Na cidade de Uauá, localizada no semiárido baiano, um grupo de jovens talentos da Escola Municipal Nossa Senhora do Perpétuo Socorro desenvolveu um inovador dispositivo para monitorar a qualidade do ar. A iniciativa surge como uma resposta criativa e prática aos problemas respiratórios recorrentes enfrentados por estudantes, que eram agravados pelo clima seco característico da região.
Nomeada “Climatec”, a tecnologia combina princípios de robótica e a utilização inteligente de materiais recicláveis, como caixas de papelão. O projeto começou em 2025, idealizado inicialmente por três alunos, com a orientação da monitora educacional Thayza Vieira dos Santos, responsável pela sala de robótica da instituição. A inspiração surgiu durante o planejamento para uma feira de ciências, quando notaram a prevalência de crises de asma, rinite, tosse e irritação ocular entre os colegas.
Alunos Criam Dispositivo para Monitorar Qualidade do Ar na BA
A percepção da professora Thayza, aliada à observação dos estudantes sobre as condições climáticas locais, impulsionou a busca por uma solução tangível. “Aqui onde a gente mora, o clima é muito seco e muitos alunos tinham problema de rinite, asma, ficavam tossindo bastante na sala de aula, com os olhos lacrimejando. Visto isso, os meninos e eu nos juntamos para desenvolver esse projeto, para tentar amenizar o problema”, explicou a monitora.
O desenvolvimento do “Climatec” envolveu a montagem de um circuito elétrico descomplicado, que integra diversos componentes eletrônicos. No cerne do sistema, encontra-se um Arduino, uma placa que atua como microcontrolador programável. A ele, foram conectados um sensor de umidade e temperatura, um painel LCD — similar às telas de telefones celulares — e uma lâmpada de LED. Todo o arranjo foi cuidadosamente acondicionado em um compartimento confeccionado a partir de uma caixa de papelão, demonstrando a inventividade dos estudantes na aplicação de recursos limitados para soluções de alto impacto.
Tecnologia e Operacionalidade do “Climatec”
O dispositivo “Climatec” é portátil e pode ser facilmente transportado, permitindo a medição da qualidade do ar em diferentes ambientes. O funcionamento se dá em etapas claras e eficientes: primeiro, o sensor integrado capta informações sobre a umidade e a temperatura do ar circundante; em seguida, esses dados são transmitidos ao Arduino, que realiza o processamento e a tradução das informações. Finalmente, os níveis de umidade e temperatura são exibidos de maneira clara na tela LCD do aparelho. Um sistema de alerta visual, através de uma lâmpada de LED vermelho, é ativado caso os parâmetros monitorados fiquem fora da faixa considerada ideal para a saúde humana, ou seja, abaixo de 30% ou acima de 70% de umidade relativa do ar. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), a faixa ideal e mais saudável para o organismo humano está entre 40% e 60%.
Atualmente, a continuidade do projeto é mantida pelos alunos Ana Cllara Ribeiro dos Santos, de 14 anos, e Henrique Ribeiro Leal. Embora apenas um protótipo tenha sido desenvolvido até o momento, sua presença já possibilita a tomada de decisões importantes. Com o alerta emitido pelo “Climatec”, estudantes com problemas respiratórios podem ser aconselhados a se ausentar das aulas ou utilizar máscaras de proteção para mitigar os efeitos das condições climáticas adversas.
A monitora Thayza Vieira destaca o profundo impacto da invenção: “Impacta diretamente na vida do estudante. Foi um problema que o próprio aluno viu e tentou solucionar, usando os recursos que ele tinha”. Esse enfoque no protagonismo estudantil é fundamental, pois demonstra a capacidade dos jovens de identificar desafios em seu cotidiano e de buscar respostas inovadoras, transformando teoria em prática com resultados diretos no bem-estar comunitário.

Imagem: g1.globo.com
Potencial de Expansão e Visão Futura do Projeto
Ana Cllara Ribeiro dos Santos expressa sua crença no potencial do “Climatec”, vendo-o não apenas como uma ferramenta para sua escola, mas com capacidade de transformar diversos outros locais. “Dá para fluir muito. […] É um projeto que quero que todo mundo olhe e veja que pode salvar muitas vidas”, afirma a jovem. Sua visão ressalta a importância de iniciativas como essa, especialmente em um cenário global de crescentes preocupações com as mudanças climáticas e seus impactos na qualidade de vida.
A abrangência do dispositivo, na opinião da monitora Thayza, ultrapassa o ambiente educacional. “Pensei até na possibilidade de que não ficasse apenas na área educacional, mas também [fosse utilizado] em posto de saúde, hospitais, é algo que pode ser expandido”, projeta. Essa perspectiva demonstra o caráter multifuncional da tecnologia desenvolvida, que poderia ser aplicada em ambientes de saúde, onde a qualidade do ar é um fator crítico para a recuperação e bem-estar de pacientes.
Como primeiro passo para a ampliação, o grupo e a monitora têm como meta principal estender o uso do “Climatec” para toda a escola. Eles estão atualmente mapeando as necessidades e viabilidade para a construção de mais dispositivos, garantindo que o monitoramento da qualidade do ar possa ser realizado por outros professores e estudantes da Escola Municipal Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A meta é democratizar o acesso a essa informação vital, promovendo um ambiente mais saudável para todos.
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Este projeto exemplar em Uauá reforça o papel fundamental da educação na capacitação de novas gerações para a criação de soluções locais com impacto global. O “Climatec” é um testemunho da inventividade estudantil em combater problemas do cotidiano. Para mais notícias sobre iniciativas que transformam a realidade de cidades e comunidades em todo o país, continue explorando a nossa editoria de Cidades.
Crédito da Imagem: Arquivo pessoal
