As manifestações políticas por Lula e Flávio em Brasília movimentaram a capital federal neste sábado, 24 de outubro de 2026, a apenas um dia das eleições presidenciais. Simpatizantes dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) se concentraram em pontos distintos do centro de Brasília, separados por uma curta distância de aproximadamente dois quilômetros. O ambiente foi marcado por intensas emoções e, ocasionalmente, por provocações mútuas quando os grupos de eleitores se cruzavam pelas ruas.
Apesar da proximidade física entre os adeptos de ambos os lados, a percepção de muitos era de uma profunda divisão ideológica e uma distância intransponível entre as visões políticas. Contudo, em meio a essa polarização evidente, a palavra “democracia” ecoou de forma constante em ambas as manifestações, sublinhando a crença no sistema, mesmo com as divergências acentuadas.
Atos de Lula e Flávio Agitam Brasília na Véspera das Eleições
Apesar dos contrastes, a estrutura dos eventos demonstrava elementos em comum: ambos os comícios contaram com a presença de trios elétricos, jingles de campanha entusiasmantes e a execução solene do Hino Nacional. A diferença mais notória estava nas cores e nos locais de concentração: o grupo predominantemente vermelho, defensor do atual presidente Lula, escolheu as imediações do Museu Nacional para seu encontro, enquanto os apoiadores da candidatura de Flávio Bolsonaro, vestidos majoritariamente em amarelo, dirigiram-se à Torre de TV.
Entre a multidão de camisas vermelhas, ostentando a imagem do presidente Lula, a arquiteta Hanna Brandini, de 33 anos, vivenciava sua primeira grande manifestação. Embora ouvisse gritos e provocações de pessoas do outro lado da rua, ela se manteve tranquila e otimista. Hanna expressou a percepção de que a campanha foi amplamente afetada por desinformação, e demonstrou esperança de que os desentendimentos políticos vivenciados sejam apenas passageiros.
Na mesma calçada que Hanna, caminhava Leonardo*, um bacharel em direito de 36 anos, que optou por não revelar seu sobrenome e vestia a camisa da seleção brasileira, cor frequentemente associada à campanha de Flávio Bolsonaro. Ele compartilhou as dificuldades de ter perdido amizades devido às discussões políticas, reconhecendo a intolerância de ambos os espectros políticos. Leonardo fez questão de condenar explicitamente os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, mas revelou ter se sentido discriminado nos anos anteriores. Seu anseio para o futuro governo, que seria eleito no dia seguinte (25 de outubro de 2026), era o de que a alternância de poder fosse respeitada pelos que não fossem vitoriosos nas urnas.
Também usando a camisa da seleção brasileira estavam Lana Wendy Rodrigues, monitora de creche de 29 anos, e Dayane Gomes, vendedora de 32, ambas moradoras de Sobradinho 2, na periferia do Distrito Federal. As amigas relataram que, em suas vivências diárias, não enfrentaram situações de resistência ou intolerância por pensarem diferente, pois preferiam evitar conversas sobre política. Ambas se descrevem como vivendo em uma “bolha” onde as preferências tendem a ideais de direita, e levaram uma bandeira do Brasil ao ato de apoio a Flávio Bolsonaro.
Contra os Extremismos e a Favor do Respeito Democrático
Nem todos da família de Lana e Dayane escolheram vestir amarelo. Samuel Nascimento, bancário de 26 anos, e Julia Nascimento, consultora de 34, irmãos das duas, são exemplos. Eles frequentemente participam de manifestações políticas, mas com uma postura avessa a extremismos, optando por não aderir às cores. Samuel reiterou a importância do respeito à democracia, enfatizando que tanto os vencedores quanto os derrotados devem acatar os resultados e que a transição de poder necessita ser pacífica, como pilar da estabilidade nacional.
No universo dos eleitores jovens, o engajamento foi palpável. Maria Eduarda Nascimento, uma estudante secundarista de 18 anos, demonstrou grande entusiasmo. Ela, que votava pela primeira vez em eleições presidenciais e almeja cursar biomedicina, estava na manifestação vendendo leques, bonés e camisetas com a imagem do candidato Flávio Bolsonaro. A estudante atribuiu sua inclinação política à influência de seu pai e de amigos da igreja evangélica que frequenta na Ceilândia, uma das maiores regiões administrativas do Distrito Federal, refletindo a força dos vínculos sociais na formação das preferências.
A dois quilômetros dali, a fervor juvenil também estava presente no lado oposto. As irmãs gêmeas Laila e Melissa Lacerda, ambas com 16 anos, estavam animadas com seu primeiro voto em Luiz Inácio Lula da Silva. Em sua rotina de estudos do segundo ano do ensino médio, elas se declararam muito felizes e motivadas pela ativa participação dos jovens nos eventos políticos. Laila destacou que as pautas mais relevantes para seus amigos incluíam a defesa do ensino público e gratuito e o desarmamento, reforçando uma posição clara: “Não temos como concordar com quem defende mais armas nas ruas,” afirmou ela, ilustrando a clareza de suas convicções políticas e sociais.
