Morre Manoel Carlos, ícone da teledramaturgia brasileira aos 92 anos

Economia

A teledramaturgia brasileira perdeu um de seus maiores mestres. O renomado autor Manoel Carlos morre neste sábado (10), aos 92 anos, na cidade do Rio de Janeiro. A notícia de seu falecimento foi confirmada oficialmente pela família. Embora a causa específica da morte não tenha sido divulgada publicamente, sabe-se que o aclamado escritor estava sob cuidados médicos no Hospital Copa Star, situado em Copacabana, onde realizava tratamento contínuo contra a Doença de Parkinson, condição que impactou significativamente suas funções motoras e cognitivas ao longo do último ano.

Manoel Carlos Gonçalves de Almeida, carinhosamente conhecido como Maneco, será eternamente lembrado por suas produções que celebravam o cotidiano vibrante do Leblon, charmoso bairro da zona sul carioca, e que tinham como elemento central as icônicas personagens nomeadas Helena. Distante das telas desde 2014, sua prolífica carreira legou aos telespectadores um impressionante acervo de 16 telenovelas e 6 minisséries ou seriados, entre os quais se destacam sucessos memoráveis como “Água Viva”, “Baila Comigo”, “Malu Mulher”, “Por Amor”, “Laços de Família”, “Presença de Anita”, “Mulheres Apaixonadas” e “Maysa, Quando Fala o Coração”.

Morre Manoel Carlos, ícone da teledramaturgia brasileira aos 92 anos

Nascido em 14 de março de 1933, na cidade de São Paulo, o autor deu seus primeiros passos no universo artístico como ator. Sua estreia ocorreu em 18 de setembro de 1950, poucos meses após a inauguração da televisão brasileira, no programa “Teatro das Segundas-Feiras”, exibido pela TV Tupi de São Paulo. Antes disso, ele já era atuante no teatro amador, integrando um grupo dirigido pelo notável Antunes Filho. A vocação para a escrita já se manifestava: Maneco assinou mais de 100 textos para o programa “Grande Teatro Tupi”, uma produção ao vivo que, entre 1955 e 1963, adaptava clássicos da literatura mundial e contava com interpretações de gigantes como Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg e Ítalo Rossi.

Da TV Record ao encontro com as “Helenas” na Globo

Sua trajetória continuou a se diversificar na TV Record, onde, entre 1965 e 1967, Manoel Carlos assumiu as funções de produtor, redator e diretor do seminal programa musical “O Fino da Bossa”. A atração, comandada pela inesquecível dupla Jair Rodrigues e Elis Regina, lotava semanalmente o Teatro Record, em São Paulo, transformando-se em um marco para a música brasileira. O estrondoso sucesso rendeu três álbuns ao vivo. Ainda na Record, de 1967 a 1971, Maneco dirigiu e produziu, ao lado de Nilton Travesso, o irreverente programa humorístico “Família Trapo”, criado por Carlos Alberto da Nóbrega e Jô Soares, e eternizado pela atuação de Ronald Golias como Bronco.

A estreia de Manoel Carlos na TV Globo ocorreu em 1972, quando foi convidado pelo então poderoso José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, para integrar a equipe de diretores do “Fantástico”, que seria lançado em 5 de agosto de 1973. Ali permaneceu por três anos, lapidando sua visão de televisão. No entanto, sua consagração como autor de telenovelas aconteceu em 1978, aos 45 anos, com “Maria, Maria”, exibida no horário das 18h e baseada no romance regionalista “Maria Dusá”, de Lindolfo Rocha. Em 1981, lançou sua primeira obra original, “Baila Comigo”, às 20h, introduzindo a primeira de suas célebres Helenas, interpretada por Lilian Lemmertz. Desde então, as Helenas se tornaram uma marca registrada em nove de suas telenovelas, sendo Regina Duarte a intérprete mais frequente, com aparições em “História de Amor”, “Por Amor” e “Páginas da Vida”. Vera Fischer, Christiane Torloni, Taís Araújo e Julia Lemmertz também viveram a personagem-símbolo.

