A preservação dos páramos, ecossistemas de montanha de inestimável valor ambiental, ganha destaque internacional com o documentário “Páramos II El Origen”. A produção cinematográfica do cineasta colombiano Alejandro Calderón busca elucidar a complexidade desses ambientes singulares e as crescentes ameaças que enfrentam, evidenciando sua fundamental contribuição para a vida no planeta.
Recentemente exibido no prestigiado festival Bonito CineSur, na cidade de Bonito (MS), o filme reúne um painel de especialistas renomados no campo da ecologia e geologia. Juntos, eles se aprofundam na exploração da gênese desses sistemas naturais únicos e ressaltam sua função insubstituível para a manutenção do equilíbrio do ciclo hídrico do planeta, um tema de urgência e relevância global em meio às crises climáticas.
Esses sistemas naturais são caracterizados como ecossistemas de alta montanha, marcados por terrenos frequentemente encharcados, uma rica variedade de musgos e arbustos densos, que compõem uma paisagem mística e essencial. Eles se concentram principalmente na majestosa Cordilheira dos Andes, abrangendo extensas áreas na América do Sul e na América Central. A intrínseca ligação entre esses elementos forma o cenário onde a vida se desenvolve e a água se origina de forma constante. Sua estrutura única atua como um regulador natural, filtrando e liberando água de maneira controlada, o que é vital para ecossistemas e comunidades em cotas mais baixas.
Documentário Alerta Urgente para a Preservação dos Páramos
Os solos dos páramos são, em sua maioria, de formação geológica recente, com origens que remontam a processos glaciais e atividade vulcânica. Muitos deles ainda estão em estágio de evolução, conferindo-lhes características pedológicas únicas, como alta porosidade e riqueza orgânica. A capacidade desses solos em reter grandes volumes de água, atuando como verdadeiras esponjas naturais, é excepcional. Essa particularidade os torna depósitos naturais vitais para o abastecimento contínuo de recursos hídricos e para a garantia de água limpa para milhões de pessoas em regiões situadas em altitudes mais baixas. Este atributo fundamental sublinha sua relevância para a subsistência de comunidades e para a integridade de biomas adjacentes.
O cineasta Alejandro Calderón detalha a exclusividade geográfica desses ecossistemas, destacando que os páramos são encontrados quase que unicamente nos Andes tropicais. Suas maiores concentrações se verificam na Colômbia, Venezuela e Equador, com porções menores também se estendendo por uma parte do Peru e na região de fronteira entre o Panamá e a Costa Rica. A Colômbia, especificamente, é o país que abriga a maior porção desses valiosos biomas, com altitudes que oscilam entre 3 mil e 5 mil metros acima do nível do mar. Nessas alturas extremas, a vida desafia a se adaptar a condições climáticas rigorosas, criando paisagens de tirar o fôlego e uma biodiversidade endêmica notável. Para uma compreensão mais aprofundada sobre esses habitats e suas características, é possível consultar o material disponível na World Wildlife Fund (WWF) sobre as Ecorregiões Andinas, que detalha a relevância ecológica desses “laboratórios” naturais.
Calderón também enfatiza a composição peculiar deste ecossistema, que é pontuado por inúmeras lagoas interconectadas, riachos e pântanos de altitude. Essas lagoas funcionam como um complexo e intrincado sistema de processamento hídrico, agindo como o principal ponto de origem e redistribuição da água proveniente dos altos Andes. Delas nascem rios caudalosos que seguem em diversas direções, abastecendo não apenas o mar, mas também regiões críticas para a biodiversidade global, como a vasta Bacia Amazônica e o imponente sistema do Orinoco, um dos mais extensos e ecologicamente relevantes da América do Sul. Essa função os eleva ao status de “caixas d’água naturais” para todo um continente, sustentando florestas, comunidades e diversas formas de vida.
Em “Páramos II El Origen”, o cineasta colombiano se dedica a explorar, em parceria com especialistas renomados, a crucial relevância desses ambientes não só para o fornecimento contínuo de água doce, mas também para a essencial regulação climática do planeta, influenciando regimes de chuva e a temperatura local e regional. O documentário detalha uma série de ameaças crescentes que comprometem esses sistemas delicados. A destruição progressiva da vegetação nativa e a consequente redução da capacidade natural do solo em reter água são pautas centrais da obra, expondo a fragilidade desses santuários naturais diante da incessante ação humana e das pressões econômicas.
