Trump: Ataque ao Irã e a Estratégia Eleitoral nos EUA

Economia

A recente ofensiva aérea, que inclui os bombardeios de Trump no Irã, desenha um cenário geopolítico complexo onde o campo de batalha no Oriente Médio pode estar diretamente ligado às urnas nos Estados Unidos. Embora as bombas atinjam território iraniano, a análise indica que o eleitorado americano é o alvo principal da audaciosa operação militar.

O pano de fundo para essa movimentação presidencial inclui uma economia doméstica longe das promessas de “era dourada” e um Partido Republicano que, segundo pesquisas, corre o risco de perder a maioria no Congresso nas eleições de novembro. Neste contexto, demonstrar o poderio militar dos EUA contra regimes considerados hostis surge como uma estratégia de alta velocidade para tentar reforçar a percepção de que “os EUA estão grandes novamente” aos olhos da população.

Trump: Ataque ao Irã e a Estratégia Eleitoral nos EUA

A escolha do Irã como novo foco de confrontos armados segue um padrão observado em janeiro, quando a Venezuela foi o alvo das operações americanas. Países como Cuba, sugere a análise, podem figurar na lista subsequente. Qualquer incursão militar, especialmente de tal envergadura, é necessariamente amparada por um objetivo político claro, que orienta as metas e as ações dos militares no campo de batalha.

Os Motivos de Trump: Defesa, Programa Nuclear e Mísseis

Em seu pronunciamento oficial, o presidente Donald Trump apontou múltiplas justificativas para a série de ataques ao Irã. Entre elas, destacou a necessidade de defender o povo americano, neutralizando supostas ameaças iminentes oriundas do regime iraniano, e mencionou explicitamente os programas nuclear e de mísseis balísticos de Teerã como preocupações centrais. Em junho, os EUA já haviam lançado ataques contra as principais instalações nucleares iranianas, e Trump chegou a afirmar na época – e reiterou posteriormente – que o programa nuclear persa havia sido “obliterado”.

A afirmação de que um programa “obliterado” em junho volta a ser uma ameaça “iminente” agora gera questionamentos. Ou as instalações não foram completamente destruídas no ataque anterior, ou o atual assalto aéreo utiliza essa alegação como um pretexto, ou uma combinação de ambos: o programa não foi aniquilado, mas sua ameaça imediata não seria tão urgente quanto apresentado pelo presidente. Vale notar a menção de Trump de que os mísseis iranianos poderiam ameaçar aliados europeus. Contudo, aliados na Europa, de acordo com as informações apuradas, demonstram maior preocupação com a situação na Ucrânia, da qual o governo Trump se distanciou, do que com a ameaça míssil iraniana.

Objetivo de Troca de Regime e seus Obstáculos

Um dos objetivos declarados por Trump parece ser o de pavimentar o caminho para uma eventual mudança de regime no Irã. Em sua fala, dirigindo-se ao “grande e orgulhoso povo do Irã”, ele declarou que “a hora da sua liberdade está próxima”. A ideia, portanto, seria fragilizar a atual liderança iraniana para capacitar a oposição interna a derrubá-la.

Historicamente, contudo, ataques aéreos sozinhos não são capazes de gerar as condições para a derrubada de regimes ditatoriais por suas próprias populações. Um país sob ataque está, invariavelmente, em estado de alerta máximo, o que tende a suprimir e inibir qualquer manifestação ou protesto popular em grande escala. Além disso, uma população desarmada enfrentaria enormes dificuldades contra um regime fortemente militarizado e que, como já demonstrou em diversas ocasiões, não hesita em reprimir violentamente seus próprios cidadãos para manter o poder. Há, ainda, a possibilidade de que ataques estrangeiros surtam um efeito contrário ao desejado por Trump, unindo a população iraniana contra o que pode ser percebido como uma agressão externa.

A história recente, assim como o senso comum militar, sugere que a substituição de um regime, geralmente, demanda o uso de tropas em terra, popularmente conhecido como “boots on the ground”. No momento, não existem evidências que indiquem qualquer intenção ou planejamento dos EUA para enviar forças militares terrestres ao Irã, nem de que estejam fornecendo apoio e armamento direto à oposição iraniana. A postura de Trump, aliás, não aponta para a disposição de sacrificar soldados americanos para derrubar esses regimes, como visto na Venezuela. Lá, apesar dos ataques aéreos e até mesmo da breve captura de Nicolás Maduro, o chavismo permanece no controle em Caracas.

