O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, expressou sua convicção neste sábado (7) de que a humanidade não permanecerá passiva diante do avanço da extrema-direita. A declaração ocorreu em São Paulo, durante o evento de lançamento de seu novo livro, intitulado “Capitalismo superindustrial – caminhos diversos, destino comum”. Em um contexto de possível transição de seu posto na principal pasta econômica do governo, Haddad já havia manifestado publicamente seu desejo de participar da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No entanto, o Partido dos Trabalhadores (PT) tem pressionado para que ele considere uma nova candidatura ao governo de São Paulo ou uma vaga no Senado.
Diante de uma plateia de 150 pessoas reunidas no auditório do Sesc 14-Bis, na capital paulista, Haddad reforçou sua visão otimista. “Por que esse livro é mais otimista? Porque a extrema-direita já ascendeu. E eu não acredito que a humanidade vai ficar parada”, pontuou. Essa esperança, embora mitigada, reside na crença de uma mobilização eficaz contra a extrema-direita, a fim de que ações úteis sejam realizadas. Essa afirmação segue reflexões de uma obra anterior do ministro, na qual ele previa o cenário de crise do neoliberalismo e os desafios enfrentados pela esquerda.
Fernando Haddad: Humanidade Agirá Contra Extrema-Direita
Durante o evento, o ministro enfatizou sua identidade como professor e intelectual, mas não se furtou a responder questões pertinentes à sua função atual. Ele abordou a peculiaridade de um ministro da Fazenda publicar um trabalho sobre o capitalismo, destacando que “não é recomendado que um ministro da Fazenda publique um livro desse [sobre o capitalismo].” Haddad acrescentou que, naturalmente, quanto mais poder se acumula, maior a tendência de se afastar de tais discussões, em busca de proteção. Contudo, para alguém com seus compromissos, como ele mesmo frisou, seria inconcebível deixar o cargo sem lançar esta obra.
Haddad pondera que sua atuação como intelectual pode gerar interpretações negativas por parte dos agentes de mercado com os quais interage diariamente. “Não vou sair bem com todo mundo, não dá para fazer isso”, admitiu. A análise crítica do ministro estendeu-se à fragilidade da democracia brasileira, um problema que ele vincula historicamente à abolição da escravidão no país. Ele explicou que “a análise do Brasil, que tem que partir da escravidão, tem a ver com o Estado.” Em sua visão, o Estado foi essencialmente entregue como compensação pela abolição, perpetuando a percepção da classe dominante de que o Estado é sua propriedade.
De acordo com o ministro, a presença de figuras como o ex-metalúrgico Lula, ou outros líderes na história que desafiaram o pacto estabelecido em 1889, provoca uma “confusão na certa.” Ele argumenta que esse “acordão”, firmado sob o aval das Forças Armadas, tende a reagir vigorosamente quando as forças democráticas tentam questioná-lo. O lançamento do livro culminou em um debate amistoso, contando com a participação do sociólogo Celso Rocha de Barros e a mediação da professora e antropóloga Lilia Schwarcz.
Reflexões Sobre Capitalismo e Experiência Chinesa
O livro “Capitalismo superindustrial – caminhos diversos, destino comum” é resultado de uma revisão e ampliação dos estudos de mestrado e doutorado de Fernando Haddad, conduzidos nas décadas de 1980 e 1990, que exploravam o modelo soviético. A edição atualizada aprofunda as concepções do ministro sobre a acumulação primitiva de capital nas regiões periféricas do sistema capitalista global. O texto promove um diálogo entre a ideia de capitalismo superindustrial e abordagens progressistas contemporâneas, incluindo as teorias do capitalismo cognitivo e do tecnofeudalismo.
Adicionalmente, a obra empreende uma avaliação dos novos desafios que emergem com a ascensão da China ao status de potência global. “Esse livro ficou meio perdido, mas por causa da China e de outras experiências, ele é agora relevante”, salientou Haddad. Ele instigou a reflexão sobre a real natureza da experiência chinesa, questionando se há uma utopia por trás de seu modelo, se o embate com o Ocidente se resume a uma mera disputa hegemônica, e se existem classes sociais e luta de classes dentro da China.

Imagem: valor.globo.com
Para Haddad, as forças materiais em jogo impõem a necessidade de revisitar essas indagações fundamentais, forçando um debate aprofundado sobre esses temas cruciais. A capacidade de um ministro da Fazenda em atividade para produzir uma obra com tamanha profundidade intelectual reforça sua faceta como pensador político e econômico, indo além das pautas governamentais imediatas. Para uma análise mais ampla sobre o cenário democrático no Brasil, pode-se consultar matérias especializadas que abordam as complexidades e desafios contemporâneos da nossa sociedade, como relatórios sobre a saúde da democracia brasileira em veículos de imprensa de renome.
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A fala de Fernando Haddad sobre a não-passividade humana diante da ascensão da extrema-direita e o lançamento de seu novo livro reafirmam seu papel não apenas como figura política, mas como um intelectual que se debruça sobre os grandes temas da contemporaneidade. Seu trabalho provoca a discussão sobre o futuro do capitalismo, as dinâmicas políticas globais e os desafios internos do Brasil. Para aprofundar-se em mais análises sobre política e economia, continue explorando nossa editoria de Política.
Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, durante café da tarde com jornalistas, em dezembro de 2025 – Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo
