Após um período de grande euforia no mercado brasileiro com o desfecho do primeiro turno das eleições, muitos investidores que já possuíam posições colheram ganhos significativos. Agora, o cenário que se desenha é de maior cautela para quem pondera investir eleição segundo turno, visando lucros rápidos em um eventual rali que suceda o dia 25 de outubro. Especialistas alertam que o objetivo de curto prazo costuma ser desaconselhado devido à volatilidade.
A Bovespa, impulsionada por uma percepção de favoritismo da oposição, registrou sua melhor performance semanal desde 2020, alcançando um patamar recorde acima dos 209 mil pontos na última sexta-feira, 9 de outubro. No dia anterior, uma pesquisa Datafolha indicava Flávio Bolsonaro (PL) com 49% das intenções de voto para o segundo turno, frente aos 45% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), conforme publicado em 8 de outubro.
Investir Eleição Segundo Turno: Riscos e Cautela para Lucro
Antes de fazer novas apostas no mercado eleitoral, gestores e analistas consultados por publicações especializadas enfatizam a importância de avaliar cuidadosamente três pontos cruciais. É fundamental que o investidor compreenda o quanto o cenário político atual já está precificado nos ativos, estime o potencial de perdas caso a estratégia não se concretize e, por fim, analise se terá a capacidade de desfazer a posição a tempo de garantir os lucros desejados. Esta abordagem se torna ainda mais relevante para quem busca aproveitar a potencial valorização da bolsa pós-eleição.
Análise Pós-Primeiro Turno e Cenário Atual
André Matos, CEO da MA7 Capital, observa que o influxo de aproximadamente R$ 10 bilhões de capital estrangeiro após o primeiro turno foi determinante para a recente alta da Bolsa de Valores brasileira. Contudo, Matos alerta que essa quantia pode se retirar com a mesma velocidade caso as projeções de pesquisa mudem ou se houver um aumento na incerteza quanto à política fiscal do futuro governo. Para ele, o mercado nacional está vivenciando uma antecipação de expectativas, e não uma mudança econômica já consolidada.
Para quem busca ativamente investir eleição segundo turno, a euforia inicial foi analisada por Ricardo Farias, gestor da Fator Administração de Recursos, que considerou que o mercado passou a embutir a vitória de Flávio Bolsonaro (PL). Sua recomendação era aguardar a dissipação dessa euforia inicial para distinguir o que era uma genuína reprecificação dos ativos do que consistia apenas em ruído de mercado. Da mesma forma, Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, avalia que os valores dos ativos já incorporam um governo de quatro anos sob a gestão Flávio, e que uma vitória de Lula (PT) poderia anular grande parte dessa valorização. Em contraste, um relatório do JPMorgan, divulgado em 6 de outubro, sugeriu que o rali das taxas de juros ainda tinha força, com forte ímpeto e um posicionamento dos investidores considerado “limpo”.
Potenciais Cenários de Mercado: Ganhos e Perdas
Na prática, a decisão de investir eleição segundo turno envolve comparar o que pode ser ganho contra o risco de perdas. Em um cenário de continuidade do fluxo de capital estrangeiro, Matos projeta que o Ibovespa poderia testar o patamar de 215 mil pontos, o que representaria uma valorização de cerca de 2,9% em relação ao fechamento mais recente. Contudo, um cenário reverso, com o retorno ao nível anterior ao primeiro turno – ou seja, 192,1 mil pontos – significaria uma queda de aproximadamente 8%.
Os resultados do primeiro turno mostraram Flávio Bolsonaro com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%, uma margem de apenas 1,87 ponto percentual. Essa inversão da ordem que era indicada pelas pesquisas de intenção de voto demonstra a fluidez do cenário político. Gesner Oliveira, economista e sócio da GO Associados, além de professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), ressalta que a vantagem de Flávio é reversível, tratando o segundo turno como uma disputa completamente nova, com dinâmicas próprias.
O Alerta da História e Fatores Externos
O histórico eleitoral recente serve como um lembrete importante para a cautela dos investidores que buscam investir eleição segundo turno. Em 2014 e 2022, por exemplo, o dólar registrou uma queda acentuada logo após o primeiro turno, mas rapidamente recuperou quase toda a valorização, conforme análise de veículos financeiros. Em 2022, na semana anterior ao segundo turno, o Ibovespa chegou a acumular uma desvalorização de 5%. Apenas em 2018 o dólar manteve sua trajetória de queda até a definição final do pleito.
