O cenário político brasileiro foi palco de uma intensa discussão neste domingo (1º), quando Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência, e Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, protagonizaram uma acalorada troca de ataques nas redes sociais. O centro do debate? O aumento previsto no preço do diesel, impulsionado pelo reajuste do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que entrará em vigor em fevereiro de 2027. A polarização destacou visões opostas sobre a política tributária e seus potenciais impactos para a economia e os consumidores.
A deliberação ocorreu na última terça-feira (27) e foi formalizada pelo Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), instância que reúne os secretários de Fazenda de todos os 26 estados e o Distrito Federal. A unanimidade dos representantes foi crucial para a aprovação, que atualiza as alíquotas fixas do ICMS sobre os combustíveis, com vigência programada para 1º de fevereiro de 2027. Especificamente para o diesel, o preço por litro aumentará de R$ 1,17 para R$ 1,30, representando uma elevação de 11,1%. Além do diesel, a decisão impacta também a gasolina e o gás de cozinha com reajustes. A Secretaria Executiva do Confaz informou que a atualização considera o cenário de instabilidade dos preços internacionais dos derivados de petróleo. Segundo o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), medidas para mitigar o efeito do ajuste sobre o diesel estão sendo estudadas pelos estados.
É neste contexto de incertezas e previsões de alta que a rixa política ganhou destaque.
Aumento do Diesel: Boulos e Tarcísio trocam ataques por ICMS
A ofensiva inicial partiu de Guilherme Boulos. Em uma gravação divulgada nas redes sociais, o ministro da Presidência criticou veementemente a postura do governador paulista, Tarcísio de Freitas. Boulos salientou que, durante a campanha eleitoral, a corrente política bolsonarista defendia fervorosamente a redução de impostos. Contudo, na visão do ministro, Tarcísio de Freitas, alinhado a essa corrente, teria adotado uma posição contrária ao apoiar o aumento do ICMS sobre o combustível. Boulos estabeleceu uma conexão entre o ajuste tributário e a crescente valorização do petróleo no mercado internacional, que ele associou diretamente ao conflito no Irã, enfatizando os esforços do governo federal em amenizar o custo dos combustíveis para a população. “O governo do Lula está fazendo um esforço gigantesco, de bilhões e bilhões de reais, para segurar o preço do diesel. Sabe quem é que está aumentando imposto e prejudicando isso? O Tarcísio, gente”, declarou o ministro.
Boulos expandiu sua crítica, alertando para os desdobramentos negativos que a elevação do imposto estadual poderia gerar. Ele ressaltou que a medida não afetaria somente a categoria dos caminhoneiros, mas teria um impacto direto e abrangente no custo do transporte de mercadorias. Tal aumento nos custos logísticos, por sua vez, tenderia a se refletir nos preços dos produtos ofertados ao consumidor final, gerando uma pressão inflacionária. O ministro também fez menção ao programa de subvenção federal, um aporte de R$ 2,12 por litro de diesel rodoviário, uma iniciativa que o governo Lula estendeu por mais trinta dias, na mesma terça-feira (27), justamente para contrapor os efeitos da alta do petróleo sobre os valores praticados internamente. No arremate de seu vídeo, Boulos dirigiu um apelo direto a Tarcísio de Freitas, exortando o governador a cumprir sua parte no cenário econômico e auxiliar a população brasileira neste momento crítico com relação ao preço do diesel.
A resposta do governador Tarcísio de Freitas não demorou. Por meio de um comunicado oficial à imprensa, Tarcísio refutou categoricamente as declarações do ministro Guilherme Boulos, acusando-o de usar “informações distorcidas” para fomentar ataques com conotação política. O governador paulista enfatizou que o ajuste do ICMS do diesel foi uma resolução conjunta do Confaz, endossada de maneira unânime por todos os estados, incluindo aqueles que são administrados por gestões do Partido dos Trabalhadores (PT). Para fortalecer seu argumento, Tarcísio exemplificou, citando que a regra nacional adotada se aplicaria indistintamente a São Paulo, Piauí, Ceará e Bahia.
Em um contraponto direto, Tarcísio de Freitas estabeleceu uma comparação entre a política tributária praticada em São Paulo e as adotadas em estados governados pelo PT. Ele argumentou que, ao longo dos últimos quatro anos, a alíquota modal do ICMS em São Paulo foi mantida em 18%. Contrastando, ele apontou que o Piauí elevou sua alíquota para 22,5%, a Bahia para 20,5% e o Ceará para 20%. Adicionalmente, o governador paulista fez questão de listar outras medidas de sua gestão que visam aliviar a carga tributária, como a ampliação de isenções do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços para produtos alimentícios e a completa isenção do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) para motocicletas com cilindrada de até 180 centímetros cúbicos. Em um trecho final de sua nota, Tarcísio ponderou sobre a natureza do debate público: “O debate político exige responsabilidade e respeito à verdade. Divergências não justificam distorcer os fatos para atacar adversários.”

Imagem: valor.globo.com
No mesmo dia, à noite, o ministro Guilherme Boulos utilizou novamente sua plataforma na rede social X para reforçar sua posição e responder às argumentações de Tarcísio de Freitas. Boulos sustentou que a alegação de que o aumento do imposto foi chancelado por unanimidade no Confaz, com a adesão de diversos outros governadores, em nada atenua ou justifica a alegada incoerência do governador de São Paulo em relação ao que defendia em sua campanha política. Segundo o ministro, Tarcísio dedicou meses criticando o presidente Lula pela carga tributária, e logo após três dias do pleito, teria endossado um reajuste significativo do ICMS dentro do colegiado. Boulos não poupou críticas mais duras em sua postagem: “Está claro quem está alimentando a desinformação. Pior do que isso, agindo com hipocrisia e oportunismo político. Assuma a responsabilidade de suas posições, Tarcísio”, sentenciou o representante da Presidência, ampliando o debate sobre o preço do diesel.
Em suma, o embate entre Guilherme Boulos e Tarcísio de Freitas revela não apenas uma divergência política, mas também a complexidade das decisões tributárias e seus potenciais impactos na economia brasileira. A polarização em torno do reajuste do ICMS do diesel demonstra as tensões que marcam o cenário pré-eleitoral, com reflexos que podem atingir desde o custo do transporte de mercadorias até o bolso do consumidor final. Manter-se informado sobre esses debates é fundamental para compreender as dinâmicas do poder e da economia.
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Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

