A produção de “Tina – Tina Turner, o Musical” implementou apoio psicológico integral para seu elenco, especialmente para as cenas que retratam a violência e o abuso vivenciados pela icônica cantora. Essa medida sublinha o compromisso da montagem brasileira com a profundidade e a sensibilidade exigidas para abordar os capítulos mais dolorosos da biografia de Tina Turner, que se tornam palpáveis no palco do Teatro Santander, em São Paulo, com o início de sua temporada.
O espetáculo tem seu ponto de partida em um dos momentos mais grandiosos da carreira de Tina: o show no Maracanã, em janeiro de 1988, diante de mais de 180 mil fãs – a maior plateia pagante para uma artista solo até então. A cena mostra Tina, interpretada pela talentosa Analu Pimenta, confrontando memórias difíceis de sua trajetória. É nesse instante que espectros de sua infância, como a figura de sua avó, emergem, remetendo ao início de sua vida como Anna Mae Bullock e as muitas barreiras superadas para chegar ao topo.
Musical Tina Turner: Apoio Psicológico para Cenas Intensas
A vida de Tina Turner (1939-2023), vencedora de 12 prêmios Grammy, foi tão marcada por sucessos atemporais quanto por uma infância turbulenta e um casamento repleto de dor. Conforme aponta a diretora associada internacional Katherine Hare, responsável por assegurar a fidelidade da produção brasileira à montagem original britânica, Tina foi uma resiliente sobrevivente de violência doméstica, racismo, etarismo e misoginia. Sua incumbência primordial é orquestrar uma representação que aborde tais complexidades com a devida sensibilidade e realismo.
Desde a violência familiar em sua infância até o abandono materno, a vida de Tina foi um percurso de superação. Sua voz foi descoberta na adolescência por Ike Turner (1931-2007), que não só lhe deu o nome artístico mas também a prendeu em um matrimônio abusivo de 16 anos, marcado por graves violências físicas e emocionais. O musical, portanto, funciona como uma obra de memória, reencenando momentos cruciais de sua existência, como Hare detalha. A narrativa se inicia em 1956, na cidade de Nutbush, Tennessee, avança para 1960 em St. Louis – onde a conexão com Ike e a banda é estabelecida – e segue, passo a passo, até a culminância no show apoteótico no Maracanã.
Impacto das Cenas de Violência e o Preparo do Elenco
A montagem se mantém fiel à história da cantora, alternando interpretações eletrizantes de clássicos como “The Best”, “Whats Love Got to Do With It?”, “Private Dancer”, “Proud Mary” e “River Deep, Mountain High” com cenas gráficas de violência de Ike contra terceiros e, chocantemente, contra Tina e seu próprio filho. Hare descreve essas passagens como “momentos realmente agressivos”, que exigem a simulação crível de socos, chutes, tapas e mordidas. A necessidade de um elenco profundamente entrosado, com uma conexão autêntica, é destacada como essencial para a autenticidade e segurança dessas encenações. A diretora elogia os atores brasileiros, especialmente Analu Pimenta (Tina) e César Mello (Ike), classificando-os como os melhores com quem já trabalhou em diversas produções globais do musical.
Analu Pimenta, aos 39 anos, encarna Tina Turner de forma excepcional, não apenas replicando seu timbre vocal singular, mas também mergulhando na complexidade emocional de sua jornada. A atriz revela ter esperado anos por esse papel, tendo sido selecionada para a produção espanhola em 2020 e 2022, mas impedida pela pandemia e, na última tentativa, pela escolha de uma artista local. Sua experiência anterior como cantora, que frequentemente incluía o repertório de Tina em seus shows, proveu-lhe uma base sólida para a performance, especialmente nos trejeitos e coreografias.
Uma conexão mais profunda com Tina emergiu da própria experiência de vida de Analu, que se casou duas vezes e tem um filho, compreendendo as dificuldades enfrentadas por mulheres negras em uma sociedade etarista, particularmente no universo artístico. Contudo, ela foi aconselhada pelos diretores internacionais a dissociar sua história pessoal do palco para salvaguardar sua saúde mental e evitar problemas psicológicos durante a intensa jornada de interpretação.
Desafios na Interpretação de Ike Turner e Zelma Bullock
Para César Mello, interpretar Ike Turner, um homem sedutor e, ao mesmo tempo, profundamente violento, representou uma série de barreiras significativas. O ator teve de enfrentar a “sombra” que Ike representava, um indivíduo que, em sua análise, possuía uma “doença” alimentada por ressentimentos, abusos na infância por uma tia, um diagnóstico de bipolaridade e o uso de cocaína não para recreação, mas para manter a capacidade de trabalhar por noites seguidas. A não atribuição a Ike da autoria do primeiro single de rock’n’roll, “Rocket 88” (1951), erroneamente creditada a Elvis Presley com o rockabilly, é apresentada como uma grande desilusão na vida do artista, que vivia em uma sociedade profundamente racista. Mello relata ter encontrado dificuldades nos estágios iniciais de ensaio das cenas de agressão, mesmo com o apoio de dois especialistas em luta cênica.

Imagem: valor.globo.com
Em um episódio marcante, durante a simulação de uma agressão a uma criança, o ator sentiu-se sobrecarregado, precisando ceder a cena ao seu substituto. Ele ressalta que “todos precisamos passar por um processo para poder xingar e agredir com realismo”, mencionando que, em um momento de entrega, adicionou um chute a uma cena, o que foi incorporado pelos preparadores da peça. Outro desafio crucial foi a intrincada e fria relação de Tina com sua mãe, Zelma, vivida por Renata Vilela, uma figura caracterizada como distante e calculista.
O Legado de Sobrevivência e o Futuro da Produção
A essência de “Tina – Tina Turner, o Musical” reside na luta por sobrevivência de uma mulher que enfrentou racismos, misoginia e preconceito de idade ao longo de sua jornada para reconstruir a carreira, conforme pontuado por Stephanie Mayorkis, da IMM Esporte e Entretenimento, produtora responsável pela montagem brasileira. Para esta produção de grande porte, foi aprovada uma captação via lei de incentivo de aproximadamente R$ 15 milhões, evidenciando o investimento e a ambição por trás do projeto.
O clímax do espetáculo é a eletrizante apresentação de Tina no Maracanã, onde Analu Pimenta transborda vulnerabilidade, calor humano e, ao mesmo tempo, uma ferocidade vibrante. É um “minishow” em si, que convida o público a uma imersão completa, levantando-se para dançar e cantar junto, em um tributo à força e ao legado de Tina Turner.
A profundidade e complexidade da jornada de vida de Tina Turner são inquestionáveis. Seus ensinamentos sobre resiliência e a capacidade de reinventar-se ressoam de forma atemporal, transcendendo as barreiras do tempo e do espaço. Para saber mais sobre sua vida e contribuições para a música e a cultura global, visite a página da Tina Turner na Wikipédia, uma fonte abrangente e de alta autoridade.
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A saga de Tina Turner, apresentada com tanta intensidade em seu musical, é um convite à reflexão sobre a força humana diante das adversidades. Para aprofundar-se em histórias inspiradoras do universo das celebridades ou em análises culturais impactantes, convidamos você a explorar outras matérias em nossa editoria de Celebridade no blog Hora de Começar. Mergulhe em conteúdos que enriquecem e provocam novas perspectivas!
Foto: Pedro Dimitrow/Divulgação
