A crescente preocupação com o futuro ambiental do nosso planeta está transcendo o patamar de um temor isolado e se enraíza na vida cotidiana. O constante receio de eventos meteorológicos extremos, a sensação de impotência diante de desastres naturais iminentes ou a angústia frente às profundas transformações climáticas impactam significativamente a saúde mental. Quando este sofrimento se torna persistente e começa a comprometer as atividades diárias, ele pode ser um indicativo de ecoansiedade, termo empregado para descrever os efeitos emocionais resultantes da crise climática e suas múltiplas consequências.
Embora a ecoansiedade não seja um diagnóstico clínico formalmente reconhecido nem um transtorno específico listado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), a principal referência para classificações psiquiátricas, ela manifesta sofrimento real. Os sintomas incluem angústia, tristeza, irritabilidade, distúrbios do sono, dificuldade de concentração e crises de ansiedade ou pânico. O conceito tem ganhado visibilidade recentemente, mas a pesquisa sobre os impactos psicológicos das alterações ambientais já ocorre há várias décadas. Em 2017, a Associação Americana de Psicologia (APA) caracterizou-a como um medo crônico de catástrofes ambientais, um fenômeno em constante estudo. Mais informações sobre os impactos psicológicos das mudanças climáticas podem ser encontradas no site oficial da Associação Americana de Psicologia, que publica pesquisas e diretrizes sobre o tema.
Ecoansiedade: o Medo da Crise Climática Afeta Sono e Mente
A designer e estrategista de sustentabilidade Jéssica Alcântara, de 30 anos, experimentou de perto a ecoansiedade após um incidente marcante. Em 2022, ela foi atingida por uma microexplosão – um violento fenômeno meteorológico de correntes de ar descendentes de nuvens de tempestade – em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. A intensidade das rajadas deformou um telhado de alumínio que subsequentemente desabou sobre a escada de acesso à sua residência, deixando-a isolada no andar superior enquanto testemunhava objetos sendo arremessados pela janela. Jéssica descreveu a experiência como “estar no olho da tempestade”, marcada por intenso barulho e uma visão turva pela janela, onde apenas ouvia os objetos se chocando contra o guarda-corpo e a porta.
Nos meses que se seguiram, a jovem passou a manifestar uma apreensão crescente em relação às previsões do tempo. Em uma madrugada de 2023, durante uma forte ventania, ela sofreu uma crise de ansiedade tão paralisante que foi incapaz de se levantar do chão. Este episódio crítico impeliu-a a buscar acompanhamento psicológico, com o qual segue em tratamento. Consequentemente, as questões climáticas começaram a influenciar decisivamente suas escolhas de vida. Ela relata ter percebido que as mudanças climáticas “deixaram de ser uma discussão distante, sobre um futuro abstrato, e passaram a fazer parte das decisões concretas da minha vida”, pensando agora em moradias sem risco de inundações, buscando lugares mais seguros e cidades que correspondam às suas expectativas.
A abrangência da preocupação com o clima é global e impacta um grande número de pessoas. Uma pesquisa realizada em 2024 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em colaboração com a Universidade de Oxford e o instituto GeoPoll, revelou que impressionantes 56% dos indivíduos entrevistados dedicavam pensamentos aos problemas relacionados ao clima ao menos uma vez por semana. No Brasil, o cenário não é diferente. A edição de 2025 do Panorama da Saúde Mental, um estudo desenvolvido pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, ouviu mais de 10 mil participantes e constatou que 74,3% deles já haviam experienciado diretamente as consequências de algum tipo de evento climático extremo, como inundações, incêndios ou ondas de calor. Desse grupo, cerca de 42% afirmaram que as mudanças climáticas já tiveram ou ainda têm impacto direto sobre sua saúde mental, demonstrando a dimensão do problema no contexto nacional.
De acordo com William Berger, professor do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), indivíduos que já enfrentaram catástrofes tornam-se naturalmente mais vulneráveis à possibilidade de vivenciar eventos similares no futuro. Além disso, aqueles que já lidam com transtornos de ansiedade, fobias ou outras condições preexistentes tendem a reagir com maior intensidade diante da ameaça climática. Contudo, a ecoansiedade pode afetar pessoas que jamais estiveram diretamente em um desastre natural. Berger explica que, na ausência de uma experiência direta, trata-se de “ansiedade pela antecipação do perigo”. Quando o desastre de fato ocorre, a situação muda radicalmente: “é como se a gente abrisse a porta para sequelas psiquiátricas, como transtorno do estresse pós-traumático, depressão pós-trauma e outros quadros secundários quando ocorre um trauma físico”.
