O presidente Luiz Inácio Lula da Silva articulou uma forte defesa pela união das nações em desenvolvimento, especificamente aquelas que compõem o chamado Sul Global, como meio essencial para reconfigurar a estrutura econômica predominante no cenário mundial. Essa importante declaração foi proferida na madrugada do domingo, 22 de fevereiro de 2026, momentos antes de finalizar sua visita oficial à Índia e iniciar o percurso em direção à Coreia do Sul.
Durante uma coletiva de imprensa, o mandatário brasileiro abordou as dificuldades históricas e as assimetrias que países com menor desenvolvimento enfrentam consistentemente nas interações e negociações com superpotências globais. Ele enfatizou que a fragmentação desses países os torna vulneráveis em cenários de diálogo direto com as maiores economias do planeta.
Lula Propõe União do Sul Global para Mudar Lógica Econômica
“Sempre sustentamos que países de menor porte devem se unir para negociar com as potências maiores. Nações como Índia, Brasil, Austrália e outros membros do Sul Global necessitam estar alinhadas, pois na mesa de negociação direta com superpotências, a inclinação é para a perda”, afirmou o presidente Lula. Ele ressaltou a capacidade intrínseca desses países em desenvolvimento de efetivamente transformar a dinâmica econômica global. “Basta termos a vontade. Chegou a hora de efetuar essa mudança. Fundamento esta visão em quinhentos anos de experiência colonial, um legado que nos mantém em uma condição de colonização tecnológica e econômica. É imprescindível estabelecermos parcerias com aqueles que compartilham de nossas similaridades, somando nossos potenciais para nos tornarmos mais fortes coletivamente”, complementou.
O Papel Estratégico do BRICS na Nova Economia Global
Na ótica de Lula, o bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que agora conta com novos membros, tem desempenhado um papel colaborativo fundamental para viabilizar essa emergente lógica econômica para o mundo. Ele destacou o amadurecimento e a consolidação do grupo. “Este é um grupo que anteriormente era marginalizado. Conseguimos criar um banco próprio. Reconheço que os Estados Unidos demonstram certa inquietação, que, na verdade, se concentra na China. Contudo, a intenção não é fomentar uma nova Guerra Fria. Nossa prioridade é fortalecer o nosso grupo, com a perspectiva de que ele possa se integrar ao G20 e, quem sabe, evoluir para algo equivalente a um G30, ampliando ainda mais sua representatividade e influência”, argumentou o presidente.
Adicionalmente, Lula reiterou que nunca foi defendida a criação de uma moeda unificada para o BRICS. “O que de fato defendemos é a realização de transações comerciais entre nossos países utilizando nossas próprias moedas. Esse mecanismo visa diminuir as dependências externas e otimizar os custos envolvidos nas trocas internacionais. É natural que os EUA possam não aprovar a ideia inicialmente, mas este é um tema que está aberto para o debate e para a progressão de novas práticas econômicas multilaterais.
Multilateralismo e o Fortalecimento da ONU
O presidente brasileiro reafirmou seu comprometimento com o multilateralismo e com o imperativo de fortalecer a Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo Lula, a entidade internacional precisa restaurar sua legitimidade e eficácia, cumprindo uma de suas funções primordiais: a manutenção da paz e da harmonia no globo. “Recentemente, contatei a maioria dos presidentes do mundo, propondo que devemos responder aos acontecimentos na Venezuela, em Gaza e na Ucrânia. É inaceitável permitir que, de maneira unilateral, qualquer nação, por mais poderosa que seja, intervenha nos assuntos internos de outros países. Necessitamos urgentemente da ONU para mediar e resolver esses tipos de conflitos. Para tanto, a organização precisa ter representatividade real e equitativa de seus membros”, reiterou o presidente.
Relações Brasil-EUA: Parceria ou Ameaça?
No tocante à relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos, Lula sinalizou a possibilidade de emergirem boas parcerias, desde que haja um genuíno interesse por parte dos EUA em combater organizações criminosas transnacionais, como o narcotráfico. “O crime organizado contemporâneo opera como uma empresa multinacional. Consequentemente, nossa Polícia Federal deve construir alianças com todas as nações que demonstrem interesse em enfrentar esse desafio conosco”, disse Lula. “Se o governo dos EUA estiver, de fato, engajado no combate ao narcotráfico e ao crime organizado, nós estaremos na linha de frente, inclusive reivindicando a extradição de criminosos brasileiros que se encontram em território americano”, acrescentou.
