O Sistema B, conhecido globalmente por certificar empresas comprometidas com a geração de impacto socioambiental positivo, promoveu uma profunda reestruturação em seus critérios de avaliação. As alterações, em implementação neste ano, marcam uma nova era para a Certificação B Corp, tornando-a substancialmente mais robusta e exigente, abandonando a lógica principal baseada em pontuações isoladas e focando em requisitos mandatórios.
Desde sua concepção há quase duas décadas, o modelo de certificação B Corp passou por múltiplas revisões, um processo que o co-CEO do Sistema B Brasil, Rodrigo Gaspar, descreve como intrínseco ao “DNA do Sistema B/B Lab”. Tais aprimoramentos foram historicamente fundamentados em amplas pesquisas e colaborações com diversas partes interessadas. Esta mais recente evolução, entretanto, é considerada a mais significativa, impulsionada por um cenário global que demanda maior responsabilidade empresarial, enfrentando o aumento da legislação ESG e o crescente escrutínio contra o greenwashing.
Sistema B Endurece Regras para Certificação ESG e B Corp
A virada central do novo padrão é a transição de um sistema que exigia uma pontuação mínima geral para uma estrutura com requisitos obrigatórios, organizados em sete macroáreas cruciais de impacto social, ambiental e de governança. As empresas que buscarem ou mantiverem a Certificação B Corp precisarão demonstrar aderência a essas exigências, que incluem metas progressivas a serem alcançadas em ciclos de cinco anos e que serão verificadas através de auditorias independentes conduzidas por terceiros credenciados.
Contexto e Evolução do Movimento B Corp
A iniciativa que originou o movimento B Corp nasceu em 2006, nos Estados Unidos e Canadá, com a criação do B Lab. Seu propósito primordial era redesenhar a definição de sucesso no mundo dos negócios, fomentando a criação e o desenvolvimento de modelos empresariais que pudessem oferecer soluções efetivas para desafios sociais e ambientais, independentemente do porte ou setor. Em 2011, a atuação ganhou dimensão internacional com o estabelecimento do Sistema B International, entidade responsável por orquestrar a expansão do movimento em parceria com organizações nacionais.
Atualmente, o Sistema B contabiliza mais de 10 mil empresas certificadas ao redor do globo, com presença expressiva em dezenas de países. No Brasil, aproximadamente 500 empresas já ostentam o selo B, incluindo grandes nomes como Natura, Movida, Reserva, Cia Hering, Dengo Chocolates e Baterias Moura, além de uma rede robusta de mais de 300 micro e pequenas empresas que também integram o movimento. Este crescimento, no entanto, veio acompanhado por uma intensificação das pressões externas e uma autoavaliação interna, visando manter a credibilidade e a relevância em um mundo cada vez mais atento às práticas corporativas de ESG.
As Novas Exigências para a Certificação B Corp
Os novos padrões do Sistema B reforçam e aprofundam as bases da elegibilidade para a certificação, ao mesmo tempo em que adicionam camadas de rigor. Para que uma empresa seja considerada apta, ela deve estar legalmente constituída e em operação há pelo menos 12 meses, além de demonstrar conformidade irrestrita com todas as legislações locais e nacionais aplicáveis. Um pilar fundamental reside no comprometimento formal com a governança focada nas partes interessadas (stakeholders), o que se traduz na incorporação dos princípios do Requisito Legal da Certificação B Corp às estruturas jurídicas da organização e na assinatura da Declaração de Interdependência do movimento, um manifesto global que celebra a interconexão entre as empresas, as comunidades e o planeta.
Rodrigo Gaspar destaca a nova exigência de uma avaliação estruturada de riscos. As empresas, de acordo com o co-CEO do Sistema B Brasil, deverão desenvolver perfis de risco utilizando a ferramenta específica do B Lab. Este processo é vital para determinar o volume de sub-requisitos adicionais de due diligence que a empresa precisará cumprir. A complexidade dessas exigências suplementares será calibrada conforme o setor de atuação, o porte da companhia e a intrincada cadeia produtiva que a caracteriza. Outro aspecto inovador e central é o fim da concepção de que a certificação é um selo estático. O novo modelo explicita que as empresas são compelidas a atender requisitos específicos no que é chamado de Ano 0, no Ano 3 e, novamente, no Ano 5 de sua certificação, estabelecendo um ciclo de melhoria contínua e progressiva. A amplitude das exigências, incluindo os chamados requisitos fundamentais, pode variar de aproximadamente 20 a 124 sub-requisitos, sendo ajustada em função do porte, setor, indústria e localização geográfica da empresa.
Sete Áreas de Impacto Avaliadas
Anteriormente, a certificação B Corp estava estruturada em cinco grandes áreas – Governança, Trabalhadores, Comunidade, Meio Ambiente e Clientes – exigindo uma pontuação mínima total de 80 pontos, porém, sem um corte específico por área, o que permitia a compensação de desempenho entre os temas. No novo sistema, haverá uma cobrança de requisitos mínimos específicos em sete pilares de impacto. Segundo Gaspar, no modelo atual as empresas “devem atender requisitos mínimos em sete tópicos de impacto”, a saber: Propósito e Governança de Stakeholders; Trabalho Justo; Justiça, Equidade, Diversidade e Inclusão (JEDI); Direitos Humanos; Ação Climática; Gestão Ambiental e Circularidade; e Assuntos Governamentais e Ação Coletiva.
