qualificação e no mínimo dois anos de experiência. Da mesma forma, motoristas especializados em ônibus biarticulados enfrentam remunerações similares. Essa disparidade, segundo Nobre, impulsiona muitos a abandonarem o emprego formal em favor de alternativas como o trabalho por aplicativo, dada a dificuldade de compatibilizar as exigências do mercado com uma remuneração justa.
A Pejotização e a Precarização do Emprego
A informalidade é uma sombra crescente sobre o mercado de trabalho brasileiro. Conforme os dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 37,8% da força de trabalho opera sem registro. O presidente da CUT, Sérgio Nobre, e a diretora técnica do Dieese, Adriana Marcolino, são enfáticos ao afirmar que esta escalada da informalidade decorre diretamente da precarização do próprio trabalho formal. A percepção de que, como assalariado, as contas não poderão ser pagas, empurra o trabalhador para soluções muitas vezes mais arriscadas, mas aparentemente mais flexíveis. Para aprofundar a compreensão sobre os índices do mercado de trabalho, pode-se consultar o site oficial do IBGE sobre a PNAD Contínua.
O professor Nelson Marconi, especialista da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no tema, analisa a popularização da chamada “pejotização” – a individualização de trabalhadores como Pessoas Jurídicas – especialmente entre aqueles com menor escolaridade. Ele alerta para a necessidade de controle desse movimento, já que estes trabalhadores são justamente os que mais necessitam de uma rede de direitos sociais. Marconi adverte que, frequentemente, a maior renda percebida nesses regimes é uma ilusão que esconde jornadas exaustivas e uma remuneração por hora trabalhada substancialmente menor, caracterizando o que sindicalistas classificam como “empreendedorismo de necessidade”. Nobre destaca que essa tendência, impulsionada pelas redes sociais, já influencia a academia e até o sistema de Justiça. A CUT tem dialogado com o governo federal e o Supremo Tribunal Federal (STF) para discutir essa realidade complexa.
Desejos Profissionais e a Ilusão do Empreendedorismo
A pesquisa da Vox Populi revela uma série de contradições quando o assunto são os anseios pessoais dos brasileiros em relação à carreira. Questionados sobre qual tipo de atividade profissional almejavam, respostas opostas surgiram com pesos quase idênticos: 17,8% desejam um bom emprego com carteira assinada, enquanto 17,6% preferem o trabalho autônomo. Em contraste, apenas 7,6% manifestaram interesse em concursos públicos, apesar da estabilidade oferecida ser o maior atrativo para 48% dos que optariam por essa via.

Imagem: Marcelo Camargo via valor.globo.com
Outras nuances mostram essa ambivalência. Quase 41% (40,9%) dos trabalhadores atualmente sob o regime CLT expressaram o desejo de se tornarem empreendedores. Essa aspiração convive com o forte anseio pelo retorno à CLT manifestado pelos autônomos. A própria terminologia se torna um desafio, pois a proliferação do termo “empreendedor” causa confusão. Profissionais como ambulantes, pedreiros, cabeleireiros, técnicos de TI e manicures frequentemente se identificam tanto como autônomos quanto como empreendedores, com Adriana Marcolino pontuando que, a cada seis autônomos, um se autodeclara empreendedor, demonstrando uma fluidez conceitual no mercado de trabalho.
Razões para o Trabalho Autônomo e Desafios Futuros
A pesquisa detalha também os principais motivadores que impulsionam os profissionais à informalidade ou ao trabalho autônomo. A flexibilidade de horário é o principal atrativo para 35% dos que preferem atuar por conta própria. Ser o próprio chefe surge em segundo lugar (25%), seguido por “fazer o que realmente gosta” (18%) e a vontade de “ser empreendedor, construindo algo e deixando um legado” (15%).
Contudo, Marconi reitera que o aumento da população autônoma, particularmente entre os menos escolarizados, demanda uma discussão profunda sobre o risco de obsolescência da CLT e a perda da rede de proteção social que ela oferece. O professor sugere ainda a restrição das atividades que podem ser enquadradas no regime tributário dos Microempreendedores Individuais (MEIs), a fim de coibir fraudes e evitar que contratações ocorram em regimes menos onerosos, desprotegendo o trabalhador. Além disso, ele alerta para as graves consequências previdenciárias: um grande número de trabalhadores informais que não conseguirão se aposentar, gerando futuros rombos no sistema.
Ações Sindicais e o Futuro do Mercado de Trabalho
Diante da emergência de novas modalidades de trabalho, Sérgio Nobre destaca a crescente organização de algumas profissões em associações e cooperativas. Exemplos incluem a criação do Sindicato dos Trabalhadores Entregadores, Empregados e Autônomos de Moto e Bicicleta por Aplicativo (Seambape), em Pernambuco, e o Sindicato dos Motoristas por Aplicativos (Sindmab), em Salvador. Nobre, embora defensor convicto do trabalho formal com carteira assinada, reconhece que o movimento sindical necessita se adaptar e reorganizar-se para atender à complexa e nova realidade do mercado.
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Em suma, a pesquisa desenha um cenário de profundas contradições no mercado de trabalho brasileiro, onde o ideal de autonomia se choca com a segurança do regime CLT. Acompanhar as transformações e discussões sobre o futuro do emprego é crucial para compreender o rumo da economia e da sociedade. Continue explorando as últimas análises e tendências do mercado em nossa editoria de Economia.
Crédito da imagem: Marcelo Ferraz/Valor