Trajetórias de Mudança e Mobilização Pessoal
Entre os manifestantes, histórias de vida se entrelaçavam com o cenário político. O economista aposentado Murilo da Cunha, de 73 anos, apesar de enfrentar uma doença neurológica rara, fez questão de percorrer a Esplanada dos Ministérios em sua cadeira de rodas. Ele expressou uma felicidade contagiante, comparando a intensidade do momento com outros grandes movimentos democráticos brasileiros, como as “Diretas Já”, na década de 1980, e o movimento dos “caras-pintadas”, em 1992. Murilo, no entanto, lamentou ter perdido o contato com familiares e amigos devido à polarização de opiniões políticas.
Próximo a ele, um casal de manifestantes demonstrou uma trajetória de mudança política. José Pedro Oliveira, de 61 anos, e Ana Carolina Campos, de 48, decidiram não usar o vermelho em sua participação, um sinal de suas próprias reflexões. Em 2018, ambos votaram em Jair Bolsonaro para presidente, mas uma dolorosa experiência pessoal levou-os a reavaliar suas escolhas: o filho adolescente do casal enfrentou perigo de morte em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) devido à COVID-19. Esse episódio mudou radicalmente suas perspectivas. “Nós nos decepcionamos muito e passamos a pensar radicalmente diferente. Nosso filho vai se formar neste ano em ciência da computação e devemos prezar para que o negacionismo não ameace a vida de mais ninguém,” disse Ana Carolina, evidenciando como eventos pessoais podem influenciar profundamente as convicções políticas. José Pedro corroborou a mudança, revelando ter se afastado de familiares e amigos após a experiência, enfatizando a necessidade de preservar a ciência e a vida.
Um grupo de universitários e uma advogada também se manifestou em apoio a Lula, sublinhando que seus votos estavam fortemente conectados à defesa de pessoas negras e da comunidade LGBTQIAP+. Nathália Rocha, de 25, e Eduardo Couto, de 28, ambos universitários, junto com a advogada Sophia Barbosa, de 28, chamaram atenção para a urgência da regulamentação das redes sociais. Segundo eles, o ambiente digital tem contribuído para a criação de um abismo entre os brasileiros. “Isso é urgente. A nossa democracia pede isso”, ressaltou a advogada, indicando a importância de um debate regulatório para preservar a integridade social e o processo democrático.
Manifestações Além de Brasília
O fervor eleitoral não se limitou a Brasília. Por todo o Brasil, ocorreram diversas manifestações e atos de campanha, consolidando um ambiente de grande mobilização popular na véspera das eleições. Em Maceió, Alagoas, os apoiadores de Lula se reuniram na orla da cidade antes mesmo do nascer do sol, participando de uma corrida marcada para iniciar às 5h13 da manhã, demonstrando o compromisso de diversos setores da sociedade com a participação democrática e com a expressão de suas escolhas. É fundamental reconhecer o voto como “a arma da democracia”, conforme defendido em discursos eleitorais e na valorização dos processos eleitorais. Saiba mais sobre a importância do voto no Tribunal Superior Eleitoral.
Fortaleza, Ceará, também registrou sua corrida de rua em apoio a Lula pela manhã, com surfistas, nadadores e atletas de remo que se uniram para realizar um ato singular no mar, sob o slogan “A Praia é Nossa”. Enquanto isso, em outras capitais, o candidato Flávio Bolsonaro também contava com a mobilização de seus simpatizantes. Houve um ato de seus apoiadores em Goiânia, Goiás, pela manhã. Outras cidades como Cuiabá (MT), Dourados (MS), e Vitória (ES), e diversas outras localidades pelo país, igualmente abrigaram manifestações pró-Flávio Bolsonaro, reforçando a abrangência da disputa.
Ambos os principais candidatos tiveram agendas intensas fora da capital federal. Luiz Inácio Lula da Silva participou de uma manifestação de rua em Copacabana, no Rio de Janeiro, durante a manhã e, à tarde, se encontrou com uma numerosa base de apoiadores na emblemática Avenida Paulista, em São Paulo, transformando os locais em verdadeiros oceanos de bandeiras e faixas. Por sua vez, Flávio Bolsonaro esteve em Belo Horizonte, Minas Gerais, acompanhando uma motocarreata vibrante pela manhã, e, em seguida, participou de um ato na Barra da Tijuca, também no Rio de Janeiro, completando uma extensa agenda de campanha e reforçando seu contato direto com o eleitorado, mostrando a força das manifestações pelo Brasil.
Esta análise detalhada das manifestações simultâneas em Brasília, e o panorama das mobilizações em outras regiões, destaca a intensidade e a pluralidade da política brasileira na véspera de mais uma eleição presidencial. As histórias dos participantes revelam as nuances das escolhas individuais e o impacto da política na vida cotidiana de cada cidadão.
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Crédito da imagem: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil e Lula Marques/Agência Brasil