Além das urnas, Gesner Oliveira salienta que existem riscos adicionais a serem considerados. A política de juros nos Estados Unidos, os múltiplos conflitos geopolíticos, as cotações internacionais do petróleo e a aversão global ao risco podem exercer pressões que contrariem os movimentos observados no mercado doméstico. Marcelo Boragini, da Davos Investimentos, previu uma forte abertura do mercado seguida por uma realização de lucros no primeiro pregão pós-primeiro turno. A Bolsa, de fato, subiu expressivamente na segunda-feira subsequente e devolveu parte dessa alta nos dias que se seguiram. Além disso, o Goldman Sachs projeta que, após a eleição, o mercado passará a cobrar mais vigorosamente as definições relacionadas ao plano fiscal e à composição da equipe econômica do próximo governo, adicionando outro vetor de incerteza para a alocação de recursos pós-pleito.

Imagem: infomoney.com.br
Impacto Eleitoral em Ativos Diversos
Muitos investidores estão expostos aos desdobramentos eleitorais mesmo sem ter plena consciência disso. Os ativos mais sensíveis ao resultado das urnas se classificam, de modo geral, em três grupos distintos:
- Ativos em alta com o rali: Incluem ações de empresas domésticas com alta sensibilidade aos juros, como instituições bancárias, setores de varejo e construção. Títulos prefixados e indexados à inflação de prazos mais longos também se beneficiaram, valorizando-se com a queda das taxas de juros.
- Estatais: Consideradas pelos especialistas como os ativos mais diretamente expostos ao desfecho das eleições, dada a potencial mudança de diretrizes e interferência governamental.
- Ativos em queda: Exportadoras como Suzano e Vale sofreram pressão de baixa, impactadas pela valorização do real frente ao dólar.
Concentrar a carteira em ativos que já subiram, e adquirir mais deles, significa apostar num desfecho único, intensificando os riscos de quem opta por investir eleição segundo turno sem diversificação.
Cuidados com a Liquidez e a Tributação
A votação final ocorre em um domingo, o que significa que investidores posicionados só conseguirão reagir às movimentações na abertura da segunda-feira subsequente, 26 de outubro, quando os preços já terão incorporado o resultado. Por isso, a liquidez de cada ativo assume tanta importância quanto a aposta em si. Ricardo Trevisan lembra que Certificados de Depósito Bancário (CDBs) prefixados e atrelados à inflação geralmente não permitem resgate antecipado antes do vencimento. No Tesouro Direto, a venda antecipada é uma garantia, mas as negociações podem ser suspensas em dias de elevada oscilação das taxas, como já se verificou diversas vezes no ano. Fundos multimercados e de ações podem levar dias ou até semanas para efetuar o pagamento dos resgates, um fator crítico para estratégias de curto prazo. Uma operação que dure poucas semanas incorrerá em uma maior carga tributária, e os impostos variam conforme o tipo de ativo. Na renda fixa, a alíquota de Imposto de Renda é de 22,5% para aplicações de até 180 dias; e resgates feitos antes de 30 dias estão sujeitos ao Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que pode comprometer grande parte do rendimento. Para ações, o lucro é tributado em 15%, com uma isenção para vendas de até R$ 20 mil por mês. Em ETFs de ações, o lucro também paga 15%, mas sem a mesma isenção de R$ 20 mil.
Recomendações Essenciais para o Investidor
Especialistas da área financeira consultados reiteram que a reserva de emergência e qualquer capital destinado a uso em um futuro próximo devem permanecer afastados de quaisquer apostas relacionadas às eleições. Esses recursos devem estar em aplicações de baixo risco e com liquidez diária, protegendo o investidor de ser forçado a liquidar posições com prejuízo justo em um período de elevada volatilidade no mercado. Para o restante da carteira, Gesner Oliveira enfatiza a importância da disciplina: quanto maior a euforia, maior deve ser a cautela, priorizando a diversificação, a entrada gradual e uma análise minuciosa dos fundamentos dos investimentos.
Aqueles que investiram no Tesouro IPCA+ quando a taxa estava em seu patamar máximo este ano acumularam um ganho bruto de quase 30% logo após o primeiro turno. Para esses, a decisão de manter ou vender depende do objetivo inicial da compra, segundo Trevisan. Quem buscou lucros no momento oportuno pode considerar a venda parcial, enquanto quem planeja aposentadoria não precisa se desfazer do título. Para quem prefere não assumir riscos direcionais durante o segundo turno, os especialistas apontam o Tesouro Selic como uma alternativa. Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research, salienta que, embora o título não prometa retornos expressivos, ele permite que o investidor permaneça com seu capital seguro enquanto a disputa eleitoral não se resolve.
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Em suma, a decisão de investir eleição segundo turno exige uma análise criteriosa dos riscos e oportunidades, com especial atenção à liquidez, tributação e às particularidades de cada tipo de ativo. Mantenha-se informado e continue explorando nossa editoria de Política para compreender as implicações dos acontecimentos nacionais e internacionais no cenário econômico e em seus investimentos.
Crédito da imagem: InfoMoney
