A disputa entre o **Opus Dei e Vaticano** se intensificou nos últimos anos, marcada pelas profundas reformas impostas pelo Papa Francisco (1936-2025). As modificações buscam reestruturar a posição singular que a organização possuía na hierarquia da Igreja Católica, um privilégio concedido há mais de quatro décadas, mas que agora se encontra com dias contados.
A trajetória do Opus Dei como uma entidade com autonomia diferenciada teve início em 1982, quando o Papa João Paulo II (1920-2005), conhecido por sua afinidade com a instituição, elevou seu status. De “instituto secular” — que acolhe fiéis que seguem os preceitos católicos sem renunciar à vida social comum ou se fechar em ordens religiosas — a organização foi convertida em “prelazia pessoal”. Esse novo modelo administrativo não se vincula a um território específico, como as dioceses tradicionais que respondem a bispos locais e, por sua vez, à Santa Sé. Em vez disso, a prelazia pessoal baseia-se na figura de seus membros, conferindo autoridade direta ao prelado, o líder máximo do Opus Dei, sobre seus integrantes, em vez de aos bispos das dioceses onde estão baseados.
Vaticano x Opus Dei: Entenda as Reformas do Papa Francisco
Esta classificação era única, fazendo do Opus Dei a única organização com tal estatuto até os tempos recentes. Tal arranjo, na teoria, visava harmonizar a proposta carismática do grupo, centrada na busca da santidade no cotidiano dos leigos, com sua necessidade de organização administrativa dentro da Igreja. No entanto, na prática, concedeu à organização uma independência inédita na história do catolicismo. Ela passou a ser isenta de prestar contas aos bispos diocesanos, operando quase como uma “diocese sem território” própria, o que levou, por costume, à nomeação do prelado do Opus Dei como bispo pelo próprio papa. Esse contexto, nos anos 1980, durante a Guerra Fria, foi interpretado por muitos como um movimento do catolicismo em direção a pautas mais conservadoras, alinhado à postura anticomunista de João Paulo II. Seu sucessor, Bento XVI (1927-2022), manteve o status quo.
A situação começou a mudar com o pontificado de Francisco. Vaticanalistas apontam que o pontífice argentino via a autonomia do Opus Dei como excessiva e incompatível com o princípio de que nenhuma instituição dentro do catolicismo deveria desfrutar de um regime de exceção. A reforma da estrutura administrativa do Vaticano ofereceu ao Papa Francisco a oportunidade de redefinir o lugar da organização. Um indício claro dessa nova direção foi a não nomeação de Fernando Ocáriz Braña, líder do Opus Dei desde 2017, como bispo, quebrando uma tradição de longa data e sinalizando o fim de uma era de privilégios. O jornalista português Rui Pedro Antunes, autor do livro “Opus Dei: Eles Estão no Meio de Nós” (Matéria Prima, 2016), destacou que Francisco “enfrentou o Opus Dei”, grupo “praticamente intocável pela influência política e financeira”.
As Reformas Estruturais Impostas por Francisco
As mudanças substanciais implementadas pelo Papa Francisco vieram através de três documentos publicados em 2022 e 2023. Primeiramente, o Opus Dei, que antes respondia ao Dicastério para os Bispos — compatível com seu status de quase-diocese — passou a se reportar ao Dicastério para o Clero. Esta alteração foi percebida como um rebaixamento na cadeia de comando, indicando uma perda significativa de poder. Em segundo lugar, o período para apresentação de relatórios sobre suas atividades passou de quinquenal para anual, exigindo maior transparência e supervisão. Adicionalmente, foi oficializado que a nomeação do prelado como bispo não seria mais automática.
No entanto, a modificação mais profunda reside no papel dos leigos. Sob João Paulo II, os membros leigos eram considerados parte integrante da prelazia pessoal. Francisco redefiniu o Opus Dei de prelazia pessoal para “associação clerical pública”. Esta nova designação pressupõe submissão explícita à hierarquia da Igreja, onde o clero detém primazia, embora os leigos ainda participem. Para Rui Pedro Antunes, ao efetivar essa mudança, Francisco “retirou-lhe [ao Opus Dei] margem de manobra e, por consequência, poder”. Com as novas regras, os leigos católicos passaram também a necessitar de vínculo com a diocese de seus respectivos territórios, reforçando a importância dos religiosos consagrados dentro da organização.
O texto promulgado enfatiza que a cooperação orgânica dos leigos em obras apostólicas deve ser definida nos estatutos da prelazia. Atualmente, dos 90 mil membros do Opus Dei, a grande maioria (cerca de 88 mil) é composta por leigos, e apenas 2015 são sacerdotes. As diretrizes papais obrigam o Opus Dei a revisar e publicar um novo estatuto, que está em processo de elaboração, com expectativas de resolução até 2028, visando uma celebração centenária em um contexto mais harmonioso. Este estatuto consolidará a organização como uma associação clerical pública.
