A exposição Tarsila do Amaral “Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral”, inaugurada nesta quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026, no Centro Cultural do Tribunal de Contas da União (TCU), em Brasília, apresenta um conjunto de 63 obras que transcende a temporalidade, convidando à reflexão sobre pautas contemporâneas. Com entrada gratuita, a mostra se destaca não apenas pela sua dimensão cultural, mas pela capacidade de suas telas dialogarem com o cenário social e trabalhista atual.
Um exemplo notório dessa conexão é a obra “Operários”, de 1933, que exibe 51 rostos de trabalhadores industriais, com olhares marcados pelo cansaço e seriedade, sob um céu poluído por fumaça de chaminés. Segundo Paola Montenegro, sobrinha-bisneta e responsável pela gestão do legado artístico de Tarsila do Amaral, a tela ganha uma relevância acentuada em meio aos debates no Congresso Nacional sobre a possível extinção da escala de trabalho 6 por 1. “É notável como conseguimos observar obras de 100 anos atrás e ainda identificar nelas uma força tão grande”, observa Montenegro.
Obras Tarsila do Amaral no TCU Despertam Debates Atuais
Para a publicitária, a tela “Operários” serve como um espelho para a sociedade brasileira, ao mesmo tempo em que critica a jornada de 6 por 1, vista por ela como um modelo que restringe direitos fundamentais. “As pessoas possuem o direito à cultura, ao lazer, ao tempo livre”, argumenta Paola Montenegro, sublinhando a privação de atividades essenciais que esse regime laboral pode causar. A mostra no TCU celebra, adicionalmente, o centenário da primeira exposição individual que Tarsila do Amaral realizou em Paris, evidenciando a grandiosidade e impacto contínuo de sua trajetória artística.
O foco no “Olhar Social” é uma das propostas curatoriais da exposição. Além de “Operários”, outras duas pinturas famosas que abordam a desigualdade e a exploração são “Segunda Classe”, de 1933, e “Costureiras”, de 1950. Essas obras, que integram um dos núcleos temáticos da exibição na capital federal, estimulam o público a considerar a perspectiva do próximo.
A curadoria, assinada pelas pesquisadoras Karina Santiago, Rachel Vallego e Renata Rocco, optou por uma organização por núcleos temáticos em vez da ordem cronológica. Essa escolha permite que os múltiplos ângulos da artista, desde seus primeiros trabalhos figurativos da década de 1910 até a crescente sensibilidade social pós-1930, sejam apreciados de forma interconectada. Karina Santiago aponta que esses olhares de Tarsila do Amaral, manifestados em suas diversas fases, oferecem uma profunda compreensão do Brasil e do mundo que ela habitava. A pintora é reconhecida por sua jornada de distanciamento de privilégios econômicos, o que a transformou na principal artista plástica brasileira.
A influência da escola modernista é particularmente notável no pensamento criativo de Tarsila. A concepção de “Abaporu”, sua obra mais icônica e que atualmente pertence a um museu na Argentina, é um testemunho vívido dessas influências oriundas da década de 1920. Com o tempo, elementos religiosos e a atenção às questões ambientais passaram a se integrar às críticas da artista às disparidades sociais. A concretização da exposição “Transbordar o mundo” exigiu mais de um ano de preparativos complexos, incluindo o transporte de obras provenientes de diversos institutos, museus e colecionadores de São Paulo.
Tarsila do Amaral: Além do Tempo e Suas Reflexões Sociais
Para a pesquisadora Rachel Vallego, as obras de Tarsila possuem uma capacidade notável de transcender as épocas e dialogar com questões do terceiro milênio. Vallego explica que, na década de 1930, após as substanciais perdas financeiras sofridas por sua família, de cafeicultores, devido à quebra da Bolsa de Nova York em 1929, Tarsila do Amaral desenvolveu uma visão social mais aguçada. Esse período marcou uma transformação em sua maneira de conceber o funcionamento da sociedade. “Considero extremamente instigante que, nesta obra, todos os personagens nos observem diretamente. Isso revela uma perspectiva social muito mais equânime e nos interpela profundamente”, salienta Rachel Vallego sobre a expressividade de algumas obras.
Além do tema do “olhar para o outro”, as curadoras segmentaram as telas em três outros núcleos fundamentais: a formação da artista, que explora o seu “estar no mundo”; a descoberta de cenários, intitulada “olhar o mundo”; e a exploração do universo do sonho e da imaginação, denominado “mergulho no onírico”. Nesses segmentos, são apresentadas criações como o “Auto-Retrato”, de 1923, “Palmeiras”, de 1925, e “São Paulo”, de 1924, que juntas ilustram as multifacetadas perspectivas da artista.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
Uma inovadora atração da exposição é a sala imersiva, que emprega um videografismo inédito. Essa instalação artisticamente combina o simbólico sapo, figura recorrente na produção de Tarsila, com a animação de obras como “A Cuca” (1924), “Abaporu” (1928), “Sol Poente” (1929), “Cartão Postal” (1929) e “Antropofagia” (1929). A concepção desta sala busca, também, despertar a curiosidade das crianças através de um conteúdo lúdico, oferecendo espaços para fotografias e vídeos, e permitindo uma imersão sensorial nas artes visuais. Todo o material videográfico, criado sem o uso de inteligência artificial, promove uma “viagem tarsiliana” e foi curado por Paola Montenegro e pela cientista social Juliana Miraldi, que destaca a originalidade do vídeo como uma forma de homenagear a criatividade histórica de Tarsila.
“Na exposição, experimentamos momentos de imersão na história do Brasil, nos outros e no mundo”, resumiu Paola Montenegro. A sobrinha-bisneta da artista plástica expressa o anseio de levar essa exposição a outras cidades do país, reafirmando o legado de uma mulher notavelmente à frente de seu tempo. As discussões levantadas pelas obras de Tarsila do Amaral continuam a inspirar o público e acadêmicos.
A Mulher Feminista e Visionária
Rachel Vallego complementa que as escolhas e a postura de Tarsila do Amaral podem ser qualificadas como feministas. A pesquisadora ressalta a decisão da artista de interromper um casamento nos anos 1910, mesmo tendo um filho, e de ter recebido apoio familiar para perseguir sua carreira como pintora, demonstrando uma vanguarda e autonomia que ressoam até os dias atuais. A diretora do Instituto Serzedello Corrêa, Ana Cristina Novaes, entidade responsável pelo Centro Cultural, reforça o compromisso de promover visitas de instituições de ensino, como escolas e faculdades, enquanto a exposição estiver em cartaz em Brasília, até 10 de maio de 2026. O objetivo é amplificar o acesso e o conhecimento sobre o pensamento vivo e revolucionário de Tarsila.
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As reflexões que as obras de Tarsila do Amaral evocam, desde a exploração do trabalho até a condição da mulher na sociedade, provam a atemporalidade de sua arte e sua contínua capacidade de impactar o debate público. Convidamos você a explorar outras análises e notícias culturais em nosso portal para aprofundar seu conhecimento sobre o patrimônio artístico e os temas relevantes do nosso tempo. Acesse nossa editoria de análises para mais artigos inspiradores.
Crédito da imagem: Joédson Alves/Agência Brasil

