Desempenho Bitcoin 2025: Projeções Frustradas e Lições

Economia

O início de 2025 gerou um otimismo sem precedentes no universo das criptomoedas. A expectativa em torno do chamado ‘efeito-Trump’, que havia aquecido ativos de risco no final de 2024, levou a previsões ambiciosas para o Bitcoin. Analistas e investidores projetavam um preço-alvo que variava entre US$ 130 mil e US$ 250 mil, com a marca de US$ 200 mil sendo considerada plausível em um cenário favorável. A convicção era de que a crescente demanda institucional impulsionaria também as altcoins – todas as outras criptomoedas –, sinalizando o advento de uma nova ‘altseason’, caracterizada por intensa valorização. Contudo, o que se seguiu no decorrer do ano foi uma trajetória consideravelmente distinta das projeções.

Após a ascensão do novo presidente dos Estados Unidos, país cujas políticas têm um peso significativo nos fluxos de capital global, o mesmo “efeito-Trump” passou a surtir um impacto reverso. As políticas comerciais implementadas pelos EUA apresentaram desdobramentos inesperados, o que culminou no aumento da incerteza no cenário econômico mundial. Essa dinâmica levou a um acentuado aumento na aversão ao risco, colocando pressão considerável sobre os ativos de maior volatilidade ao longo da maior parte do ano de 2025. Mesmo diante de uma recuperação gradual das bolsas de Nova York no terceiro trimestre, o mercado de criptoativos demonstrou um fôlego bem menor para seguir a tendência de alta.

Desempenho Bitcoin 2025: Projeções Frustradas e Lições

Mesmo com a criptomoeda de maior capitalização renovando seu patamar mais alto da história em outubro, ao atingir os US$ 126 mil, esse impulso não se sustentou. Dados da plataforma agregadora de preços Coingecko indicam que, no acumulado do ano, o Bitcoin registra uma queda aproximada de 7%, sendo negociado em torno de US$ 87 mil, o que representa um recuo próximo de 30% desde o pico histórico. Convertendo para a moeda nacional, as perdas foram ainda mais notáveis, alcançando 17% de desvalorização, em parte devido à depreciação do dólar. No último dia de 2025, o Bitcoin valia R$ 482 mil. No segmento das altcoins mais representativas, os declínios foram ainda mais acentuados: o Ethereum, que chegou a atingir US$ 5 mil em agosto, experimentou uma desvalorização de 40% desde então e de 11% no total do ano. A Solana, por sua vez, registrou uma queda de cerca de 55% desde o seu recorde histórico de US$ 293, alcançado em janeiro, às vésperas da posse de Trump, e acumula um recuo de 34% em 2025. Nenhuma das amplas projeções de valorização esperadas no início do ano chegou a materializar-se.

O Que Impulsionou a Queda: Macroeconomia, Regulação e Fluxo de Capital

Para Valter Rebelo, chefe de criptoativos da Empiricus, 2025 representou um período de contradições para o setor de criptomoedas. Segundo ele, apesar de ter sido um ano repleto de notícias supostamente positivas e construtivas para o mercado, a economia americana não cresceu na proporção esperada, e diversos choques geopolíticos adicionaram camadas de complexidade. Rebelo argumenta que um panorama geral aparentemente favorável não foi suficiente para sustentar um ciclo de valorização mais expressivo, dada a persistência de incertezas no cenário global. Rony Szuster, analista-chefe do Mercado Bitcoin (MB), aprofunda essa análise ao relembrar que sua instituição trabalhava com três cenários para a trajetória do Bitcoin naquele ano.