O mistério do nome e a versatilidade temática

A conexão de Manoel Carlos com o nome Helena remonta a 1952, quando ele adaptou o romance homônimo de Machado de Assis para a televisão. Controvertendo a crença popular de que o nome estaria ligado a alguma relação pessoal, o próprio Maneco explicou que, salvo uma sobrinha-neta, ele nunca teve uma companheira ou filha com esse nome. A paixão pela Helena vem, na verdade, de sua admiração pela figura da mitologia grega, que, segundo o autor, simboliza a mulher forte, digna, e capaz de feitos inesperados movida pelo amor. As Helenas e outras heroínas de Manoel Carlos eram “irrefutavelmente humanas”, como descreveram os escritores do livro “Autores – Histórias da Teledramaturgia”, do Memória Globo, lançado em 2008. Maneco reforçava a ideia ao Memória Globo, definindo Helena como o “símbolo da mulher forte, guerreira e capaz de tudo em nome do amor”. Aprofundar-se na memória de grandes autores da teledramaturgia brasileira é fundamental para entender a riqueza de seu legado.

Manoel Carlos foi um autor que entregou-se integralmente ao ofício. Somente uma única telenovela ficou inacabada em sua carreira, por um motivo trágico: “Sol de Verão”, de 1982. A morte do amigo e ator Jardel Filho durante as gravações levou o autor a ceder os 17 capítulos finais para Lauro César Muniz, sem condições emocionais de finalizá-los. Após esse período, explorou outras emissoras como Bandeirantes e Manchete. O retorno triunfal à Globo aconteceu em 1991, com “Felicidade”, onde Maitê Proença interpretou a Helena da vez.

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Imagem: valor.globo.com

A partir daí, suas tramas não apenas se fixaram no Leblon, embaladas pela elegância da Bossa Nova, mas também abordaram de forma contundente e sensível uma variedade de temas sociais cruciais. A agressão contra mulheres, o alcoolismo, as questões de pessoas com deficiência, como a síndrome de Down, a leucemia e a violência urbana foram tecidos em narrativas que provocavam reflexão e diálogo. “Mulheres Apaixonadas”, exibida entre fevereiro e outubro de 2003, é um exemplo clássico dessa abordagem.

Legado e vida familiar de um visionário

Residente do Leblon por mais de quatro décadas, Manoel Carlos tecia em suas narrativas a alma do bairro que tanto amava. Em suas palavras, expressas no livro de 2008, ele descreveu seu processo criativo: “Minhas novelas falam do dia-a-dia, de coisas triviais, são feitas propositalmente com algumas histórias polêmicas, e tenho plena consciência de que sou pago para fazer uma novela de sucesso. Ter essa consciência é fundamental.” Sua visão era a de um contador de histórias que entendia a essência do entretenimento com propósito.

Em sua vida pessoal, Manoel Carlos foi pai da atriz Júlia Almeida e da roteirista de novelas Maria Carolina, que frequentemente colaborava em suas produções. Ele enfrentou a dolorosa perda de outros três filhos: o dramaturgo e ator Ricardo de Almeida, que faleceu em 1988; o diretor Manoel Carlos Júnior, em 2012; e o estudante de teatro Pedro Almeida, em 2014. Sua biografia é um testamento de resiliência e dedicação inabalável à arte e à família, elementos que, sem dúvida, permeavam sua rica e complexa obra.

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A partida de Manoel Carlos encerra um capítulo importante na história da televisão brasileira. Sua capacidade de transformar o cotidiano em poesia dramática, abordando temas universais e sociais com uma lente sensível e perspicaz, garantiu-lhe um lugar cativo no coração de milhões de brasileiros. Para continuar explorando notícias e análises sobre o mundo das celebridades e grandes personalidades da nossa cultura, convidamos você a acessar a categoria Celebridade no Hora de Começar.

Crédito da imagem: Manoel Carlos, escritor e autor de novelas – Foto: Valor

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