Lojas de Conveniência na China Perdem Clientes para Apps

Economia

As lojas de conveniência na China enfrentam uma perda progressiva e significativa de clientes, segundo recentes levantamentos do setor. A redefinição do conceito de conveniência, impulsionada por aplicativos de entrega ágeis e economicamente acessíveis, está transformando os hábitos de consumo e desafiando o modelo tradicional desses estabelecimentos. Esta tendência marca um momento crítico para o varejo chinês, com implicações profundas para a lucratividade e o funcionamento dessas redes.

Os dados do primeiro semestre de 2025 revelam um cenário desafiador. Uma pesquisa conduzida pela Associação de Redes de Lojas e Franquias da China (CCFA) indicou que impressionantes 72% das redes de lojas de conveniência reportaram uma diminuição no número de clientes, quando comparado ao mesmo período do ano anterior, 2024. Este índice representa praticamente o dobro dos 37% que registraram quedas em 2024, evidenciando uma aceleração preocupante na mudança de comportamento do consumidor. Do total de empresas associadas ouvidas no estudo — 60 no total — metade observou uma retração nas vendas, enquanto apenas um quarto conseguiu reportar um aumento no lucro líquido.

Lojas de conveniência na China perdem clientes para aplicativos de entrega

O fluxo médio diário de clientes nas lojas físicas reflete essa transição. A CCFA apontou que o ano de 2025 viu uma média de 284 clientes por dia, uma redução de quase 20% em relação a 2023, período que marcou o início da recuperação econômica pós-pandemia. A média de gastos por cliente também registrou declínio, com uma queda superior a 20% em comparação com os valores de 2022. Alarmantemente, as vendas diárias por unidade comercial tiveram uma trajetória decrescente por seis anos consecutivos, até o fim de 2025. Diferentemente do Japão, onde a consolidação em grandes cadeias e a modernização operacional avançaram, na China, muitas lojas de conveniência ainda carecem de melhorias na eficiência, como a implementação de caixas de autoatendimento. Este cenário ocorre em um contexto de estímulos governamentais ao aumento salarial, elevando a pressão sobre a gestão das redes e suas franquias.

A expansão do mercado de lojas de conveniência na China foi historicamente ligada ao progresso econômico e à urbanização acelerada do país. No final de 2025, as cem maiores redes do segmento ostentavam uma impressionante rede de 207.510 unidades operacionais. Este número é quase quatro vezes superior ao total de lojas similares existentes no Japão, sublinhando a vastidão e a densidade desse mercado no território chinês. Contudo, essa ampla presença física não tem sido suficiente para deter a ascensão dos serviços digitais.

A proposta de valor das lojas de conveniência sempre esteve na proximidade e praticidade, mas ambas as qualidades agora são superadas pela modalidade de entrega em domicílio oferecida pelos aplicativos. Diferente de exigir o deslocamento do cliente, os apps levam os produtos diretamente à porta do consumidor, um serviço que ganhou ainda mais relevância e tração durante a pandemia de Covid-19. Os números corroboram essa tendência de migração. O Ministério do Comércio da China reportou que o mercado de serviços de varejo com entrega imediata, que movimentou 117,9 bilhões de yuans (aproximadamente US$ 17,6 bilhões) em 2019, antes da pandemia, quadruplicou de tamanho nos três anos subsequentes. As projeções para 2026 apontam para um movimento superior a 1 trilhão de yuans.

Para ilustrar a eficiência desses serviços digitais, um teste foi realizado em meados de setembro de 2025 com o Meituan, uma das principais plataformas de entrega imediata no mercado chinês, na cidade de Dalian, província de Liaoning. A experimentação envolveu pedidos variados, como bebidas, produtos de uso diário e até pequenos eletrodomésticos, solicitados de diferentes estabelecimentos. Os resultados foram notáveis pela rapidez: bebidas pedidas em uma loja a menos de um quilômetro de distância do endereço de entrega, no centro de Dalian, chegaram em apenas seis minutos. O custo da entrega, que incluía uma opção prioritária, foi de modestos 4,8 yuans, menos de um dólar. Artigos de farmácia para uso cotidiano, oriundos de um estabelecimento a mais de dois quilômetros, foram entregues em cerca de 12 minutos, com uma taxa de 2,8 yuans para a modalidade prioritária.

Lojas de Conveniência na China Perdem Clientes para Apps - Imagem do artigo original

Imagem: Reprodução Nikkei Asia via valor.globo.com

Essa agilidade e baixo custo dos serviços de entrega imediata na China são largamente sustentados pela vasta mão de obra da “gig economy” (economia de bicos ou trabalhos sob demanda). Estima-se que existam cerca de 100 milhões de trabalhadores nesse segmento em todo o país, somando motoristas de entrega e de transporte por aplicativo, o que os torna uma parte indissociável da infraestrutura urbana e econômica. A atual desaceleração econômica é frequentemente citada como um fator que tem levado muitos jovens recém-formados a ingressar nesse tipo de trabalho, em busca de oportunidades que não encontraram nos mercados tradicionais.

Diante dessa pressão, as lojas de conveniência tentam reverter a perda de demanda aceitando pedidos via aplicativos de entrega. Contudo, essa adaptação ainda é incipiente; em 2025, menos de 40% desses estabelecimentos ofereciam tal serviço. Uma barreira intrínseca a esses negócios é seu sortimento limitado de produtos, decorrente do espaço físico reduzido, o que os coloca em desvantagem na competição com supermercados e lojas especializadas, mesmo no contexto da entrega imediata. Uma estratégia potencial para reconquistar clientes seria a oferta de produtos exclusivos, disponíveis apenas em suas próprias redes. No entanto, a participação de produtos de marca própria nas vendas do setor de conveniência na China é inferior a 5%, uma porcentagem bastante reduzida quando comparada à faixa de 40% a 50% observada em lojas de conveniência no Japão, que são referências globais neste quesito.

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A batalha pela atenção do consumidor chinês é intensa, com os aplicativos de entrega consolidando-se como a nova fronteira da conveniência. O modelo de negócio das lojas físicas tradicionais exige uma profunda reinvenção para competir neste cenário dinâmico, buscando estratégias que vão além da mera adaptação tecnológica e explorem novas formas de agregar valor. Para aprofundar seu conhecimento sobre as tendências do varejo e da economia digital, continue acompanhando nossa editoria de Economia.

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