“Nossas estimativas incluíam um cenário pessimista em US$ 120 mil, que foi atingido; um cenário realista de US$ 150 mil, que infelizmente não se concretizou; e uma perspectiva altamente otimista que variava entre US$ 180 mil e US$ 200 mil”, detalha Szuster. O não alcance dos dois cenários superiores é, para ele, o resultado de três elementos principais: o arcabouço regulatório, a conduta dos investidores e o contexto macroeconômico. No âmbito da regulação, Szuster ressalta que foram observados avanços cruciais, como a aprovação do Genius Act nos Estados Unidos. Esta legislação buscou regulamentar as stablecoins, que são criptoativos lastreados em moedas fiduciárias como o dólar, o que auxiliou o Bitcoin a não permanecer no cenário mais adverso. Entretanto, o pacote legislativo Market Clarity Act, considerado de fundamental importância para estimular todo o mercado, em especial o segmento de Finanças Descentralizadas (DeFi), não obteve aprovação, sendo postergado para o ano seguinte. Sem esse importante marco regulatório adicional, um dos catalisadores essenciais previstos para o cenário mais otimista falhou em se concretizar.

Analisando o fluxo de investimentos, o primeiro trimestre de 2025 testemunhou uma forte acumulação por parte de investidores com visão de longo prazo, fundos negociados em bolsa (ETFs) e grandes detentores. No entanto, esse impulso de entrada de capital perdeu vigor na segunda metade do ano. Szuster explica que “para que o preço do Bitcoin se aproximasse da faixa entre US$ 150 mil e US$ 200 mil, seria imprescindível a continuidade e a intensificação desse fluxo de capital, algo que, de fato, não ocorreu”. Paralelamente, carteiras que detinham ativos há mais tempo optaram por realizar lucros, adicionando uma pressão significativa na oferta e no preço. No que tange à conjuntura macroeconômica, embora o Federal Reserve (Fed), banco central dos EUA, tenha promovido cortes nas taxas de juros ao longo de 2025, o ritmo dessa flexibilização das políticas monetárias ficou aquém do projetado nos cenários mais positivos. “Foram três reduções na taxa básica de juros durante o ano, um número que se mostrou suficiente para mitigar o cenário mais pessimista, mas insuficiente para gerar o nível de liquidez e confiança necessários para catalisar um ciclo de alta mais robusto”, pontua Szuster.

Avanços Estruturais e a Maturidade do Setor Cripto

Apesar da frustração gerada pelos preços, o ano de 2025 trouxe consolidações e avanços estruturais importantes para o mercado de criptoativos. Guilherme Bissoli, diretor regional da Coins.xyz – uma empresa recém-chegada ao Brasil, especializada em infraestrutura de pagamentos –, aponta que o setor experimentou uma significativa transição de fase. “Saímos de um modo meramente experimental para um modo de infraestrutura de sistema financeiro”, sintetiza o executivo. Conforme a avaliação de Bissoli, as stablecoins lideraram o crescimento em volume ao longo do ano, registrando uma expansão considerável em sua utilização para pagamentos, liquidação de transações e gerenciamento de caixa em diversos segmentos.

No contexto brasileiro, Bissoli destaca que um divisor de águas foram as resoluções emitidas pelo Banco Central. Essas normas forneceram diretrizes detalhadas sobre o regime regulatório aplicável às VASPs (Virtual Asset Service Providers), as empresas prestadoras de serviços com ativos virtuais. “Exchanges não são mais simples ‘brinquedos de internet’; elas agora são componentes essenciais da infraestrutura crítica do sistema financeiro e, portanto, serão tratadas com a seriedade que tal status exige”, afirma ele. As novas regras impuseram rigorosas exigências que incluem autorização formal, capital mínimo, governança corporativa, gestão de riscos, cibersegurança e a fundamental segregação de ativos. Tais medidas alinham o setor de criptomoedas com os padrões regulatórios tradicionalmente aplicados às instituições financeiras estabelecidas. Na prática, esse arcabouço normativo já começou a remodelar o mercado.

