Economia dos EUA Resiste à Crise Energética Atual

Economia

O cenário geopolítico atual impacta diretamente a Economia dos EUA, que surpreende ao demonstrar resiliência frente à crise energética global. O conflito no Irã, agora em sua nona semana, gerou um estrangulamento do Estreito de Ormuz, resultando na interrupção de mais de 20% do fluxo mundial de suprimentos de energia e provocando uma corrida global por alternativas. Nos Estados Unidos, o custo médio do combustível já excede US$ 4,45, alcançando até US$ 6 em determinadas áreas, patamares não vistos desde 2022.

Em março, a inflação subjacente registrou seu maior aumento em três anos, marcando 0,7%, diretamente ligada à escalada dos preços do petróleo. Itens básicos da cesta alimentar, como tomates, bananas e cebolas, também encareceram significativamente desde o início do conflito. Adicionalmente, com a alta dos preços dos fertilizantes, projeta-se um contínuo crescimento nos custos dos alimentos, uma vez que agricultores enfrentam dificuldades para adquirir insumos químicos vitais, usualmente comercializados através do estreito. Apesar desses desafios iminentes, especialistas apontam uma dinâmica singular na nação americana.

Economia dos EUA Resiste à Crise Energética Atual

Contrariando a lógica inicial de que o país estaria em uma situação desesperadora, Eswar Prasad, professor sênior de política comercial e economia na renomada Universidade Cornell, argumenta que o impacto poderia ser substancialmente pior. Prasad atribui a relativa proteção americana à perda de protagonismo industrial e à progressiva transição para uma economia predominantemente de serviços. Segundo sua análise, esses fatores foram cruciais para reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação ao petróleo, comparativamente à situação de meio século atrás.

“O aumento dos preços nas bombas de combustível é, inegavelmente, uma manifestação explícita da elevação do custo do petróleo”, observou Prasad em declaração à Fortune. No entanto, o economista enfatizou que “o efeito desorganizacional global na economia é mitigado pelo fato de que os Estados Unidos já não detêm a posição de potência industrial que ostentavam no passado”.

Desindustrialização e Proteção Econômica

Essa reconfiguração econômica permitiu que os Estados Unidos evitassem a gravidade dos problemas que assolaram diversas nações nas semanas que se seguiram à eclosão do conflito com o Irã, evento que desestabilizou as cadeias globais de suprimento energético. Enquanto países como Paquistão, Indonésia e Filipinas antecipam uma escassez crítica de petróleo, e a Europa dispõe de cerca de três semanas de combustível de aviação, conforme estimativas de Fatih Birol, chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), os EUA apresentaram um comportamento distinto.

Adicionalmente, a condição dos Estados Unidos como exportador líquido de petróleo, com cerca de 10,15 milhões de barris diários exportados e 8,5 milhões importados em 2023, segundo dados governamentais, atuou como um amortecedor contra o choque de preços. Contudo, a salvaguarda mais eficaz contra uma crise energética profunda foi erguida ao longo de décadas de mudanças estruturais.

Transição para a Economia de Serviços: Um Legado de Décadas

A Segunda Guerra Mundial impulsionou um extraordinário boom industrial nos EUA, atingindo seu ápice em 1979, com um recorde de 19,6 milhões de trabalhadores empregados no setor. Esse crescimento ocorreu em parte pela crescente utilização de mão de obra mais barata no exterior e pela expansão da geração baby boomer, que se tornou mais educada e próspera. Entretanto, à medida que essa geração amadureceu e mais mulheres ingressaram no mercado de trabalho, o país começou a se desvincular de seu auge manufatureiro.

Até junho de 2019, o número de empregos na indústria já havia caído mais de um terço (35%) em comparação ao pico de 1979, totalizando 12,8 milhões de vagas. A vacância deixada pelo setor industrial foi preenchida por uma “revolução do trabalho de escritório”. A gestão do presidente Jimmy Carter iniciou um período de desregulamentação, abolindo as distinções entre bancos comerciais, associações de poupança e crédito e cooperativas de crédito, o que tornou as instituições financeiras mais competitivas e orientadas ao mercado. Similarmente, as companhias aéreas passaram a operar sem as imposições do Civil Aeronautics Board, ganhando autonomia sobre rotas e tarifas. O advento dos computadores e o avanço da tecnologia da era da informação consolidaram e aceleraram essa transformação econômica.

