A força avassaladora da água que devastou a região central de Ubá, na Zona da Mata mineira, transformou a noite de 23 de fevereiro em um cenário de luta pela vida. Na ocasião, o vizinho salva mulher de enxurrada em Ubá em um ato de bravura, quando Edna Almeida Silva, de 56 anos, agarrava-se desesperadamente a um poste por mais de três horas para não ser arrastada pela correnteza. Simultaneamente, seu vizinho, Lucas Costa Germano, de 27 anos, também lutava pela própria sobrevivência, segurando-se às grades de uma janela de sua residência. A tragédia, que uniria os dois pela primeira vez em um ato de puro instinto e humanidade, seria um marco na vida de ambos.
A inundação que assolou Ubá foi categorizada pela prefeitura como a maior catástrofe hídrica enfrentada pelo município nos últimos anos. As consequências foram severas, com um saldo trágico de sete óbitos confirmados e uma pessoa ainda desaparecida até a data do relato. O desaparecimento de Luciano Franklin Fernandes, de 50 anos, namorado de Edna, que estava na casa com a comerciante e foi tragado pela enxurrada, adicionou uma camada de dor à comunidade. Essa situação devastadora deixou cicatrizes profundas nos sobreviventes, mudando suas percepções sobre a vida e o tempo.
Vizinho Salva Mulher de Enxurrada em Ubá Após 3h em Poste
Naquela noite de segunda-feira (23), o temporal começou de forma sutil, mas rapidamente escalou para uma intensidade alarmante, culminando no transbordamento do rio que corta a cidade. Lucas, o montador de máquinas, relata que ainda ponderou sair em sua moto, mas a elevação súbita e violenta da enxurrada impediu qualquer tentativa. Em questão de momentos, o muro de sua casa ruiu, e ele e seu irmão foram surpreendidos com a água atingindo o pescoço, obrigando-os a se agarrar a uma janela para evitar serem levados. A distância entre a casa de Lucas e o poste onde Edna buscava refúgio era de aproximadamente 150 metros, tornando o resgate uma tarefa quase impossível para quem estivesse observando.
Do lado de fora, a situação de Edna se tornou ainda mais precária. Um outro vizinho conseguiu lançar uma corda, o que lhe proporcionou um apoio adicional no poste, mas nem mesmo a intervenção do Corpo de Bombeiros conseguiu romper a barreira imposta pela fúria da água para alcançá-la. Imagens capturadas por outro morador mostraram a mão de um dos irmãos de Lucas, dentro da casa, acenando em um pedido silencioso de ajuda, refletindo o desespero de muitos. Com as autoridades de resgate incapazes de prosseguir devido ao perigo iminente, a esperança parecia diminuir a cada minuto que passava para a comerciante à mercê da correnteza em Ubá.
Foi neste cenário de quase rendição que Lucas Costa Germano, apesar de exausto pela sua própria batalha, percebeu uma leve diminuição no nível da água. O que para muitos seria um momento de alívio momentâneo, para ele foi o sinal para uma decisão ousada. “Eu vi os bombeiros lá em cima da rua. Eles começaram a vir, mas voltaram. Eu pensei: ‘Se nem eles estão vindo aqui é porque a coisa está feia, está muito perigoso’”, relatou Lucas. Foi então que um instinto primordial o impulsionou: “Eu já tinha perdido tudo, não tinha mais nada a perder, só pensei: pelo menos essa vida eu vou salvar. Eu agi por instinto”, contou. Descendo a rua alagada, ele pediu que lhe jogassem a corda e foi em direção a Edna, determinado. “De mim ela não escapava, eu não ia deixar”, frisou, um testemunho de sua inabalável determinação.
O esforço monumental de Lucas culminou com sucesso. Ele conseguiu chegar até Edna, em seu estado de esgotamento extremo, e com o auxílio da corda e a força de seu irmão, a mulher foi levantada até o parapeito da janela de sua casa, fora do alcance da enxurrada. A cena do resgate foi recebida com efusivos aplausos dos vizinhos que acompanhavam apreensivos, um momento de alívio e gratidão. Gritos de “Boa, Lucas!” ecoaram, validando a coragem do jovem montador de máquinas. Após o salvamento, Edna foi encaminhada para um local seguro, aliviada por ter sobrevivido a uma experiência tão traumática na cidade de Ubá.
As consequências da enchente perduram para Edna e Lucas. A comerciante confessou sentir um trauma profundo ao menor sinal de chuva ou vento forte, revivendo o horror daquela noite. “É difícil de recuperar”, desabafou, mas também reconheceu um aprendizado: “hoje eu vejo a vida com outros olhos.” A perda de sua cachorrinha, levada pela água, adicionou outra ferida emocional. Lucas e seu irmão, que perderam todos os bens, vivem atualmente em um local provisório enquanto buscam uma nova moradia. Uma campanha online foi iniciada para angariar fundos e doações, a fim de ajudá-los a se reestruturar financeiramente.

Imagem: g1.globo.com
Apesar do heroico ato de resgate que executou, Lucas Costa Germano se recusa a ser rotulado como herói. Ele revela ter um passado onde tentou se tornar bombeiro, aspirando a salvar vidas, mas não obteve sucesso na época. Para ele, conseguir salvar Edna foi “muito gratificante”. “Eu só fiz o que tinha que ser feito, não sou herói, só fiz o que tinha que ser feito”, reiterou Lucas, com humildade, sublinhando seu compromisso com a vida e com a humanidade em Ubá. Seu instinto de solidariedade prevaleceu em meio ao caos da enxurrada.
O episódio da enxurrada em Ubá continua a ter desdobramentos dolorosos. A busca por Luciano Franklin Fernandes, o namorado de Edna, permanece, e ele é a última pessoa desaparecida nas intensas chuvas que assolaram a Zona da Mata mineira. No dia 2 de março, o corpo de Alex Lucas Pinto, de 35 anos, outro desaparecido, havia sido localizado a aproximadamente 7 quilômetros do Centro, a área mais atingida. A região se recupera lentamente do impacto, e eventos climáticos como este demonstram a urgência de preparativos e planos de contingência em áreas de risco, uma discussão que ganha relevância conforme relatos de outras enchentes recentes em Minas Gerais vêm à tona, evidenciando a fragilidade das comunidades frente à natureza.
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Em um resumo desta intensa e dramática história, a ação de Lucas Costa Germano não só demonstra a força do espírito humano em face da adversidade, mas também destaca as duradouras consequências de eventos naturais extremos em cidades como Ubá. Fatos como este nos lembram da importância da comunidade e da solidariedade. Para acompanhar mais notícias sobre eventos marcantes e o cotidiano de cidades brasileiras, continue lendo a editoria de Cidades do nosso blog.
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