Um apagão na Ásia Central de larga escala ocorrido em 14 de agosto de 2026 fez com que a região revisite a sua aposta em infraestruturas de rede elétrica integrada, enquanto simultaneamente impulsiona a construção de data centers, demandantes de vastos volumes de energia. A interrupção no fornecimento, que deixou vastas áreas do Cazaquistão, Uzbequistão e Tajiquistão sem energia por até horas, é agora foco de um intenso monitoramento por parte de autoridades e especialistas, questionando a capacidade de resiliência da infraestrutura regional.
A crise se originou no Quirguistão, onde uma queda de aproximadamente 600 megawatts na geração elétrica, datada de 14 de agosto, desencadeou um efeito dominó que rapidamente desestabilizou todo o sistema elétrico interligado da Ásia Central. Esse incidente traz à tona preocupações significativas em um período onde a capacidade de transmissão transfronteiriça da região está sendo triplicada e a demanda por resfriamento, impulsionada pelo desenvolvimento tecnológico, atinge picos sem precedentes. Anteriormente, eventos de tal magnitude eram observados no inverno, o que torna este apagão de verão uma ocorrência inédita e de grande impacto.
Apagão Ásia Central: Crise Desafia Rede e Projetos Data Centers
A falha técnica gerou debates acalorados entre os países envolvidos. O Ministério de Energia do Quirguistão atribuiu a interrupção inicial a dois geradores da usina hidrelétrica de Toktogul, que sofreram uma parada momentânea. Contudo, rejeitou a responsabilidade pelas consequências subsequentes, afirmando que o sistema local havia sido normalizado antes da colapso de um nó da rede em Almaty, Cazaquistão, e que o Quirguistão inclusive fornecia cerca de 250 MW para as nações vizinhas. Em contrapartida, a operadora cazaque Kegoc apontou a perda de carga vinda do lado quirguiz como o principal desequilíbrio que levou às interrupções em suas linhas de transmissão.
Especialistas da área explicam que quedas abruptas na geração de energia resultam em alterações de frequência e fluxo em segundos. Nessas situações, mecanismos de proteção automática e reservas deveriam ser prontamente ativados para isolar a perturbação e impedir sua propagação em cascata. Sobir Kurbanov, pesquisador da Nightingale Intelligence, ressaltou que a questão crucial reside na existência de um monitoramento adequado, capacidade de reserva, proteção automática e procedimentos de emergência eficazes para conter grandes distúrbios. Ele reforça que um sistema bem operado deveria ser capaz de isolar a seção afetada antes que o colapso regional ocorra.
Aumento da Demanda e Infraestrutura de Data Centers
O cenário é ainda mais complexo com o avanço de grandes projetos de computação, que visam consumir um total futuro de 1,5 gigawatt de energia. Em Tashkent, por exemplo, a empresa saudita DataVolt está finalizando a construção de seu primeiro data center, com previsão de operar até o final do ano. Similarmente, a primeira fase do “Data Center Valley” no Cazaquistão, com apoio da Nvidia e Firebird, pode ser concluída já em junho do próximo ano. Esses empreendimentos exigem uma oferta de energia estável e robusta, colocando uma pressão adicional sobre uma rede que já mostra sinais de vulnerabilidade.
O Banco Mundial tem papel fundamental neste contexto, financiando um mercado regional de energia com duração de uma década, projetado para alcançar 16 GW em capacidade de transmissão. O objetivo é fortalecer a segurança energética e a cooperação inter-regional. No entanto, a primeira fase deste financiamento beneficia apenas o Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão, excluindo o Cazaquistão. Kurbanov adverte que a resiliência regional plena não pode ser alcançada se sistemas nacionais cruciais são modernizados enquanto outros gargalos críticos permanecem sem solução, apontando para a necessidade de uma abordagem mais abrangente. A modernização da infraestrutura energética regional é vital para o desenvolvimento sustentável dos países membros, conforme apontam relatórios e iniciativas do Banco Mundial.
Desafios Energéticos e Perspectivas Nacionais
Cada nação enfrenta seus próprios obstáculos. No Cazaquistão, o consumo excedeu a geração em 1,5 bilhão de quilowatts-hora no ano passado, com opções limitadas para balancear essa demanda. Suas usinas a carvão, responsáveis por 70% da eletricidade, não são eficientes em aumentar a produção rapidamente e foram concebidas para cogeração de calor, conforme explicou Olzhas Baidildinov. A dependência de gás importado e o declínio da geração hidrelétrica devido ao recuo das geleiras intensificam a crise, tornando o país dependente da empresa russa Inter RAO, sob sanções da União Europeia. A meta cazaque é suprir a demanda internamente a partir de 2027.

Imagem: Bloomberg via valor.globo.com
O Uzbequistão enfrenta uma dinâmica semelhante, com aumento da produção, mas cerca de 10% da demanda energética ainda não é atendida, segundo o Banco Mundial. Neste cenário de oferta restrita, a implementação de novos e massivos centros de dados exige planejamento meticuloso. Projetos como a subestação de 215 MW para um data center em Ekibastuz, no Cazaquistão, e o plano da TAS-1 de usar a rede elétrica do Uzbequistão, exemplificam essa pressão. Umud Shokri, estrategista de energia da Universidade George Mason, ilustra a magnitude: 12 MW operando continuamente são modestos nacionalmente, mas 500 MW podem representar 5% da geração prevista para o Uzbequistão em 2025, o que demandaria investimentos em geração dedicada e infraestrutura de rede para evitar competição com o consumo residencial em horários de pico.
Medidas de Proteção e Resiliência Futura
Diante do apagão de agosto, o Uzbequistão destacou que seus recentes investimentos na rede incluem um mecanismo de proteção com sistemas de armazenamento de energia capazes de liberar eletricidade rapidamente, o que teria ajudado a conter a crise. Cazaquistão e Quirguistão iniciaram investigações separadas. A experiência da Europa, onde um efeito cascata em 2025 causou um apagão em Espanha e Portugal, afetando brevemente a França, mas sendo contido pelo sistema europeu mais amplo, serve como referência para a Ásia Central.
Sobre as soluções para a demanda dos data centers, a PJM, maior operadora de rede elétrica dos EUA, sugeriu em agosto que concessionárias limitem ou transfiram grandes cargas sem geração correspondente, protegendo consumidores tradicionais. Kurbanov defende que reguladores da Ásia Central exijam que grandes instalações financiem parte substancial de suas necessidades energéticas adicionais. Aruzhan Meirkhanova, analista sênior da Outpost Eurasia, pondera que a resiliência é um fator incorporado desde a fase de projeto de data centers, com certificações e sistemas de backup, podendo até operarem fora da rede, decisão que compete aos investidores com base em capacidade financeira e apetite ao risco. Este inverno promete ser um novo teste decisivo para a rede elétrica da Ásia Central.
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Em suma, o apagão de 14 de agosto de 2026 expôs a necessidade urgente de aprimorar a resiliência e a coordenação da rede elétrica da Ásia Central, especialmente frente ao aumento do consumo por data centers. Os próximos passos incluirão as conclusões das investigações e a busca por um modelo mais robusto para a segurança energética regional. Para acompanhar outras notícias e análises sobre o cenário econômico e a infraestrutura na região, leia mais em nossa editoria de Economia.
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