As Tentativas de Reindustrialização e Seus Impactos Limitados

A despeito das novas bases da economia americana, houve uma tentativa, por parte do governo Trump, de revitalizar o setor industrial, implementando tarifas para desencorajar a terceirização de empregos manufatureiros para o exterior. Entretanto, esses esforços mostraram-se insuficientes. Dados indicam que a indústria registrou uma perda de aproximadamente 108 mil postos de trabalho durante o período de sua administração, quando essas políticas estavam ativas. Economistas atribuíram tais perdas às próprias tarifas, sugerindo que os impostos sobre importação dificultaram a expansão e a contratação pelas empresas americanas. Outros analistas apontaram o endurecimento das políticas de imigração como um fator que agravou a escassez de mão de obra e a eficiência produtiva. Contudo, devido ao menor peso do setor industrial no PIB americano, em comparação com outras nações, essas políticas e disrupções causaram um impacto proporcionalmente reduzido na economia geral dos EUA.

“A interrupção no sistema produtivo dos Estados Unidos é, de fato, muito mais amena do que em muitos outros países, inclusive economias avançadas como a Alemanha, que ainda dependem consideravelmente mais da indústria do que os EUA”, comentou Prasad. Ele acrescenta que “isso, por si só, limita o impacto do choque”.

O Contraste Alemão e a Produtividade Americana

A Alemanha, por exemplo, gera cerca de 20% do valor bruto de sua economia a partir da indústria, uma porcentagem significativamente superior à média de 15,9% da União Europeia, conforme dados da Eurostat. Em abril, o governo alemão aprovou a concessão de 1,6 bilhão de euros (equivalente a US$ 1,9 bilhão) em subsídios para aliviar os preços dos combustíveis para empresas e consumidores, reduzindo os impostos sobre diesel e gasolina. As projeções econômicas mais recentes indicam que o PIB alemão crescerá 0,6% em 2026, uma revisão para baixo de 0,6 ponto percentual em relação à previsão do outono de 2025.

“Esta guerra é a verdadeira causa dos problemas que estamos enfrentando em nosso próprio país”, declarou o chanceler Friedrich Merz a repórteres no mês passado. Merz tem sido notavelmente franco sobre o conflito, para desgosto de Trump, que, na semana anterior, retirou 5 mil soldados americanos da Alemanha após comentários de Merz sugerindo que os EUA estariam sendo “humilhados pela liderança iraniana”. Em uma entrevista no domingo, Merz minimizou a decisão de Trump sobre as tropas e reafirmou a disposição da Alemanha em cooperar com os Estados Unidos e com o ex-presidente.

A resiliência dos EUA não é atribuída apenas à sua economia orientada para serviços, segundo Prasad. Desde o final de 2019, o país tem experimentado um avanço significativo na produtividade, superando nações como Reino Unido, Canadá e outros países europeus. “Isso é o que tem mantido a economia americana robusta em um período que, de outra forma, seria difícil para a economia global”, explicou Prasad. “E isso continua a tornar a economia dos EUA muito mais resiliente a este, ou a qualquer outro choque que possa surgir, em comparação com outras economias.”

Embora as razões exatas por trás desse salto de produtividade — que poderiam incluir o crescimento do trabalho remoto ou a automação impulsionada pela inteligência artificial — ainda não sejam plenamente compreendidas pelos economistas, é consenso que uma maior produtividade geralmente se traduz em um maior crescimento econômico sem a concomitante pressão inflacionária. Contudo, se a IA for a principal responsável por esse avanço, a escassez de hélio, causada pelo conflito no Irã e elemento crucial na fabricação de chips semicondutores, poderá impor desafios à expansão dessa tecnologia. Mesmo diante dessas incertezas, Prasad não demonstrou preocupação com o impacto da guerra na economia americana, comparado aos seus pares altamente industrializados. Ele concluiu: “Os EUA, mesmo antes do choque, já estavam na melhor posição para resistir a qualquer grande abalo global.”

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Em suma, a transição da Economia dos EUA de um centro industrial para uma nação baseada em serviços e a notável aceleração da produtividade configuram fatores-chave para a atual resiliência frente à crise energética desencadeada pelo conflito no Irã. Continue acompanhando as últimas análises econômicas em nossa editoria de Economia para compreender os desdobramentos desses e outros cenários globais que impactam o dia a dia.

Crédito da imagem: 2026 Fortune Media IP Limited

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