O desempenho das construtoras no 4T25 foi marcado por uma leitura de dados operacionais mistos, que gerou reações diversas no mercado de capitais brasileiro. Após a divulgação das prévias na noite de quinta-feira (15), as ações de grandes empresas do setor imobiliário como Cyrela (CYRE3), Direcional (DIRR3), Even (EVEN3) e Lavvi (LAVV3) registraram quedas significativas na Bolsa de Valores. Este cenário reflete as particularidades de cada empresa e dos segmentos em que atuam, em um ambiente macroeconômico ainda desafiador.
As perdas nas cotações foram expressivas, com Cyrela apresentando retração de 1%, cotada a R$ 24,70. A Direcional registrou uma queda ainda mais acentuada de 5,70%, encerrando o pregão a R$ 12,73. Já a Even viu suas ações recuarem 2,07% para R$ 7,10, e a Lavvi apresentou um declínio de 3,56%, alcançando R$ 16,25. Tais movimentos demonstram a sensibilidade do mercado às expectativas e aos resultados concretos de lançamentos e vendas líquidas apresentados por essas companhias.
Construtoras Caem: Dados do 4T Mostram Cenário Misto na Bolsa
Apesar da retração nos preços dos papéis, as prévias do quarto trimestre de 2025 ofereceram um panorama detalhado, indicando que nem todas as empresas enfrentam os mesmos ventos. Analistas de diversas instituições financeiras avaliaram individualmente os resultados, buscando entender as tendências e projeções futuras para o segmento de incorporação e construção civil. O momento exige atenção especial aos fatores que impulsionam ou freiam o setor, incluindo a competitividade do mercado de média e alta renda e a resiliência dos projetos de baixa renda.
Desempenho da Cyrela (CYRE3) em Detalhe
A Cyrela divulgou dados operacionais que apontaram vendas líquidas de R$ 2,50 bilhões no 4T25, superando as estimativas do JPMorgan em 6%, mas registrando um recuo de 31% em comparação anual. Os lançamentos da construtora totalizaram R$ 3,44 bilhões, montante 23% superior às projeções do banco, mas que também representa uma queda de 31% frente ao ano anterior. Consequentemente, a velocidade agregada de vendas (VSO) atingiu 17,2%, representando uma desaceleração de 14,2 pontos percentuais em relação ao 4T24 e 1,5 ponto percentual na comparação trimestral, o nível mais baixo desde o 1T23. Contudo, as vendas de estoques concluídos apresentaram leve aceleração sequencial, somando R$ 195 milhões contra R$ 185 milhões no trimestre anterior. O VGV de lançamentos, por sua vez, atingiu R$ 3,31 bilhões, valor 32% abaixo do registrado no quarto trimestre de 2024.
As análises sobre a Cyrela foram variadas. O JPMorgan reiterou a classificação “overweight” (equivalente à compra), com preço-alvo de R$ 44,50. O Itaú BBA considerou os resultados da Cyrela como satisfatórios para o 4T25, destacando vendas líquidas de R$ 3,3 bilhões em linha com as expectativas e uma VSO de 17%, mesmo com lançamentos 32% acima das projeções. Os analistas do BBA reconhecem o ambiente macroeconômico desafiador e o aumento da competição no segmento de média e alta renda, mas mantêm a recomendação de compra e o preço-alvo de R$ 39. A instituição financeira sublinhou a solidez do balanço patrimonial da empresa, a execução superior de seus projetos e o fato de aproximadamente metade do resultado previsto para 2026 estar atrelado a projetos de baixa renda, que são considerados mais defensivos. Atualmente, as ações da Cyrela são negociadas a um múltiplo de apenas 5,1 vezes o lucro por ação e cerca de 1,0 vez o valor patrimonial líquido projetado para o ano em curso.
Em contraste, o BBI classificou a prévia operacional da Cyrela como ligeiramente negativa, atribuindo isso à queda da velocidade de vendas, que diminuiu para 45,2% em 12 meses, com as vendas líquidas somando R$ 9 bilhões em 2025, um declínio anual de 1%. O BBI pontuou que a empresa apresentou números operacionais modestos, apesar de uma ligeira queda na VSO, amparada por lançamentos robustos no 4T25. A recomendação do banco para a ação segue de compra, com preço-alvo de R$ 22. Já o Goldman Sachs teve uma avaliação positiva da prévia do 4T25, visto que as vendas superaram as expectativas, impulsionadas por lançamentos acima do esperado, e manteve a recomendação de compra, com preço-alvo de R$ 34. A XP Investimentos, por sua vez, caracterizou os dados operacionais da Cyrela como fracos, principalmente devido ao desempenho de vendas aquém do previsto no segmento de alta renda, parcialmente compensado pela resiliência do segmento de baixa renda, mantendo a classificação de compra e um preço-alvo de R$ 37,0 por ação.
Direcional (DIRR3) Sob Foco
A Direcional também enfrentou desafios no 4T25, com o Itaú BBA reportando resultados operacionais considerados fracos. A empresa apresentou um ritmo de vendas ligeiramente abaixo do esperado, em 21%, e uma geração de fluxo de caixa livre impulsionada, em grande parte, por eventos não recorrentes, como a venda da Riva e securitizações. Apesar da pressão recente sobre as ações, o Itaú BBA reafirmou a confiança no programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) e antecipa uma retomada do ritmo de vendas pela empresa, dadas a forte capacidade de pagamento e a presença de fatores adicionais favoráveis no horizonte. Negociando a uma avaliação atrativa de 7,5 vezes o P/L ajustado estimado para 2026, o BBA manteve a recomendação de compra e o preço-alvo de R$ 19,70.
