Irã pré-1979: Liberal, monarquia violenta e maioria pobre

Últimas Notícias

A percepção do Irã antes de 1979 muitas vezes oscila entre a imagem de uma nação vibrante e ocidentalizada e a realidade de uma monarquia autoritária e violenta. Registros da época, incluindo fotografias e relatos, evidenciam um período em que cidades iranianas, especialmente as capitais, mostravam influências ocidentais notáveis, com mulheres adotando vestimentas como minissaias, contrastando drasticamente com a vigilância da atual polícia de costumes, conhecida por sua repressão e violência contra quem desobedece as normas sobre o uso do véu. No entanto, essa aparente modernidade coexistia com um regime absolutista, onde a maior parte da população vivia em condições de pobreza e sob constante vigilância estatal.

Especialistas ressaltam que, apesar de uma fachada liberal, o governo do xá era caracterizado por um aparato de repressão rigoroso. O historiador Figueiredo aponta que o regime do xá, embora tolerante em certos aspectos culturais, operava com uma polícia política ativa, prisões e centros de tortura, onde inúmeras pessoas eram detidas e desapareciam, revelando um lado obscuro por trás da imagem progressista. Esse contraste entre modernização e opressão é crucial para entender os eventos que levariam à revolução posterior e as tensões presentes até hoje no país.

Irã pré-1979: Liberal, monarquia violenta e maioria pobre

A dinastia Pahlavi, que moldou grande parte do século XX no Irã, ascendeu ao poder há um século através de um golpe militar. O primeiro monarca dessa linhagem, avô do atual pretendente ao trono, liderou o país até o período da Segunda Guerra Mundial. A localização geográfica do Irã, estratégica entre a União Soviética e o Império Britânico, transformou-o em um ponto de interesse crucial e resultou em sua ocupação por ambas as potências, que eram aliadas durante o conflito global. Os britânicos, em particular, tinham um interesse adicional significativo: o acesso facilitado ao vasto suprimento de petróleo iraniano.

Nacionalização do Petróleo e Golpe de Estado

O acesso ao petróleo iraniano tornou-se um ponto de tensão em 1951. Conforme explica o historiador, o povo iraniano elegeu um líder de inclinação social-democrática que defendia a nacionalização da indústria petrolífera. O objetivo era utilizar as riquezas geradas para financiar o desenvolvimento e a industrialização do país, buscando assegurar recursos para o progresso nacional. Contudo, essa iniciativa gerou desconforto em potências estrangeiras, culminando em 1953, quando o xá, com apoio explícito dos britânicos, orquestrou um golpe para depor o então primeiro-ministro. A consequência direta foi uma intensa centralização de poder nas mãos da monarquia, especificamente nas mãos do xá, o que cimentou ainda mais sua autoridade.

A figura de Reza Pahlavi, filho de Mohamed Reza Pahlevi, o último xá do Irã antes da Revolução de 1979, ressurgiu em meio à crise recente do regime iraniano, alimentando discussões sobre uma possível transição de poder. Suas aparições públicas e pronunciamentos visam resgatar a influência da antiga monarquia.

A Ascensão da República Islâmica

A noite que viu pessoas celebrarem a morte do aiatolá Khamenei remeteu às comemorações de 1979, ano em que a Revolução Iraniana depôs o xá Reza Pahlevi. Naquele momento histórico, um movimento unificado por setores da esquerda, democratas e religiosos trabalhava pela derrubada da monarquia. O primeiro ano da revolução foi marcado por uma estrutura de poder ainda fragmentada, evidenciada pela tomada da embaixada americana por estudantes e a retenção de dezenas de reféns. Paulo Hilu, especialista no tema, elucida que a República Islâmica, embora declarada em 1979, só se consolidou efetivamente em 1982.

Em 1982, o aiatolá Khomeini, um clérigo xiita, assumiu a posição de Líder Supremo, funcionando como um chefe de estado com autoridade máxima sobre as forças armadas. Embora o presidente seja eleito democraticamente, a sua candidatura depende da aprovação do clérigo. Hilu detalha que, enquanto o presidente gerencia os ministérios e formula políticas públicas de saúde, por exemplo, ele não possui controle sobre as Forças Armadas, um elemento vital do poder no Irã. Isso demonstra uma organização estatal na qual o poder se fragmenta em diversas estruturas políticas, evitando a centralização total em um único braço executivo civil. Para entender o pano de fundo histórico que levou a esta complexa estrutura, pode-se consultar mais informações sobre a Revolução Iraniana na Enciclopédia Britannica, que detalha os eventos e protagonistas.

