Em um claro sinal de preocupação ambiental e comunitária, a instalação de postes na faixa de areia da Praia do Campeche, em Florianópolis, gerou um protesto veemente por parte dos moradores locais. A comunidade do Campeche, uma das regiões costeiras mais emblemáticas do Sul da Ilha, manifestou-se contra a intervenção, levantando sérios questionamentos sobre a conformidade legal da obra e os potenciais danos a um ecossistema delicado e categorizado como Área de Preservação Permanente (APP).
O movimento dos moradores, que ganhou força e visibilidade na última terça-feira, 23, reflete uma profunda apreensão dos residentes. Eles temem que a iluminação artificial e as estruturas físicas impactem diretamente a rica flora e fauna local. Mais especificamente, a comunidade exige clareza sobre a existência das devidas autorizações e licenças para a obra, visto que a região do Campeche está inserida em uma Área de Preservação Permanente, onde intervenções são rigorosamente reguladas e demandam avaliações complexas. O Ministério Público Federal (MPF) já confirmou estar investigando o caso, com solicitações de informações sobre licenças ambientais direcionadas à Prefeitura de Florianópolis.
Desde o último sábado, 20 de maio, quando a execução dos trabalhos de infraestrutura foi iniciada, já foram fincados treze postes na orla da praia, intensificando a indignação popular e a preocupação das autoridades. Em resposta aos questionamentos da imprensa e da comunidade, o município de Florianópolis declarou que a empresa contratada para a instalação dos equipamentos “já está trabalhando nas atualizações necessárias das licenças”. Contudo, a controvérsia persiste em torno da legitimidade do processo e da eventual urbanização indevida de uma área de proteção ambiental, o que eleva a preocupação com os precedentes que tal instalação pode gerar.
Protesto: Moradores de Campeche Contra Postes na Praia
Este cenário eleva a preocupação com os precedentes que tal instalação pode gerar na conservação costeira.
A Secretaria do Patrimônio da União (SPU), órgão federal com papel crucial na gestão de áreas costeiras do país, manifestou-se por meio de nota oficial, afirmando categoricamente que não há registro de pedido de autorização para os trabalhos de instalação de iluminação na faixa de areia da Praia do Campeche. A SPU reforçou em seu comunicado que qualquer intervenção ou instalação de estruturas físicas, como postes de iluminação, em áreas de praia, terrenos de marinha e seus acrescidos, exige autorização prévia da pasta, além da obtenção de todas as licenças ambientais e urbanísticas pertinentes. A ausência de tal registro reforça as suspeitas de irregularidade levantadas pelos residentes.
No que concerne à esfera judicial e fiscalizatória, o Ministério Público Federal (MPF) confirmou sua ativa atuação no caso. Por meio de nota, o órgão informou que solicitou à Fundação do Meio Ambiente de Florianópolis (Floram) que promova o embargo imediato da obra, caso a ausência de licença ambiental seja confirmada. O MPF enfatizou ainda que, na inexistência de estudos prévios de impacto e da devida autorização da SPU, medidas mais drásticas serão tomadas: uma ação civil pública será ajuizada com o objetivo de assegurar a remoção dos postes instalados na Praia do Campeche. Tal postura sublinha a seriedade da situação e a possibilidade de reverter a obra por via judicial, caso as ilegalidades se confirmem e as autorizações ambientais não sejam apresentadas.
As associações representativas da comunidade local vocalizaram suas profundas preocupações com a intervenção. Jussemir Junior, presidente da Associação de Surfe do Campeche, expressou o sentimento de ameaça à histórica luta de sua entidade: “A gente se sente bem ameaçado porque a gente já vem lutando, desde 1984 a associação existe, para preservação do nosso ambiente aqui”, declarou, ressaltando o compromisso de longa data com a manutenção da integridade do ecossistema. Eduardo Rocha, à frente da Associação de Moradores do bairro, complementou a crítica, questionando a real necessidade da iluminação noturna, dado que o local em questão não apresenta grande fluxo de pessoas durante esse período. Ele salientou ainda que “o local onde estão sendo instalados os postes é uma das regiões na qual a restinga está mais preservada da praia do Campeche”, apontando a ironia de uma intervenção em um dos trechos ambientalmente mais íntegros.
Rocha também alertou para um “precedente muito perigoso de urbanização de uma área protegida por lei, sem o devido estudo de impacto ambiental”. Esta preocupação vai além da simples instalação e toca na gestão e proteção de áreas de conservação vitais. A data do protesto dos moradores, terça-feira, 23, demonstra a rápida mobilização da comunidade frente ao que consideram uma afronta à preservação local, levantando não apenas a questão legal da licença ambiental, mas também a intrínseca com a flora e fauna do ambiente. Esta intervenção na Praia do Campeche coloca em xeque a efetividade da proteção ambiental em uma APP tão valiosa e sua capacidade de resistir à pressão urbanística.
