A potencial escalada da inflação é o grande temor do mercado financeiro em decorrência do conflito no Irã, conforme análise de Benjamin Souza, diretor e estrategista da BlackRock para a América Latina. Em entrevista, Souza destacou que a duração da crise será determinante para a magnitude dos seus efeitos nos mercados, com particular atenção aos preços globais do petróleo. O cenário já apontava para um aumento do barril desde a questão envolvendo a Venezuela, e agora, com uma disrupção mais concreta no Estreito de Ormuz, a pressão inflacionária se intensifica.
O impacto do fechamento do Estreito de Ormuz é significativo, uma vez que aproximadamente 20% da produção mundial de petróleo transita por essa via marítima vital. Qualquer interrupção ali pode afetar drasticamente a oferta global da commodity e, consequentemente, seus custos. Benjamin Souza reforçou a complexidade do momento, ressaltando que, apesar do Irã não operar em plena capacidade de produção atualmente, uma eventual mudança de regime político poderia, no futuro, resultar na remoção de sanções internacionais. Tal desfecho, surpreendentemente, teria o potencial de gerar uma queda nos preços do petróleo a longo prazo, se a produção iraniana fosse restabelecida no mercado global.
Conflito no Irã: Inflação é o Principal Temor, diz BlackRock
A principal preocupação imediata reside, portanto, na volatilidade de curto prazo. Segundo Souza, a primeira resposta dos mercados a esses choques geopolíticos é geralmente a alta nas taxas de juros nos Estados Unidos, com o petróleo atingindo variações percentuais de dois dígitos em um único dia. Ele reiterou que os ruídos em torno da elevação dos preços do petróleo não são recentes, tendo se intensificado desde as discussões relacionadas à Venezuela, mas a interrupção no Estreito de Ormuz representa uma disrupção tangível, afetando não só a região produtora, mas todo o sistema de transporte mundial de petróleo.
Impacto Imediato nos Mercados
O diretor da BlackRock salientou que a rápida aproximação do petróleo de um salto de dois dígitos em um único pregão já era um indicativo claro da sensibilidade do mercado a tais eventos. O Estreito de Ormuz, por sua posição estratégica e por ser um gargalo para a circulação global de energia, coloca em xeque a estabilidade econômica global. Uma interrupção prolongada no Estreito afetaria diretamente os custos de energia e, consequentemente, pressionaria a inflação em diversas economias. Caso o conflito não evolua para uma guerra de grandes proporções, que contamine amplamente os mercados, Benjamin Souza sugere que o ambiente poderia se tornar novamente mais favorável para a América Latina, com investidores retomando a análise dos fatores pré-conflito, que indicavam um panorama benéfico para os mercados emergentes.
Preços do Petróleo em Foco
A pergunta crucial sobre se os mercados devem esperar preços de petróleo consistentemente mais altos depende inteiramente da duração da crise. Se uma solução política for alcançada rapidamente e o conflito se dissipar, é provável que os preços retrocedam. Souza enfatiza a capacidade subutilizada de países como o Irã e a Venezuela. A remoção de sanções que hoje impedem a plena produção de petróleo nessas nações, com eventual apoio dos Estados Unidos em um cenário de mudança política, poderia, paradoxalmente, levar a uma redução nos preços. No entanto, se o confronto militar no Irã se prolongar e expandir, a inflação passaria a ser a maior preocupação, especialmente nos Estados Unidos.
A Trajetória da Inflação nos EUA e o Federal Reserve
A dinâmica inflacionária nos EUA, que vinha demonstrando uma trajetória positiva e indicava espaço para cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed), agora se depara com a ameaça de contágio pelo conflito. A grande questão é se esse evento geopolítico será inflacionário e alterará a perspectiva favorável. Embora seja prematuro prever o impacto total, a incerteza é inegável e essa se tornou a principal inquietação do mercado. Além disso, a futura posse de um novo presidente do banco central americano adiciona uma camada extra de incerteza à política monetária, dificultando as projeções para eventuais cortes nas taxas de juros este ano.