A vivência de Diogo Feliciano, cientista político de 30 anos, morador de São Paulo, ilustra esse cenário. Apesar de nunca ter sido diretamente afetado por um evento climático extremo, ele acompanha intensamente as notícias e dados sobre as mudanças ambientais, o que o faz sentir em um estado constante de ecoansiedade. Esta condição influenciou suas decisões diárias, levando-o a preferir o transporte público a dirigir carro e a evitar o consumo do chamado fast fashion, que ele reconhece como um comércio de roupas de baixo custo e alta produção. A crise climática também alterou profundamente a forma como Diogo concebe seu próprio futuro, especialmente em relação à paternidade. Apesar de ter grande desejo de ser pai, ele optou por adotar uma criança em vez de ter um filho biológico, justificando a decisão pela incerteza sobre as condições de vida nas próximas décadas. Ele expressa o sentimento de não querer “colocar uma criança no mundo agora, porque me sinto um pouco sem esperança e sem perspectiva de como vamos estar nos próximos anos”, e afirma que se sentiria culpado de “colocar uma criança em um mundo que parece que não aguentará 30 anos”.
As constantes informações sobre a crise climática geram em Diogo uma sensação palpável de impotência. Ele se sente particularmente frustrado com o avanço de grandes empreendimentos tecnológicos que, em sua visão, aumentam a pressão sobre os recursos naturais, enquanto suas ações individuais parecem ter um alcance limitado. A disparidade entre seus “trabalho de formiguinha” e a escala de uma “Big Tech do Vale do Silício que está instalando vários data centers” é percebida como “muito desesperador”, mesmo reconhecendo que suas iniciativas têm impacto, ainda que menor. Contudo, ele enfatiza que a esperança permanece e é a força motriz para seu engajamento com temas ambientais e a busca por ampliar seu conhecimento na área.
Para lidar com a crescente preocupação ligada à crise climática, Laura Cristina de Toledo Quadros, vice-diretora do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), sugere a transformação da ansiedade em ação prática. Essa jornada pode se iniciar com pequenas medidas individuais, como a implementação da coleta seletiva no lar, e progredir para iniciativas coletivas mais amplas, como a educação ambiental, a participação comunitária e a mobilização em prol de políticas públicas eficazes. A especialista detalha que o leque de ações “pode ser desde uma ação mínima, como todas as pessoas da sua casa fazerem a coleta seletiva, até conscientizar o seu condomínio, a sua vila ou a sua cidade”, passando por “criar estratégias de conhecimento, participar de grupos voluntários de educação ambiental”.
William Berger, por sua vez, foca em estratégias que fortalecem a percepção de controle e o autocuidado. Para indivíduos que apresentam ansiedade vinculada a traumas ou fobias específicas, a terapia cognitivo-comportamental pode ser uma indicação valiosa, dependendo de cada caso particular. Ademais, o desenvolvimento de planos de preparação e o treinamento para situações de emergência são tidos como recursos eficazes para mitigar a sensação de impotência, um dos gatilhos da ecoansiedade. A experiência de Jéssica Alcântara ilustra essa abordagem: parte de sua superação veio através do conhecimento. Ela encontrou apoio em um grupo de 215 pessoas que também lidam com a ansiedade relacionada às questões climáticas, um espaço onde informações são compartilhadas e ajudam os integrantes a compreender a chegada dos fenômenos. O sentimento de impotência alimentava sua ansiedade, e após trabalhar isso com sua psicóloga, ela foi orientada a “sempre ter um plano B e entender melhor o que está acontecendo”, concluindo que “a sustentabilidade me fez entender que pensar no futuro não precisa significar viver com medo dele”. Para Diogo Feliciano, a estratégia de controle mental passou pela adoção de uma rigorosa higiene do sono, evitando a leitura de qualquer material à noite para não prejudicar seu repouso. Ele descreve o processo como uma busca por “controlar o máximo possível” seus pensamentos.
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A ecoansiedade emerge como uma resposta compreensível aos desafios da crise climática, impactando profundamente o bem-estar mental de indivíduos em todo o mundo. Seja por experiências diretas de catástrofes ou pela antecipação de cenários futuros, a preocupação com o meio ambiente já molda decisões de vida e exige estratégias eficazes de enfrentamento, desde a terapia psicológica até o engajamento comunitário e ações de sustentabilidade. Para aprofundar seu entendimento sobre as tendências sociais e comportamentais ligadas às questões ambientais e políticas contemporâneas, explore mais análises detalhadas em nossa editoria: Análises.
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