Venezuelanos no Brasil Lamentam Agravamento da Crise na Venezuela

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A crise na Venezuela continua a ser motivo de profunda tristeza e preocupação para seus cidadãos que hoje vivem no Brasil. A complexidade da situação, que envolve instabilidade econômica, desafios sociais e recentes desdobramentos políticos, ressoa fortemente na comunidade venezuelana expatriada, muitos dos quais buscaram no país vizinho melhores oportunidades e refúgio das adversidades em sua terra natal.

Desde 2016, a intensificação do êxodo de venezuelanos para o Brasil se tornou um marco da crise humanitária regional. As motivações para a migração variam, desde a busca por condições de trabalho mais estáveis até a necessidade de sobrevivência diante de uma escassez alarmante de itens básicos. Acompanhando o fluxo migratório, diversas organizações internacionais, como o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), têm monitorado e auxiliado essas populações em sua integração e garantia de direitos.

Venezuelanos no Brasil Lamentam Agravamento da Crise na Venezuela

Um exemplo das perspectivas de vida foras das fronteiras venezuelanas é Benjamin Mast, um produtor audiovisual que chegou ao Brasil em 2016, ano que marcou o início de uma grave crise econômica na Venezuela. Sua vinda não se deu por desespero frente à fome, como ocorria com muitos compatriotas, mas sim pela busca de progresso em sua carreira. Benjamin já havia realizado trabalhos no Brasil entre 2014 e 2015, período em que as oportunidades diminuíam drasticamente em seu país de origem.

Hoje, aos 44 anos, Benjamin está consolidado em Roraima, onde comanda uma produtora ao lado da esposa, com quem tem uma filha de 1 ano. Em entrevista à Agência Brasil, ele descreveu seu processo migratório como tranquilo, diferente da onda que viria a seguir. “Não tinha essa onda migratória. Era bem pequena, coisa de 100 pessoas que chegavam ao Brasil”, relembrou.

A Perspectiva de Benjamin Mast Frente aos Acontecimentos Recentes

Benjamin Mast expressa grande pesar e se diz “de coração partido” com a perspectiva de intervenções estrangeiras na Venezuela, notadamente a possibilidade de uma ação por parte dos Estados Unidos. Ele argumenta contra a ilegitimidade internacional de tais manobras, criticando a fala de Donald Trump sobre “manejar a Venezuela”.

Ainda mais doloroso para Mast é constatar que parte da população venezuelana aprova a ideia de uma invasão, vendo-a como a única solução. Embora reconheça o papel do presidente Nicolás Maduro na crise política e econômica do país, ele também atribui parte da responsabilidade às sanções econômicas impostas pelos EUA. “A indústria petrolífera – muitas coisas também causaram isso – foi a combinação da má questão política e econômica do país por parte de Maduro e do governo, com as sanções econômicas e políticas dos EUA”, completou Mast.

Para o produtor, a imagem de militares atuando em solo venezuelano, seguida pela celebração de alguns como se a transformação em “colônia” fosse o destino inevitável, é impactante. Ele lamenta a falta de “amor próprio para tentar mudar as coisas de dentro”, antevendo uma Venezuela “muito polarizada, muito instável politicamente porque tem vazio de poder”. A suposta condução de Maduro aos Estados Unidos para indiciamento seria, em sua visão, “muito forte”, apesar das inúmeras acusações contra o governo venezuelano. Benjamin teme que a intervenção resulte apenas em benefícios para “oligarchies petrolíferas e econômicas estadunidenses”, levando a uma perda de soberania com um custo social altíssimo para a Venezuela e a América Latina como um todo, intensificando a violência e a polarização.

A Jornada Acadêmica e a Dor da Distância de Lívia Esmeralda Vargas González

Outro relato vem de Livia Esmeralda Vargas González, que hoje atua como professora na Universidade Federal de Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu, no Paraná. Lívia chegou ao Brasil em 2016 com uma bolsa de doutorado em história pela Universidade Federal de Ouro Preto (MG), iniciado em 2017. Em um período de cinco anos, ela não só concluiu este, mas também um doutorado em filosofia.

A que era para ser uma estadia temporária por estudos, transformou-se em uma travessia migratória, impulsionada pela crise. A realização de estudos sobre a história da Venezuela, algo inviável para muitos colegas em seu país, conferiu peso adicional ao processo migratório de Lívia, que sentia a dor da distância da família enfrentando a crise. Ela descreve essa experiência como uma “ferida” e uma “dor”, oscilando entre a gratidão pelo acolhimento do Brasil e o sofrimento por ter a família longe, vivendo condições críticas em termos econômicos, sociais, políticos e afetivos.