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Imagem: Queda do bitcoin Mohamed Hassan via valor.globo.com

De acordo com Bissoli, empresas que não conseguem adequar sua governança e capitalização estão fadadas a perder competitividade e espaço, enquanto o mercado caminha para uma consolidação em torno de players maiores e mais robustos, muitos dos quais também operam como instituições de pagamento no cenário de reais. “Sem a devida integração com plataformas como Pix, TED e Drex, o modelo de negócios permanece restrito e com alcance limitado”, adverte o diretor. Neste cenário de reestruturação, as stablecoins transcenderam o papel de mero ativo especulativo, passando a ser amplamente utilizadas como meio de pagamento e como um instrumento eficaz para câmbio, pavimentando o caminho para uma maior integração com o sistema financeiro convencional e suas operações cotidianas.

Aprendizados e Sinais para o Futuro

Um relatório recente divulgado pela gestora europeia 21Shares reforça a percepção de que 2025 foi menos um ano de euforia e mais um período dedicado a ajustes e ao amadurecimento do mercado. Os analistas da gestora apontaram que o Bitcoin permaneceu dentro de uma faixa de preço limitada, inserido em um reajuste que caracterizaria o meio de ciclo. Esse período foi marcado pela realização de lucros por parte de detentores de longo prazo e pela redução da alavancagem em geral. Contudo, a diminuição da capitalização total do mercado, observada desde outubro, foi interpretada não como uma venda de pânico desordenada, mas sim como um processo de consolidação controlado e estratégico.

O estudo também indica um potencial rompimento com o modelo clássico do ciclo de quatro anos, frequentemente associado ao “halving”, o evento que reduz pela metade a emissão de novos Bitcoins. A crescente adoção institucional, a introdução e o fortalecimento dos ETFs de Bitcoin, juntamente com a acumulação contínua por grandes investidores, começaram a dissociar o desempenho do Bitcoin dessa rígida dependência do halving. Dessa forma, o ativo tornou-se mais sensível às políticas monetárias globais, aos níveis de liquidez disponível no mercado e aos balanços de grandes instituições. Para a 21Shares, essa mudança estrutural fundamental ajuda a elucidar por que movimentos explosivos e de valorização extrema, como os previstos no início do ano, tornaram-se consideravelmente menos prováveis de ocorrer.

Guilherme Nazar, vice-presidente da Binance para a América Latina, complementa essa perspectiva, enfatizando que 2025 foi crucial para revelar uma transformação no perfil dos detentores de Bitcoin, sinalizando uma inflexão no cenário do mercado. Ele destaca que, em dezembro, o volume de Bitcoins mantido em exchanges atingiu o menor patamar em cinco anos – totalizando 2,94 milhões de BTC. Concomitantemente, a participação de empresas de capital aberto e ETFs continua em trajetória de crescimento, já ultrapassando 2,5 milhões de BTC. “Essa migração da propriedade do varejo para as mãos de instituições é mais do que um dado estatístico”, avalia Nazar. “Ela marca um ponto de inflexão que possui o potencial de reduzir a volatilidade do ativo, moderar as oscilações de preço impulsionadas pela especulação e suavizar a intensidade e a duração de futuros mercados de baixa, promovendo uma maior estabilidade.”

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Em suma, o ano de 2025, embora tenha desapontado as expectativas de ganhos acelerados e o surgimento de uma nova altseason, consolidou avanços regulatórios essenciais. Ele contribuiu para a redução da volatilidade extrema do mercado e reforçou o papel do Bitcoin como um ativo progressivamente mais integrado ao sistema financeiro global. Para o setor, a principal conclusão é evidente: ciclos de mercado que denotam maior maturidade tendem a ser menos espetaculares em termos de ganhos imediatos, mas se mostram, potencialmente, mais sustentáveis a longo prazo. Para aprofundar suas perspectivas e acompanhar outras análises de mercado, visite nossa seção de Economia e mantenha-se informado sobre os desdobramentos financeiros.

Crédito da imagem: VALOR ECONÔMICO

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