O Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP 2026), realizado nesta quarta-feira, 18 de março de 2026, no Brasil, tem sido alvo de intensas críticas por parte de organizações que defendem o meio ambiente e os direitos dos consumidores. Os resultados do certame geraram controvérsia devido à predominância de usinas movidas a combustíveis fósseis entre os empreendimentos contratados, levantando sérias preocupações sobre os custos para os consumidores e os impactos ambientais.
Este processo de contratação tem como objetivo assegurar que usinas permaneçam em prontidão para fornecer energia ao Sistema Interligado Nacional (SIN) em momentos de alta demanda ou emergências. A capacidade de resposta dessas fontes é crucial para garantir a segurança energética do país, contudo, a natureza das fontes selecionadas para o próximo ano tem sido o foco do descontentamento.
Leilão de Reserva de Capacidade 2026 Gera Controvérsias
A composição dos vencedores do leilão indica um cenário que organizações ambientais consideram problemático. Dentre os 100 empreendimentos que tiveram sucesso na disputa, a maior parte se baseia em recursos não renováveis. Foram contratadas 90 termelétricas a gás natural, somando 18,7 GW de potência, além de três termelétricas a carvão mineral, com 1,4 GW. Em contraste, apenas cinco usinas hidrelétricas foram vencedoras, contribuindo com 9,5 GW, e duas termelétricas a biogás, com uma potência combinada de 9,2 MW.
O Instituto Internacional Arayara, reconhecido por sua atuação em litigância climática e ambiental, expressou veementemente sua insatisfação. A entidade argumenta que priorizar usinas movidas a combustíveis fósseis é uma decisão preocupante, especialmente considerando que o certame ocorre no ano seguinte à COP30, que será sediada em Belém (PA). Para o Arayara, a contratação de termelétricas a carvão mineral, especificamente, é “inacreditável”, uma vez que esse combustível responde pelo maior percentual de emissão de gases de efeito estufa no sistema elétrico nacional.
Ainda sobre as usinas a carvão, o instituto levanta dúvidas sobre sua capacidade de oferecer a flexibilidade exigida para atuar como reserva de capacidade. Conforme dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o tempo necessário para o acionamento dessas usinas – a chamada “partida a frio” – pode estender-se por até oito horas. Esse período prolongado impossibilitaria a entrega rápida de energia em momentos de pico de demanda, principalmente no início da noite, quando a necessidade é mais urgente.
Em nota oficial, o Instituto Arayara também apontou para a “incoerência da Política Energética Nacional relativamente aos compromissos climáticos assumidos pelo país”. Segundo a organização, enquanto o Brasil deveria estar desenvolvendo um roteiro para a progressiva eliminação dos combustíveis fósseis, a realidade demonstra a continuidade da contratação de longo prazo de termelétricas movidas a carvão mineral, contradizendo os esforços globais e nacionais pela descarbonização.
No front dos direitos dos consumidores, a Frente Nacional de Consumidores de Energia (FNCE) manifestou preocupação com o impacto financeiro do leilão. A entidade estima que as termelétricas selecionadas implicarão um custo anual de R$ 39 bilhões, o que poderia se traduzir em um aumento médio de 10% nas contas de luz para os consumidores brasileiros. Além da receita fixa estipulada no leilão, os consumidores ainda serão onerados com os custos dos combustíveis sempre que essas usinas forem acionadas, exacerbando a carga financeira.
A FNCE alertou para impactos significativos não apenas nas tarifas, mas também na inflação. A organização destacou um possível agravamento do desequilíbrio no setor elétrico nacional e o aumento das emissões de gases de efeito estufa. Para a Frente, a decisão de contratar usinas movidas a combustíveis fósseis compromete o elevado patamar de renovabilidade da matriz elétrica brasileira, especialmente em um país com grande potencial e histórico de uso de fontes limpas.
Outra organização a se posicionar contra foi o Instituto Nacional de Energia Limpa (INEL), que expressou sua oposição à presença de termelétricas no certame. O INEL chegou a protocolar um pedido de impugnação do leilão junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que, no entanto, teve seu pedido negado pela agência reguladora.

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As projeções financeiras do INEL são igualmente alarmantes. A entidade calcula que os consumidores podem enfrentar um prejuízo estimado entre R$ 190 bilhões e R$ 510 bilhões em um período de dez anos. Este valor elevado é justificado pela alegação de que os custos fixos de operação e manutenção aprovados no leilão excedem consideravelmente as referências estabelecidas pelo Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, que é o instrumento de planejamento estratégico do governo federal para o setor energético.
Em meio às críticas, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defendeu o resultado do leilão, afirmando que a medida contribui para resolver a questão da potência no sistema energético brasileiro. Ele expressou a crença de que este seja um dos últimos certames organizados pelo governo federal a contratar energia proveniente de fontes não renováveis.
O ministro enfatizou a diferença entre a contratação programada e as contratações emergenciais: “Quando a gente contrata uma térmica, nós estamos falando, além de segurança energética, de menor tarifa para o consumidor. Uma coisa é contratar uma térmica, que já tem um custo fixo e é disputada em um leilão público. A outra coisa é ser contratado de forma emergencial, pagando muito mais caro”, explicou Silveira. O argumento do governo é que a antecipação na contratação, mesmo de fontes fósseis, evita gastos maiores em situações de crise.
A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) também saiu em defesa do LRCAP. A CCEE assegurou que a potência contratada fortalecerá a segurança energética do Brasil, disponibilizando recursos de forma ágil em momentos críticos e conferindo maior estabilidade ao sistema elétrico, especialmente em períodos de baixa hidrologia. A instituição ainda argumentou que o leilão garante a complementaridade indispensável para permitir uma expansão segura das fontes renováveis no futuro.
Além do certame já concluído, está agendado um novo Leilão de Reserva de Capacidade para a próxima sexta-feira, 20 de março de 2026. Este próximo evento visa contratar energia gerada por termelétricas movidas a óleo diesel, óleo combustível e biodiesel, o que provavelmente adicionará mais uma camada ao debate sobre a política energética nacional. O **Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE)**, desenvolvido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), serve como bússola para essas decisões estratégicas.
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O **Leilão de Reserva de Capacidade 2026** emerge como um ponto central na discussão sobre o futuro da matriz energética brasileira, colocando em lados opostos a busca por segurança e custo, e a urgência de uma transição para fontes mais limpas e renováveis. As repercussões das decisões tomadas nesses certames moldarão tanto a conta de luz dos cidadãos quanto a capacidade do país em cumprir seus compromissos climáticos. Para se aprofundar em mais análises e notícias sobre este e outros temas que impactam o orçamento nacional, explore nossa editoria de Economia.
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