O cientista político Aldo Fornazieri, professor na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, salienta que esse “rebaixamento de status” significa que o Opus Dei se tornará uma associação de membros do clero secular, que se reporta diretamente às dioceses e bispos. Consequentemente, a instituição perderá sua “autonomia e privilégios”, deixando de ser uma “igreja dentro da Igreja”, e seu líder não terá mais ascendência exclusiva sobre os integrantes, que se submeterão à cadeia de comando do Vaticano e do Papa.
Perspectivas Futuras e Controvérsias da Organização
Apesar das tensões, a comunicação oficial do Opus Dei na Grã-Bretanha, por meio do jornalista Jack Valero, afirmou que estão estudando “como o carisma e a dimensão jurídica do Opus Dei podem coexistir”. Internamente, alguns membros, que preferiram o anonimato em conversas com a BBC News Brasil em quatro países, minimizaram a importância da não nomeação do prelado como bispo, indicando que a preocupação não era uma “guerra pelo poder” ou “política interna”.
Um novo elemento na discussão é o Papa Leão 14, empossado em maio após a morte de Francisco (note a data original: 2025 para a morte de Francisco, Leão XIV assume em maio). O professor Fornazieri considera “improvável” uma reversão das reformas, dada a visão de desconforto que o Opus Dei causa em diversos setores católicos. O atual papa, anteriormente bispo Robert Prevost, já havia comandado a diocese peruana de Chiclayo, região com presença significativa de sacerdotes do Opus Dei. Essa conexão levou a alguma esperança interna por uma abordagem mais branda. Contudo, conversas privadas entre Leão 14 e o prelado do Opus Dei não indicaram retrocesso, embora a instituição ainda espere “pelo menos alguns ajustes”. Recentemente, o Opus Dei negou publicamente informações de que o Papa Leão 14 teria emitido um ultimato sobre a celeridade do novo estatuto, enquanto Roberto Zanin, do escritório brasileiro do Opus Dei, confirmou a entrega de uma proposta de estatuto ao Vaticano em junho, aguardando aprovação.
Fundado em 1928, na Espanha, por Josemaria Escrivá de Balaguer (1902-1975), posteriormente canonizado por João Paulo II em 2002, o Opus Dei teve sua origem e identidade moldadas pelo seu fundador. Antunes descreve Escrivá como um religioso que criticava a Igreja da época, percebida por ele como um “edifício em ruínas”, e buscou fundar um movimento de cunho conservador e tradicionalista. Moraes reitera que a prelazia pessoal para o Opus Dei foi uma “excrescência”, dado que o conceito histórico de prelazia se perdeu no século V, quando o bispo de Roma consolidou sua posição como líder máximo. João Paulo II foi, sem dúvida, o papa mais próximo à “Obra”, como também é chamado o Opus Dei, admirando suas práticas, como a mortificação corporal. A premissa central da organização é a busca da santidade no trabalho e na vida cotidiana, diferenciando-a de ordens religiosas que requerem consagração clerical ou vida em mosteiros. Moraes aponta que essa visão, “encontrar Deus no trabalho”, é algo “virtuoso” e “digno de nota”.
No entanto, o Opus Dei também enfrenta controvérsias significativas. Suas posições morais rígidas e a prática de jejum e sacrifícios físicos são pilares da organização, mas sua representação ficcional, como no livro “O Código da Vinci”, muitas vezes a retrata como uma sociedade secreta com agendas ocultas, algo que não reflete a realidade da vasta maioria de seus 90 mil membros, sendo cerca de 70% supernumerários (homens e mulheres casados). Os demais vivem em celibato (numerários, numerárias auxiliares, e o clero).
Um ponto sensível é a percepção do papel feminino. Em 2021, 43 mulheres da Argentina, Paraguai e Bolívia denunciaram o Opus Dei ao Vaticano por suposta exploração e jornadas de trabalho extensas em suas casas, com exigência de orações e penitências. Antunes atribui a “visão misógina e machista” presente na instituição à criação de Escrivá sob forte proteção materna. Adicionalmente, o viés político da organização também gera debates. Há uma histórica ligação de Escrivá com o ditador espanhol Francisco Franco, que impulsionou o crescimento do grupo. Professor Moraes analisa que o tradicionalismo do Opus Dei frequentemente o coaduna a regimes de direita, em alguns casos até de extrema-direita. A entidade obteve benefícios governamentais na Argentina de 1972 e do ditador Jorge Videla. Para Francisco, era importante impor limites à ação espiritual do Opus Dei para que não se alinhasse a posições “reacionárias” em temas contemporâneos como casamento homossexual e eutanásia, visando abrir o diálogo da Igreja com questões atuais, conforme a tradição do Concílio Vaticano II.
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Em suma, a relação entre o Opus Dei e o Vaticano atravessa um período de profunda redefinição sob o comando do Papa Francisco, que buscou realinhar a organização à estrutura tradicional da Igreja Católica. As reformas, que incluem rebaixamento de status, maior supervisão e a nova classificação como associação clerical pública, prometem impactar significativamente a autonomia da entidade e a maneira como seus membros, especialmente os leigos, se inserem na Igreja. Para acompanhar todas as atualizações sobre o Vaticano, suas instituições e os desdobramentos desta e outras notícias, continue navegando pela editoria de Política do nosso portal.
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Imagem: g1.globo.com