Em 2025, os tempos difíceis foram atenuados com a chegada de seu filho, Aquiles Léon, de 21 anos, que se mudou para Foz do Iguaçu para cursar engenharia da energia na Unila, após ser aprovado em um processo seletivo para estudantes latino-americanos e do Caribe. Lívia reconhece que, mesmo em uma situação melhor, a adaptação ainda é um desafio para Aquiles. Na Venezuela, ela era professora associada de sociologia em uma das principais universidades, mas as condições salariais eram “tristes, lamentáveis, deploráveis”, com colegas renomados tendo de recorrer a trabalhos informais para sobreviver, sacrificando a produção acadêmica. As oportunidades que ela encontrou no Brasil como pesquisadora e escritora, abrindo uma janela também como poeta, seriam “impossíveis” na Venezuela.

Venezuelanos no Brasil Lamentam Agravamento da Crise na Venezuela - Imagem do artigo original

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br

O Repúdio à Intervenção Externa

Lívia Vargas também critica severamente a invasão externa dos EUA, classificando a situação como “estarrecedora” e que aprofunda os traumas da população, além de criar um precedente perigoso para a América Latina. “Significa a materialização de um ato de intervenção prática e recolonização do meu país”, enfatizou, ressaltando que tal evento não tem paralelos na história republicana da Venezuela desde a expulsão do império espanhol por Simón Bolívar.

Ela se diz “profundamente triste” e sente uma dor indescritível, que “reforça mais a nossa catástrofe”, diante de anos de fraturas e repressão. No cenário pós-invasão, a preocupação com a família — pais, amigos — se intensifica. “Como vai ser neste ambiente de incertezas, em que não se sabe se vai ser bombardeado mais uma vez?”, questiona, emocionada ao perceber que o plano de receber o pai em fevereiro para uma visita já não é mais possível. “Isso me dói. Fiquei emocionada de falar que não posso abraçar e estar com eles.”

O Desafio Empreendedor de María Elias e a Esperança por Mudanças

A família de María Elias, técnica de informática, chegou ao Brasil em 2015. María, seu marido e dois filhos moravam e tinham uma loja em Güigüe, no estado de Carabobo, na Venezuela. Quando a crise econômica se tornou insustentável, a mudança para o Brasil foi a alternativa. “Se a gente ficasse lá, sabia o que ia acontecer. Quando a gente saiu de lá, tinha 50% de chance de dar certo e 50% de dar errado. A gente decidiu pelos 50% de dar certo”, declarou à Agência Brasil. Uma das facilidades iniciais foi conseguir vagas em escolas públicas do Rio de Janeiro para os filhos.

No entanto, a adaptação foi desafiadora para María e seu marido, que enfrentaram dificuldades com a língua, a cultura e o mercado de trabalho. A solução foi ingressar no setor da culinária, atividade que tinha ligação com a ascendência libanesa da família. Iniciando com “culinária libanesa”, conquistaram o primeiro pedido em uma lanchonete, cujos donos se tornaram grandes amigos e fontes de apoio. O sucesso levou a convites para fazer jantares em residências em 2016 e, após um ano, a família ampliou o cardápio para cozinha árabe e mediterrânea, conseguindo mais trabalho.

Maria também tem familiares na Venezuela e manifesta preocupação com a instabilidade política. Embora veja com satisfação a saída de Maduro do poder, ela considera o panorama político local confuso. “Tem muitas coisas para assimilar, não se sabe o que é verdade e o que é mentira”, pontuou, destacando a polarização que vive o país. Ela defende a manutenção provisória do governo chavista para observar os desdobramentos, com a esperança de futuras eleições livres e uma “limpeza” política, mas expressa incerteza sobre o momento e a viabilidade dessas mudanças, bem como sobre as intenções de Donald Trump. O mais importante, em sua opinião, é que a Venezuela “renasça e volte a ser produtiva como sempre foi”.

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A crise na Venezuela, vivenciada e refletida por estes três venezuelanos no Brasil, ilustra a complexidade e a profundidade dos impactos sociais, econômicos e emocionais de um país em convulsão. Suas histórias individuais e seus temores compartilhados sobre o futuro da Venezuela e da América Latina ecoam a urgência de soluções duradouras para o conflito e a recuperação. Para mais análises sobre este e outros temas da conjuntura política regional e global, continue acompanhando as publicações em nossa editoria de Política.

Crédito da imagem: Acnur/Reynesson Damasceno

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