“Existem muitas questões envolvidas, como a mineração desenfreada e, muitas vezes, ilegal, a expansão agressiva de monoculturas agrícolas para exportação e a atividade pecuária extensiva, que degrada o solo e as pastagens”, pontuou o diretor em suas colocações. Tais práticas insustentáveis representam uma pressão ambiental e social considerável sobre os recursos naturais dos páramos, ameaçando não apenas a biodiversidade única e a endemicidade local, mas também comprometendo a saúde desses ecossistemas vitais, que desempenham um papel crucial na mitigação das mudanças climáticas globais através do sequestro de carbono.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
O filme de Calderón aborda esses múltiplos aspectos com profundidade, dedicando uma atenção particular ao manejo da terra e do solo como ponto central da problemática. A narrativa cinematográfica mergulha na intrincada história da relação humana com a terra e investiga as formas como o solo tem sido explorado, transformado e, em muitos casos, degradado ao longo do tempo por modelos de desenvolvimento não sustentáveis. Através de análises de caso, testemunhos de comunidades afetadas e discussões científicas, o documentário busca provocar uma reflexão crítica sobre as escolhas de desenvolvimento e seu impacto ambiental de longo prazo, questionando o paradigma do crescimento a qualquer custo.
Em uma entrevista concedida à Agência Brasil, Calderón ressaltou que as ameaças enfrentadas pelos páramos são intrinsecamente similares aos desafios que afligem outros ecossistemas globalmente importantes e igualmente vulneráveis, como a Amazônia. Ele defendeu veementemente a necessidade de uma ampla discussão mundial sobre os padrões e práticas de uso do solo, reconhecendo que tais mudanças não são apenas uma questão ambiental, mas estão intrinsecamente ligadas a fatores políticos, econômicos e sociais complexos. A alteração de nossos hábitos de consumo e produção, portanto, emerge como um imperativo ético e prático para a construção de um futuro mais justo e sustentável.
“Se continuarmos consumindo da maneira como temos feito no último século, o planeta simplesmente não vai aguentar. É um cálculo matemático simples de recursos finitos e demanda crescente”, alertou Calderón com seriedade. A citação sublinha a urgência e a finitude dos recursos naturais que nos cercam. “Em outras palavras, a menos que mudemos os hábitos que cada um de nós temos em casa, desde o consumo de energia até a escolha de alimentos, não conseguiremos resolver nada”, complementou, evidenciando que a responsabilidade pela mudança não recai apenas sobre grandes instituições governamentais ou corporativas, mas sobre a ação individual e coletiva em diversas escalas. Esta é uma chamada contundente para a conscientização e a mudança comportamental em massa.
Para o cineasta, a busca por uma solução eficaz e duradoura para a crise ambiental que assola os páramos andinos exige, impreterivelmente, uma abordagem colaborativa e integrada. O documentário propõe, como caminho para a sustentabilidade, a formação de um consenso ao reunir todas as partes interessadas diretamente envolvidas nos conflitos socioambientais: as comunidades camponesas e indígenas que dependem diretamente desses recursos para sua subsistência cultural e material, os pecuaristas e proprietários de terras que utilizam o solo, e os formuladores de políticas públicas que podem mediar e regulamentar. “Acreditamos que esse é um caminho, talvez o único, para resolver esses problemas, transformando o conflito em diálogo construtivo”, concluiu Calderón, apontando para a importância do diálogo, da negociação e da cooperação como ferramentas essenciais para a construção de um futuro mais justo e sustentável para a região andina e, por extensão, para o planeta.
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A luta pela preservação dos páramos é, em essência, uma luta pela conservação da água, pela estabilidade climática e pela sustentabilidade da vida em um continente inteiro. O documentário “Páramos II El Origen”, de Alejandro Calderón, não é apenas uma obra cinematográfica de denúncia, mas um chamado urgente à conscientização e à ação conjunta para proteger esses tesouros naturais de inestimável valor ecológico e cultural. Para aprofundar a compreensão sobre como políticas públicas influenciam diretamente a conservação de recursos naturais e ecossistemas críticos no Brasil e no mundo, convidamos você a explorar outras matérias e análises em nossa seção de Política. Continue acompanhando nossas editorias para ficar por dentro dos temas que moldam o futuro do nosso planeta e impactam a sociedade.
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