Obras de Tarsila do Amaral inspiram debates atuais em mostra

Últimas Notícias

As obras de Tarsila do Amaral, uma das mais célebres artistas plásticas do Brasil, continuam a ser uma fonte de profundo significado, instigando reflexões sobre pautas contemporâneas, mesmo décadas após sua criação. Um exemplo marcante é a tela “Operários”, de 1933, que apresenta cinquenta e um semblantes de trabalhadores da indústria, caracterizados por olhos fatigados e expressões sérias, representando uma diversidade de gênero, idade e etnia. Ao fundo, uma paisagem fabril com um edifício imponente e seis chaminés expele fumaça, alterando a tonalidade do que antes era um céu azul. Essa poderosa imagem artística se mantém extremamente pertinente diante de discussões atuais no Congresso Nacional, como a proposta de extinção da jornada de trabalho 6 por 1, sugerindo um diálogo intrínseco entre a arte do passado e as realidades sociais do presente.

A publicitária Paola Montenegro, bisneta da pintora e responsável pela gestão do seu valioso legado artístico, sublinha a atemporalidade das criações de Tarsila. Segundo Montenegro, a capacidade de obras concebidas há quase um século ainda irradiarem tanta força e relevância é notável. “Operários”, em particular, é percebida como um espelho da identidade brasileira, onde muitos cidadãos podem reconhecer a si mesmos. A herdeira de Tarsila faz uma conexão direta entre o contexto da obra e a questão da escala de trabalho 6 por 1, argumentando que tal regime laboral priva os indivíduos de direitos essenciais, como acesso à cultura, ao lazer e a um tempo livre adequado, elementos cruciais para o bem-estar e desenvolvimento humano.

Obras de Tarsila do Amaral inspiram debates atuais em mostra

Essas e outras análises ganham destaque na exposição “Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral”, que apresenta 63 obras da artista. A mostra foi inaugurada em uma quarta-feira, dia 11 de maio, no Centro Cultural do Tribunal de Contas da União (TCU), em Brasília, com entrada gratuita, e permanece em cartaz até 10 de maio do ano seguinte. O evento comemora o centenário da primeira exposição individual que Tarsila realizou na capital francesa, Paris, marcando um ponto crucial na trajetória internacional da pintora e reafirmando sua importância no cenário artístico global.

O Olhar Social Profundo

O foco social das criações de Tarsila é amplamente explorado na exposição, com destaque para outras duas obras célebres que também abordam temáticas de desigualdade e exploração: “Segunda Classe” (1933) e “Costureiras” (1950). Na exposição do TCU, essas telas estão inseridas em um núcleo temático dedicado ao “olhar o outro”, incentivando os visitantes a refletirem sobre as diferentes realidades e desafios sociais presentes na obra da artista modernista. Esta abordagem ressalta como a Tarsila do Amaral, nascida há 130 anos, soube capturar e questionar as disparidades de sua época.

A mostra “Transbordar o mundo” é singular por reunir um acervo inédito de trabalhos da artista, concebida com uma curadoria inovadora pelas pesquisadoras Karina Santiago, Rachel Vallego e Renata Rocco. Elas optaram por organizar as obras por núcleos de temas em vez da tradicional ordem cronológica, proporcionando uma compreensão mais fluida e aprofundada das mensagens transmitidas pelas peças. Karina Santiago esclarece que a multiplicidade de olhares de Tarsila, visível na diversidade de suas fases criativas — desde os trabalhos figurativos do início do século XX até sua crescente sensibilidade social após a década de 1930 —, oferece uma rica perspectiva sobre o Brasil e o mundo que a pintora vivenciava. A artista trilhou um caminho de distanciamento do seu contexto de privilégio econômico para emergir como uma figura central da arte plástica nacional. Esta transição se reflete na forte influência do modernismo em seu pensamento criativo, culminando na obra “Abaporu” (1928), tida como sua mais renomada criação e pertencente ao acervo de um museu argentino, evidenciando as inspirações da década de 1920. Os elementos religiosos e a atenção à pauta ambiental, aos poucos, entrelaçam-se com as críticas contundentes às desigualdades que ela passou a expressar. A montagem da exposição demandou mais de um ano de preparativos complexos, devido ao cuidadoso transporte das obras, oriundas de importantes institutos, museus e colecionadores de São Paulo.

A Atemporalidade da Arte Tarsiliana

Para a pesquisadora Rachel Vallego, as obras de Tarsila do Amaral demonstram uma notável capacidade de transcender o tempo, comunicando-se de forma eficaz com as temáticas do terceiro milênio. Vallego contextualiza que a visão social de Tarsila se aprofundou a partir dos anos 1930, período em que sua família, dedicada à cafeicultura, sofreu severas perdas financeiras com a crise global desencadeada pela quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. Esse evento marcou uma mudança na perspectiva da artista sobre o funcionamento da sociedade.

