A renomada neuropsicofarmacologista e psiquiatra Gabriella Gobbi, atualmente presidente do Colégio Internacional de Neuropsicofarmacologia (Collegium Internationale Neuro-Psychopharmacologicum) e professora destacada da Universidade McGill, localizada no Canadá, emitiu um alerta contundente. Sua declaração, de grande relevância, aponta que o lucro farmacêutico, e não os princípios da ciência e da necessidade de saúde pública, determina quais medicamentos avançam no complexo processo de desenvolvimento e finalmente chegam aos pacientes.
Em uma entrevista concedida à Genomic Press e posteriormente veiculada na prestigiada revista Brain Medicine, a Dra. Gobbi expressou seu receio mais profundo sobre o panorama atual da inovação em psicofarmacologia e na descoberta de novas drogas. Ela ressaltou que tratamentos extremamente promissores, especialmente aqueles direcionados a doenças mentais, permanecem estagnados ou inacessíveis. Essa situação, segundo a especialista, ocorre porque o investimento em capital de risco e a incessante busca por retornos financeiros robustos ditam a progressão dos compostos químicos nas custosas etapas de ensaios clínicos, fundamentais para a validação de qualquer medicamento.
“Meu maior medo é em relação ao futuro da psicofarmacologia e da descoberta de medicamentos. Não porque a ciência esteja falhando, mas porque um sistema ganancioso supervisiona a inovação hoje”, afirmou Gobbi, explicitando a natureza do desafio. Ela descreve um modelo preocupante onde a pesquisa acadêmica inicial, muitas vezes, é sustentada por financiamento público. No entanto, as fases posteriores, que são as mais dispendiosas – incluindo os imprescindíveis testes em humanos – tornam-se completamente dependentes do investimento privado. Essa dependência, adverte, orienta as decisões por margens de lucro elevadas, e não pela real necessidade médica e pelo potencial terapêutico para a saúde dos pacientes. A médica alerta: “Podemos perder tratamentos bons e de baixo custo porque um sistema capitalista voraz controla qual medicamento será finalmente levado ao mercado.”
Lucro Farmacêutico Supera Ciência em Desenvolvimento de Medicamentos
As Implicações para as Doenças Negligenciadas
Gabriella Gobbi estendeu seu raciocínio crítico para abordar uma questão igualmente alarmante: o problema das doenças negligenciadas. Este é um conjunto de patologias infecciosas que impactam, em sua maioria, as populações mais empobrecidas do mundo. Estas comunidades residem em áreas caracterizadas por condições precárias de saneamento básico e limitado acesso a serviços essenciais de saúde. Elas recebem a denominação de “negligenciadas” pois, apesar do seu gigantesco impacto em escala global em termos de morbidade e mortalidade, não conseguem despertar o interesse da indústria farmacêutica para o desenvolvimento de novos tratamentos e vacinas.
O motivo fundamental para essa indiferença é que o público-alvo afetado por essas doenças possui um poder aquisitivo significativamente baixo, tornando qualquer investimento em pesquisa e desenvolvimento economicamente desinteressante para um setor orientado pelo **lucro farmacêutico**. A situação é agravada pelo fato de que muitas vezes essas doenças são ignoradas pelas políticas de saúde e pela maior incidência delas em regiões de clima tropical. Para uma compreensão mais aprofundada das iniciativas globais para combater essas lacunas na pesquisa e desenvolvimento, a Organização Mundial da Saúde (OMS) oferece diversos recursos e informações.
A Pesquisa Inovadora de Gabriella Gobbi
Retornando às suas linhas de investigação, a observação clínica que serve de motor para a pesquisa mais conhecida de Gabriella Gobbi é notavelmente simples em sua essência. No começo dos anos 2000, ela começou a monitorar adolescentes e jovens adultos que tinham o hábito de consumir Cannabis. O que mais chamou sua atenção foi que, anos após o período de uso, muitos desses indivíduos desenvolveram quadros de depressão, frequentemente marcados por uma profunda anedonia. Este termo técnico descreve a incapacidade, ou uma redução severa na capacidade, de experimentar prazer em atividades que antes eram tidas como agradáveis e gratificantes.
Em 2007, o laboratório de Gobbi publicou um relatório que se tornou um marco, sendo um dos primeiros a estabelecer uma conexão direta entre canabinoides, o sistema de serotonina cerebral e fenótipos clínicos característicos da depressão. A pesquisa avançou, e em 2010, estudos detalhados realizados em modelos animais reforçaram a hipótese, demonstrando que a exposição à Cannabis durante a adolescência podia aumentar a vulnerabilidade de indivíduos a episódios depressivos subsequentes. Finalmente, em 2019, novas evidências surgiram em coortes humanas, adicionando suporte robusto às descobertas anteriores e consolidando a compreensão desse elo crucial. Paralelamente, em uma demonstração de sua visão vanguardista, sua equipe iniciou pesquisas com substâncias psicodélicas em 2013, bem antes da atual efervescência de ensaios clínicos que projetou o tema para o centro das discussões na medicina moderna.

Imagem: g1.globo.com
Lutando pela Equidade de Gênero na Ciência
Com inquestionável franqueza, Gabriella Gobbi aborda também a persistente desigualdade de gênero que permeia o cenário da ciência acadêmica. Ela não apenas denuncia o assédio ostensivo que muitas pesquisadoras enfrentam, mas também descreve uma forma mais sutil, porém igualmente prejudicial, de erosão silenciosa de oportunidades. Esta manifesta-se no acesso desigual a um apoio administrativo fundamental oferecido pelas instituições, no desvio de talentos femininos para trabalhos de menor visibilidade e, lamentavelmente, numa cultura de convites para conferências que acaba por desfavorecer de forma significativa pesquisadoras que, desproporcionalmente, arcam com encargos familiares pesados. Tais dinâmicas impedem o pleno reconhecimento e desenvolvimento de suas carreiras.
“Essa é a causa que mais me entusiasma: mudar a estrutura da nossa cultura científica para que a excelência seja reconhecida sem impor um imposto adicional e oculto às mulheres”, enfatizou a cientista. Ao assumir a presidência do Collegium Internationale Neuro-Psychopharmacologicum (CINP), Gobbi fez história como a primeira mulher a ocupar tão elevado cargo na entidade. Durante sua gestão, ela acolheu e ouviu diversos relatos de pesquisadoras talentosas. Histórias de isolamento profissional, avaliações inconsistentes de seu trabalho ou, pior, a completa ausência de convites para participar de importantes mesas de discussão, decisivas para o avanço em seus respectivos campos. Esses relatos evidenciam a urgência de uma mudança cultural e estrutural profunda para promover uma verdadeira equidade na ciência.
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As observações e a atuação da Dra. Gabriella Gobbi lançam luz sobre um debate crucial acerca das prioridades éticas e dos mecanismos que regem a pesquisa e o desenvolvimento de medicamentos globalmente. Sua perspectiva evidencia a urgência em se reavaliar a proeminência do lucro farmacêutico frente ao progresso científico e às necessidades sanitárias da humanidade, além de destacar a luta contínua contra as desigualdades de gênero ainda enraizadas no universo acadêmico e científico. Entender essas complexas intersecções é vital para que se possa construir um futuro onde a saúde pública prevaleça sobre os interesses comerciais. Para aprofundar seu conhecimento sobre o cenário econômico e suas influências na saúde e sociedade, explore outros artigos em nossa editoria de Economia.
Crédito da Imagem: Divulgação Gabriella Gobbi, professora da Universidade McGill, no Canadá