Esta lacuna entre a alegação de “ameaça iminente” e a insuficiência dos meios para efetivar uma troca de regime sinaliza que o presidente americano pode ter outras ambições políticas. Para um olhar aprofundado sobre as relações complexas entre Estados Unidos e Irã, vale a pena consultar análises de especialistas, como as publicadas pelo Council on Foreign Relations, que frequentemente abordam os históricos e futuros desafios da política externa americana.

Negociações com Teerã e Eleições Domésticas

Uma possível motivação paralela para a demonstração de força pode ser enviar um recado claro a Teerã no que diz respeito às negociações em andamento. Desde abril de 2025, os EUA têm buscado que o Irã desista de seus programas de armas nucleares e mísseis de longo alcance. Contudo, esses diálogos têm progredido muito pouco, com o Irã classificando as exigências americanas como “excessivas” – uma maneira polida de sinalizar sua recusa.

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Imagem: valor.globo.com

A guerra, segundo a máxima de Clausewitz, é a continuação da política por outros meios. No entanto, um ataque de tal proporção representa um risco considerável, uma vez que um conflito dessa magnitude tem potencial para escapar do controle de Washington. A reação iraniana, que incluiu ataques a Israel e a bases americanas no Oriente Médio, sublinha precisamente esse risco.

Internamente, a situação de Trump nas pesquisas, a oito meses das eleições, é de preocupação, com a possibilidade iminente de perder a maioria no Congresso, o que restringiria significativamente sua margem de manobra governamental. O Partido Democrata tem registrado avanços ou vitórias em todas as votações recentes no país, e uma melhora significativa da economia americana até novembro é improvável. Pelo contrário, a economia apresentou desaceleração acentuada no quarto trimestre do ano passado, e sua política comercial protecionista, que visava trazer produção, investimentos e empregos de volta, foi limitada por decisões da Suprema Corte.

Ataques Externos: Uma Manobra Política?

Neste cenário, exibir poder militar no exterior torna-se uma das poucas – se não a única – estratégias restantes até novembro para tentar convencer o eleitorado americano de que os EUA “estão de volta”, “são grandes, fortes, ricos e respeitados novamente”. Não há nada de inovador nessa tática; muitos presidentes americanos antes dele recorreram a conflitos externos para alavancar sua popularidade doméstica, gerando o fenômeno conhecido como “rally around the flag” – a união da nação em torno da bandeira em tempos de guerra.

A capacidade de Trump, em menos de dois anos, de trocar ou de subjugar regimes em nações como Venezuela, Cuba e Irã – um feito que inúmeros presidentes americanos buscaram sem sucesso por décadas – representaria um impulso imenso para o Partido Republicano nas próximas eleições de novembro. Na sexta-feira, o presidente até sugeriu a possibilidade de os EUA “tomarem” Cuba, porém de um “modo amigável”. Contudo, é reconhecido que certas conquistas geopolíticas são difíceis de obter por meios puramente pacíficos.

Finalmente, em seu discurso, Trump preparou uma desculpa antecipada caso a troca de regime no Irã não se concretize. Ele afirmou que “está criando as condições” para a mudança, e que “cabe ao povo iraniano agir” quando a fase dos ataques terminar. Declarou: “assumam seu governo; ele será seu. Esta será provavelmente a sua única chance em gerações. Nenhum presidente esteve disposto a fazer o que eu estou disposto a fazer nesta noite. Agora, vocês têm um presidente que está lhes dando o que querem”. Assim, se a esperada transformação não acontecer, a responsabilidade, segundo Trump, será inteiramente dos próprios iranianos.

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Em suma, a incursão militar dos Estados Unidos no Irã sob a liderança de Donald Trump emerge como uma ação com múltiplas camadas de intencionalidade. Muito além das razões explicitamente declaradas, as repercussões nas relações internacionais e, sobretudo, as estratégias eleitorais domésticas parecem ser um vetor preponderante. Para continuar acompanhando as complexidades da política externa e seus desdobramentos nas eleições globais, visite nossa seção de Política em Hora de Começar.

Crédito da imagem: Donald Trump, presidente dos EUA Foto: Jessica Koscielniak/Reuters

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