Rachel Vallego aponta um aspecto particularmente instigante da obra “Operários”: “Eu acho muito interessante que, nessa obra, todas as pessoas nos olhem diretamente. Ela demonstra um olhar muito mais social e equilibrado. Ela nos provoca muito nesse lugar”, afirma. A pesquisadora ressalta a força com que Tarsila consegue estabelecer essa conexão direta e reflexiva. As pesquisadoras curatoriais da exposição subdividiram as telas em três grandes eixos temáticos adicionais: a formação artística e o seu “estar no mundo”, a exploração de diversos cenários e o “olhar o mundo”, e a imersão nos sonhos e na imaginação através do “mergulho no onírico”. Nesses núcleos, o público pode contemplar trabalhos emblemáticos como o “Auto-Retrato” (1923), “Palmeiras” (1925) e “São Paulo” (1924), que juntos revelam as múltiplas facetas e percepções da Tarsila do Amaral.

Imersão Artística e Movimento

Um dos pontos altos da exposição é uma sala imersiva especialmente desenvolvida para o evento, onde um videografismo inovador combina a imagem recorrente do sapo, um símbolo frequente nas pinturas de Tarsila, com a animação de obras-primas como “A Cuca” (1924), “Abaporu” (1928), “Sol Poente” (1929), “Cartão Postal” (1929) e “Antropofagia” (1929). O objetivo principal desta sala é cativar a curiosidade, inclusive das crianças, oferecendo um conteúdo lúdico e oportunidades únicas para fotos e vídeos, estimulando a interação do público mais jovem com o universo da artista.

Neste material cinematográfico, que foi desenvolvido sem a utilização de inteligência artificial e teve a curadoria de Paola Montenegro e da cientista social Juliana Miraldi, todas as obras ganham vida e movimento, proporcionando uma autêntica “viagem tarsiliana”. Juliana Miraldi ressalta a originalidade do vídeo, que serve como uma homenagem à criatividade vanguardista e histórica de Tarsila. Paola Montenegro descreve a experiência na mostra como um “mergulho na história do Brasil, um mergulho nos outros e um mergulho no mundo”. A sobrinha-bisneta da artista expressa o anseio de estender esta exposição por todo o território nacional, divulgando a trajetória e o pensamento de uma mulher que estava visivelmente à frente do seu tempo.

A Tarsila Feminista e a Continuidade de seu Legado

A pesquisadora Rachel Vallego acrescenta uma camada de análise ao trabalho de Tarsila, identificando atitudes e perspectivas que hoje poderiam ser categorizadas como feministas. Ela aponta que, nos anos 1910, Tarsila optou por interromper um casamento, mesmo sendo mãe, e contou com o apoio de sua família para desenvolver uma bem-sucedida carreira como pintora, demonstrando uma independência notável para a época. Este episódio reforça a imagem de Tarsila como uma mulher que desafiou convenções sociais em busca de sua realização pessoal e profissional.

A diretora do Instituto Serzedello Corrêa, Ana Cristina Novaes, entidade responsável pelo centro cultural, revela que, durante o período de exibição em Brasília, até 10 de maio do ano seguinte, há planos para promover visitas de instituições de ensino, como escolas e faculdades. A iniciativa visa possibilitar que um público ainda maior se familiarize com o legado e o “pensamento vivo” de Tarsila do Amaral, consolidando sua influência educativa e cultural. Este esforço coletivo reforça o entendimento de que as obras de Tarsila do Amaral não são meros objetos de contemplação, mas sim convites perenes à reflexão sobre questões que persistem na sociedade. Conforme divulgado em relatórios e notícias da Agência Brasil, o engajamento com artistas nacionais é vital para a compreensão cultural.

Confira também: Imoveis em Rio das Ostras

As reflexões que as obras de Tarsila do Amaral inspiram, especialmente no contexto da exposição “Transbordar o mundo” em Brasília, demonstram a potência da arte para dialogar com pautas sociais e políticas atuais. Desde a jornada de trabalho 6 por 1 até questões de desigualdade e protofeminismo, o legado de Tarsila se mantém vibrante e provocador, convidando o público a um mergulho na história e na arte brasileira. Para aprofundar-se em mais análises e eventos culturais que moldam nosso entendimento de sociedade, explore outras notícias em nossa editoria de Cultura.

Crédito da imagem: Joédson Alves/Agência Brasil

Deixe um comentário