O presidente Lula salientou a importância de que a superpotência norte-americana estabeleça uma relação pautada no respeito com os países da América do Sul e Caribe. Ele descreveu a região como pacífica, sem qualquer armamento nuclear, e com aspirações claras de crescimento econômico, geração de empregos e melhoria da qualidade de vida de sua população.
Esta questão, inclusive, deverá ser um dos temas de discussão no próximo encontro agendado entre Lula e o presidente Donald Trump. “Meu interesse é debater qual é o papel dos EUA na América do Sul: se é de apoio ou se é de ameaça, como ocorre na sua relação com o Irã. O mundo necessita de tranquilidade e estabilidade. Devemos canalizar nossas energias para erradicar a fome e combater a violência contra as mulheres, que, infelizmente, cresce globalmente”, declarou Lula, lembrando que o período atual registra o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial.
Referindo-se à taxação imposta pelos EUA a outras nações, recentemente revogada pela Suprema Corte estadunidense, Lula declarou que não lhe compete, enquanto presidente do Brasil, tecer julgamentos sobre decisões proferidas por cortes de outros países.

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Encontros Promissores na Índia e Próxima Parada: Coreia do Sul
O presidente Lula detalhou os encontros produtivos que teve com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi. “Aprofundamos bastante as discussões sobre nossa relação comercial e a interação estratégica entre Brasil e Índia. Não adentramos em pormenores sobre geopolítica internacional. Conheço a perspectiva da Índia sobre certas questões, e eles estão cientes da posição brasileira. Optamos por focar nos pontos que nos unem. Principalmente no fortalecimento mútuo de nossas economias para nos elevarmos à categoria de países altamente desenvolvidos”, relatou Lula, classificando a conversa como extraordinária e altamente bem-sucedida para ambas as nações.
As reuniões com a comunidade empresarial indiana também foram avaliadas positivamente. Lula destacou que “todos os empresários indianos com investimentos no Brasil expressam grande otimismo em relação ao país e planejam expandir seus investimentos. A confiança deles no potencial brasileiro é notável”.
O presidente reiterou a abertura do Brasil para a participação de outros países na exploração de minerais críticos e terras raras em seu território. Contudo, impôs uma condição inegociável: o acesso a essas riquezas será concedido apenas àqueles que se comprometerem a agregar valor em território brasileiro. “O processo de transformação deve acontecer no Brasil. Estamos abertos ao diálogo. O que não iremos permitir é que com nossas terras raras ocorra o mesmo que presenciamos com nosso minério de ferro por tantos anos, onde apenas abrimos buracos para enviar a matéria-prima e, posteriormente, importamos os produtos manufaturados. Nosso desejo é que essa transformação se concretize no Brasil”, frisou Lula.
Lula iniciou sua viagem à Ásia na terça-feira, 17 de fevereiro de 2026, com o objetivo de fortalecer laços comerciais e parcerias estratégicas com a Índia e a Coreia do Sul. Em Nova Deli, capital indiana, sua recepção ocorreu como retribuição à visita do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, ao Brasil em julho de 2025, durante a Cúpula do BRICS. Esta marcou a quarta viagem de Lula à Índia, e a segunda em seu mandato atual.
No domingo, 22 de fevereiro de 2026, o presidente Lula e sua comitiva presidencial desembarcam em Seul, Coreia do Sul, atendendo ao convite do presidente Lee Jae Myung. Esta é a terceira visita do líder brasileiro ao país, sendo a primeira de Estado. Nesta ocasião, está prevista a adoção do Plano de Ação Trienal 2026-2029, que visa aprofundar e elevar o nível das relações entre os dois países para o patamar de uma parceria estratégica mais robusta.
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Em suma, a postura do presidente Lula sublinha uma visão globalista focada na autodeterminação e no poder cooperativo do Sul Global, buscando um equilíbrio nas relações econômicas e políticas internacionais. Ele defende uma agenda que prioriza a soberania, o desenvolvimento interno e o multilateralismo como pilares para um futuro mais justo e próspero. Para se aprofundar ainda mais nos desdobramentos da política externa brasileira e seus impactos na economia global, convidamos você a explorar outras análises em nossa editoria de Política e Economia.
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