O Regime de Khamenei e a Repressão Interna

Com a morte do aiatolá Khomeini em 1989, o aiatolá Ali Khamenei assumiu a liderança suprema do país. Sua gestão, que se estendeu por quase 50 anos, foi marcada pela oposição à hegemonia americana e israelense na região, o que, ironicamente, fomentou inimigos externos. Internamente, Khamenei também gerou adversários devido à intensa repressão política. Filipe Figueiredo diferencia a repressão pré- e pós-1979, enfatizando que a violência de gênero se tornou um aspecto mais proeminente e cruel no regime pós-revolução, especialmente após a guerra com o Iraque (pós-1988), sendo particularmente direcionada às mulheres.

O falecimento da jovem curda Mahsa Amini em 2022, após ser espancada por se recusar a usar o véu, catalisou uma série de protestos massivos por todo o país. A brutalidade na repressão a esses manifestantes, resultando em milhares de mortes, é frequentemente citada como uma das razões pelas quais alguns celebraram a morte de Khamenei. A nação iraniana, rica em diversidade étnica e religiosa e com quase 100 milhões de habitantes, enfrenta um dilema: como evitar uma nova ditadura ou uma guerra civil após a recente turbulência política?

Irã pré-1979: Liberal, monarquia violenta e maioria pobre - Imagem do artigo original

Imagem: g1.globo.com

O Futuro do Irã: Democracia ou Nova Ditadura?

A sociedade iraniana possui diversos grupos que buscam ativamente um futuro democrático. Paulo Hilu menciona a existência de grandes pensadores e atores políticos que já tentaram, inclusive de dentro das estruturas da República Islâmica, direcionar o país para uma rota mais democrática. Há um setor secularizado na sociedade e um pluralismo de interpretações religiosas. Contudo, Hilu adverte que tais condições são passíveis de realização apenas se ocorrer uma transição genuína para um regime inclusivo e democrático.

A Volta do Xá: Uma Possibilidade Improvável

Quase cinco décadas após a Revolução dos aiatolás, o príncipe da antiga monarquia, Reza Pahlavi, expressou sua disposição em liderar uma transição no país. Especialistas, no entanto, veem esse cenário como improvável. Entre a lembrança do antigo regime do xá, a repressão imposta pela República Islâmica e uma sociedade dividida por protestos, o Irã se depara com encruzilhadas similares às de 1979. Recentemente, em meio a bombardeios, Reza Pahlavi divulgou uma mensagem em persa ao povo iraniano, afirmando que a “ajuda” prometida pelo presidente dos Estados Unidos “acaba de chegar”, declarando: “Espero estar ao seu lado o mais breve possível para que, juntos, possamos retomar o Irã e reconstruí-lo”.

Reza Pahlavi, filho de Mohamed Reza Pahlevi, o último xá – título persa que significa “rei dos reis” –, foi exilado aos 18 anos com seu pai, após a revolução. Desde então, ele tem se posicionado como a solução para a crise atual do país, afirmando que foi “convocado” e que retornará ao Irã para “garantir uma transição estável”. O principal suporte a Pahlavi vem da comunidade iraniana na diáspora, ou seja, dos iranianos que foram exilados juntamente com a família real. Filipe Figueiredo observa que, dentro do próprio Irã, o apoio à monarquia é multifacetado e consideravelmente menor.

O analista Paulo Hilu sugere que, embora alguns setores, como comerciantes, possam apoiar a monarquia, a falta de memória histórica também beneficia essa perspectiva, já que a maior parte da população nasceu e cresceu após a revolução de 1979. Contudo, Hilu é cético quanto à legitimidade de Pahlavi, considerando-o uma figura que reflete um descrédito geral nas lideranças políticas iranianas. Ele enfatiza que o retorno do príncipe sob um contexto de bombardeios americanos e israelenses e com a presença de suas tropas, certamente, não lhe conferiria a legitimidade necessária para governar.

A atual situação do Irã aponta para um cenário complexo e incerto, onde diversas forças internas e externas disputam o futuro da nação. A herança de regimes anteriores e a aspiração por mudanças se chocam em um país que continua a ser um ponto focal na geopolítica mundial.

Confira também: Imoveis em Rio das Ostras

Entender a complexidade da história iraniana, do Irã antes de 1979 até os dias atuais, é fundamental para acompanhar os desenvolvimentos em uma das regiões mais dinâmicas do globo. Continue explorando as notícias e análises de política internacional em nossa editoria para se manter atualizado. Para mais conteúdos relacionados, visite a seção de Política em nosso blog.

Foto: Reprodução / Fantástico

Deixe um comentário