Essa reorganização busca uma visão mais holística sobre como as organizações criam valor nas dimensões social, ambiental e econômica. Em ‘Propósito e Governança de Stakeholders’, espera-se que as empresas atuem alinhadas a um propósito definido, incorporando formalmente a governança das partes interessadas nas decisões, além de desenvolver estruturas para monitorar o desempenho nessas esferas. O pilar ‘Trabalho Justo’ foca na criação de empregos de qualidade, promoção de culturas organizacionais positivas, implementação de práticas salariais equitativas e estabelecimento de mecanismos que permitam a incorporação do feedback dos trabalhadores. Já ‘Justiça, Equidade, Diversidade e Inclusão (JEDI)’ demanda ações concretas para fomentar ambientes de trabalho verdadeiramente diversos e inclusivos, tanto internamente quanto em toda a cadeia de valor da empresa.

Imagem: Freepik via valor.globo.com
No tópico ‘Direitos Humanos’, as exigências evoluem para que as empresas compreendam integralmente os potenciais impactos negativos de suas operações e de seus fornecedores, e implementem medidas eficazes para preveni-los e mitigá-los. Para ‘Ação Climática’, os requisitos englobam o desenvolvimento de planos robustos, alinhados à meta de limitação do aquecimento global a 1,5°C, e, para companhias de maior porte, a realização de inventários de emissões de gases de efeito estufa (GEE) com metas validadas cientificamente. Por sua vez, ‘Gestão Ambiental e Circularidade’ abrange a avaliação e a contínua redução dos impactos ambientais tanto nas operações diretas quanto na complexa cadeia produtiva. Finalmente, ‘Assuntos Governamentais e Ação Coletiva’ incentiva a participação ativa das empresas em esforços conjuntos que visem a mudanças sistêmicas e na defesa de políticas públicas que gerem resultados socioambientais positivos. Para grandes corporações, uma exigência adicional é a divulgação detalhada de relatórios fiscais país por país, visando maior transparência.
Implicações da Nova Estrutura de Padrões
Uma distinção fundamental deste modelo é que as metas de melhoria contínua não são determinadas pelas próprias empresas, ao contrário de outras iniciativas de autorregulação. É o próprio B Lab quem estabelece os padrões, conforme explicado pelo co-CEO do Sistema B Brasil, Rodrigo Gaspar. Ele ressalta que esses critérios representam o cerne da Teoria da Mudança do movimento, servindo como guia tanto para o processo de certificação quanto para a atuação política e advocacy da organização em diversos países. Os padrões são desenvolvidos com o apoio de um Conselho Consultivo independente e multissetorial, que agrega a expertise de especialistas em negócios, governo, academia e organizações da sociedade civil, garantindo uma perspectiva abrangente e bem informada.
Além disso, a certificação B Corp agora é conduzida por prestadores de serviços de garantia aprovados pelo B Lab, elevando a independência e o alinhamento com as melhores práticas internacionais. Esse rigor é consonante com as diretrizes como a Diretiva da União Europeia sobre o Empoderamento dos Consumidores para a Transição Verde, que tem previsão de entrada em vigor em 2026. “Desde legislação mais rigorosa até ao ceticismo em relação ao greenwashing, o mundo exige mais do que apenas boas intenções”, pondera Gaspar, salientando que este novo sistema integrado fortalece a credibilidade das marcas e capacita as Empresas B a comunicarem seu impacto com segurança e fundamentação.
Para obter e manter a certificação, as empresas precisarão comprovar o cumprimento dos requisitos com base em materialidade. Isso envolve a apresentação de documentos diversos, como políticas internas, evidências de implementações, acreditações e outras certificações pertinentes. Esses materiais são submetidos a uma análise minuciosa em auditorias independentes, focando na clareza e na relevância das evidências em relação a cada requisito específico. A expectativa do Sistema B é que o novo arcabouço ajude a mitigar práticas superficiais de ESG, consolidando o papel da certificação como um verdadeiro indicativo de que as empresas integram efetivamente a sustentabilidade e o impacto positivo em suas estratégias de negócios. Com uma agenda de transição planejada para estender-se até 2028, o Sistema B já está trabalhando na capacitação das empresas certificadas, apoiando-as na adaptação aos novos padrões e assegurando que o movimento continue a ser uma força relevante e transformadora em um cenário global que exige resultados cada vez mais concretos e verificáveis.
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O rigor aprimorado na Certificação B Corp reflete uma resposta essencial às demandas contemporâneas por transparência e responsabilidade corporativa. Compreender essas mudanças é fundamental para empresas que almejam não apenas o selo, mas uma integração genuína do impacto socioambiental em seu core business. Continue acompanhando as atualizações sobre economia, negócios de impacto e sustentabilidade em nossa editoria para se manter informado.
Crédito da imagem: Sistema B Brasil/ Divulgação