Desemprego versus Inflação: O Dilema do Fed
A análise de Souza revela que, atualmente, o maior desafio dos Estados Unidos não é a inflação, que se encontra próxima da meta de 2% (entre 2,4% e 2,5% em várias métricas), mas sim o emprego. A economia americana, em 2025, tem gerado cerca de 180 mil vagas, um número considerado baixo para seu tamanho, não apresentando nem grande destruição nem criação acelerada de postos de trabalho. Dada a situação de estabilidade inflacionária e o problema no mercado de trabalho, Souza sugere que ainda há margem para cortes nas taxas de juros. Ele calcula que a taxa de juros neutra nos EUA gira em torno de 2,5%, próxima à inflação, enquanto a taxa atual está em 3,25%, o que abre espaço para pelo menos três reduções este ano. Caso a desaceleração do mercado de trabalho persista, com inflação sob controle, a discussão para 2027 poderá envolver cortes ainda mais profundos.

Imagem: Silvia Zamboni via valor.globo.com
Perspectivas para Mercados Emergentes
O temor de que o conflito no Irã possa frear o fluxo de capital para mercados emergentes é ponderado por Benjamin Souza. Se a crise não se expandir para uma guerra de grande escala, os investidores tenderão a se concentrar nos mesmos fundamentos de antes, que já indicavam um cenário promissor para essas economias. A BlackRock, inclusive, tem registrado fortes fluxos para seus produtos focados em mercados emergentes, com quatro das cinco estratégias de maior captação sendo relacionadas a eles nos últimos quinze anos, um fato inédito na sua experiência. O interesse renovado nesses mercados é impulsionado pelo advento da inteligência artificial, que demanda investimentos contínuos em infraestrutura. Isso requer matérias-primas como aço (para data centers), alumínio (para CPUs e GPUs) e cobre (para transmissão de energia), insumos majoritariamente encontrados em mercados emergentes, sobretudo na América Latina. Paralelamente, a China busca alcançar os EUA em desenvolvimento tecnológico, intensificando seus investimentos e, por consequência, a demanda por esses recursos. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), um cenário em que as duas maiores economias globais impulsionam a América Latina simultaneamente não era visto há muito tempo, gerando um ambiente extremamente favorável para a região.
O Cenário Econômico Brasileiro
Apesar da recente valorização, Souza ainda considera os ativos brasileiros descontados em relação a outros mercados. Este desconto se deveu em grande parte às incertezas fiscais e às elevadas taxas de juros, que chegaram a 15% e afastaram investidores. Com a inflação agora mais controlada, o Brasil tem grande potencial para cortes nas taxas, o que deverá reduzir a taxa de desconto dos lucros futuros das empresas, tornando o mercado mais atraente. Mesmo após o recente “rali”, ele continua a enxergar o mercado brasileiro com valor estratégico, especialmente comparado a outras economias globais que já apresentaram valorizações mais significativas.
Eleições Nacionais e Visão dos Investidores Globais
A respeito das eleições no Brasil, Benjamin Souza reconhece a leitura polarizada de investidores locais sobre os possíveis desfechos. Muitos consideram que a continuidade do governo atual seria negativa fiscalmente, enquanto uma alternativa seria mais benéfica. Contudo, Souza acredita que, mesmo no cenário de continuidade, a deterioração fiscal não seria extrema. Ele argumenta que nenhum candidato com seriedade política no Brasil defenderia medidas radicais de corte de gastos, como as observadas em outros países da América Latina. Assim, uma mudança fiscal drástica é improvável, podendo o cenário variar entre uma estabilização ou uma deterioração gradual do quadro fiscal. No fim das contas, a preocupação do investidor global tende a ser menor com a política doméstica e maior com os fundamentos e resultados das empresas brasileiras, especialmente aquelas ligadas à exportação de aço e minério de ferro para os grandes motores globais, EUA e China.
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Este panorama econômico complexo, que associa tensões geopolíticas a oportunidades de investimento, é essencial para o leitor que busca entender as forças que moldam o mercado global e local. Para aprofundar suas análises sobre as repercussões de crises internacionais e seus efeitos na América Latina, continue acompanhando nossa editoria de Economia.
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