Para fundamentar as preocupações da comunidade, especialistas no assunto foram consultados. As oceanógrafas Ana Luiza Gandara Martins e Andreoara Deschamps Schimidt ofereceram um panorama científico detalhado do potencial impacto. Elas explicaram que a área da Praia do Campeche e suas imediações não são apenas um cenário turístico, mas um berço para ecossistemas vitais de restinga e dunas costeiras. A região também abriga uma diversidade de espécies de fauna residentes, que inclui aves, mamíferos, crustáceos, moluscos e insetos. Além disso, a área serve como rota e zona de alimentação essencial para aves migratórias provenientes tanto da Patagônia quanto da América do Norte, enfatizando sua relevância ecológica a nível continental. A biodiversidade ali presente torna a proteção da Praia do Campeche um tema de urgência ambiental inquestionável.

Imagem: g1.globo.com
A literatura científica reconhece amplamente que a iluminação artificial noturna em ambientes costeiros naturais é um potente fator de alteração ecológica. Segundo a oceanógrafa Martins, ela pode desencadear a desorientação da fauna, provocando alterações significativas nos padrões de deslocamento, alimentação e reprodução de diversas espécies. Além disso, a luz contínua é capaz de aumentar a vulnerabilidade de certos animais à predação. Esta interrupção nos ciclos naturais de dia e noite, imposta pelos novos postes, representa um risco iminente para a delicada vida selvagem da Praia do Campeche, desde os pequenos crustáceos até as aves migratórias que dependem da escuridão para suas atividades vitais. A proteção desses ciclos é um pilar da conservação costeira no Brasil, como detalhado por órgãos ambientais de relevância nacional, incluindo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), que regulamenta as diretrizes para Áreas de Proteção Permanente (APPs) e ecossistemas frágeis em todo o território nacional.
Os efeitos da iluminação constante não se restringem à fauna; a flora local também sofre consequências severas. As oceanógrafas alertaram que a iluminação contínua tem o potencial de interferir decisivamente no desenvolvimento da vegetação de restinga e das dunas frontais. Muitas espécies vegetais desses ecossistemas dependem intrinsecamente dos ciclos naturais de luz e escuridão para regular processos fisiológicos essenciais, tais como floração, frutificação, germinação e crescimento. A interrupção desses ciclos, causada pelos postes de iluminação, ameaça a resiliência e a própria existência da vegetação característica da Praia do Campeche, comprometendo a estabilidade de todo o bioma e a função protetora que ele exerce contra a erosão costeira.
Considerando os fatores climáticos futuros, as especialistas também fizeram menção à previsão da possível ocorrência de um evento El Niño no segundo semestre de 2026. Tal perspectiva reforça, de maneira crítica, a urgência de manter íntegros os mecanismos naturais de proteção costeira, especialmente em áreas tão sensíveis ambientalmente quanto as dunas do Campeche. A manutenção da integridade natural serve como uma barreira protetora fundamental contra eventos climáticos extremos, mitigando seus impactos na vulnerável faixa costeira.
A Secretaria do Patrimônio da União (SPU) reiterou sua posição por meio de um comunicado formal, vindo do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos. A pasta esclareceu que sua base de dados não apresenta qualquer registro de solicitação de autorização para a implantação do sistema de iluminação na orla da Praia do Campeche, localizada na zona sul de Florianópolis. A SPU sublinhou, de forma explícita, que a instalação de qualquer tipo de poste de iluminação, ou de outras estruturas físicas em praias, áreas de marinha e seus entornos, requer um aval prévio da própria Secretaria. Adicionalmente, é indispensável a obtenção das competentes licenças nas esferas ambiental e urbanística, as quais ainda não foram localizadas para esta obra. A falta desses registros e autorizações constitui um obstáculo legal significativo para a continuidade da obra no Campeche, gerando sérias preocupações quanto à legalidade e sustentabilidade da intervenção.
Em paralelo, o Ministério Público Federal (MPF) detalhou as ações que estão sendo desenvolvidas. Conforme nota emitida pelo órgão, ele está em atividade neste caso, tendo feito a requisição à Floram para que providencie o embargo da construção imediatamente, caso seja atestada a inexistência de licença ambiental. Além disso, o MPF demandou que a Fundação encaminhe o Estudo de Impacto Ambiental, se existente, e um relatório pormenorizado da fiscalização realizada sobre eventuais danos ambientais detectados na Praia do Campeche. O comunicado finaliza com uma advertência clara: se não houver a comprovação de estudos preliminares e a licença formal da SPU, o MPF não hesitará em propor uma ação civil pública, visando a desinstalação integral dos postes na praia. As autoridades federais estão firmes em seu propósito de fiscalizar a regularidade da obra e proteger o valioso patrimônio ambiental da região.
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O cenário na Praia do Campeche destaca a constante tensão entre o desenvolvimento urbano e a necessária preservação ambiental em Áreas de Preservação Permanente (APPs). A comunidade de Florianópolis, com o apoio de especialistas e a vigilância de órgãos como o MPF e a SPU, reafirma seu compromisso com a integridade do patrimônio natural local, buscando garantir que intervenções sejam realizadas dentro dos estritos parâmetros legais e ecológicos, protegendo a flora e fauna de **Florianópolis**. Fique atento a essa e outras notícias sobre o cotidiano e os desafios urbanos na nossa editoria. Para mais análises sobre como a sociedade lida com questões de infraestrutura e meio ambiente, visite nossa seção de Cidades e continue se informando sobre os temas que impactam diretamente a vida dos cidadãos brasileiros.
Foto: Reprodução/NSC TV