O BBI, analisando a Direcional, realizou uma revisão para baixo de 12% em seu lucro líquido projetado para 2026, em relação à estimativa anterior, e 7% abaixo do consenso, introduzindo um novo preço-alvo de R$ 22,00 para 2026. Esta revisão considerou dois fatores principais: dividendos extraordinários acima do previsto em 2025 (37% acima da estimativa do banco) e a conclusão da venda da participação da Riva para a Riza. O VGV de lançamentos da Direcional no trimestre atingiu R$ 1,7 bilhão, o que representou um aumento de 19,5% na comparação anual. O BBI manteve a recomendação de compra. A XP Investimentos, por sua vez, considerou os dados operacionais da Direcional resilientes, impulsionados por resultados mais robustos da Riva e uma sólida geração de fluxo de caixa, embora as operações da marca Direcional tenham ficado abaixo das expectativas em volume, resultando em um SoS (Sell-out over Supply) menor.
A velocidade de vendas da Direcional manteve-se fraca, em 21,2%, um declínio de 2,8 pontos percentuais em relação ao ano anterior e de 3,2 pontos percentuais frente ao trimestre anterior. Este desempenho foi influenciado pela forte concentração de lançamentos em dezembro, que totalizaram R$ 717 milhões, conforme observado pelo JPMorgan, que manteve a recomendação neutra e preço-alvo de R$ 21 para a companhia. Segundo o Goldman Sachs, as vendas ficaram abaixo do esperado tanto na base de 100% (23% inferior) quanto na participação da companhia (26% inferior). Os lançamentos também decepcionaram, situando-se 6% e 7% abaixo das projeções, respectivamente. O banco notou que as vendas foram mais fracas tanto na comparação anual (queda de 4% na base de 100%) quanto na trimestral (recuo de 8%). Adicionalmente, os estoques registraram crescimento de 8% e 7% na comparação sequencial, para a base de 100% e participação da companhia, respectivamente, superando as estimativas em 6% e 4%. Consequentemente, os meses de estoque aumentaram para 11, contra 10 no 3T25. A relação vendas sobre oferta ficou aquém do esperado, em 21% contra uma estimativa de 27%. Apesar disso, o Goldman Sachs reiterou a recomendação de compra, com preço-alvo de R$ 20.

Imagem: Reprodução/Pixabay via infomoney.com.br
Desempenho da Even (EVEN3) no 4T25
A Even divulgou seus números operacionais para o 4T25, registrando lançamentos de R$ 351 milhões no trimestre, o que representa quedas significativas de 72% na base anual e de 76% na comparação trimestral. Estes lançamentos se referem a três projetos específicos: Plenitude Melo Alves, GO Madalena e Hub Perdizes, totalizando R$ 881 milhões em Valor Geral de Vendas (VGV), com a participação da Even somando R$ 351 milhões. No acumulado de 2025, os lançamentos da empresa atingiram R$ 2,5 bilhões, representando um aumento de 35% na base anual. As vendas líquidas somaram R$ 523 milhões no 4T25, um aumento anual de 42%, mas uma queda de 36% em relação ao trimestre anterior, resultando em R$ 2,0 bilhões no ano (46% maior na base anual). A VSO (velocidade de vendas sobre oferta) consolidada foi de 13% no trimestre, em comparação com 19% no 3T25 e 12% no 4T24, enquanto a VSO de estoque permaneceu em 12%. As entregas do trimestre incluíram um projeto com 161 unidades, totalizando R$ 85 milhões em VGV de participação da empresa, e no ano somaram 1.760 unidades e R$ 1,196 bilhão, representando uma queda de 27% na base anual. Os distratos líquidos somaram R$ 36 milhões, com um índice equivalente a 11% das vendas totais. No quarto trimestre de 2025 foram lançados três projetos, totalizando R$ 881 milhões em VGV, com R$ 351 milhões atribuídos à Even.
A equipe de research do BBI avaliou que a prévia da Even teve um impacto neutro na tese de investimento. A companhia encerrou 2025 com um crescimento robusto, sustentado por um aumento de 35% nos lançamentos e vendas consistentes, mesmo que o 4T25 tenha demonstrado uma desaceleração devido a bases de comparação mais difíceis. O BBI observou que a VSO estável em 13% reforça a resiliência comercial da Even, enquanto a redução nas entregas já era esperada de acordo com o calendário de obras. Para 2026, o ambiente de negócios mais desafiador e a ausência de catalisadores de curto prazo mantêm a perspectiva de equilíbrio para as ações. O BBI manteve a recomendação neutra e preço-alvo de R$ 10, com EVEN3 sendo negociada a 0,6 vez o P/VPA (preço sobre valor patrimonial por ação), refletindo um valuation descontado, porém alinhado ao cenário atual do setor imobiliário.
Lavvi (LAVV3) Apresenta Sólidos Números
Os números da Lavvi reforçam um trimestre sólido com contribuição ligeiramente positiva para a tese de investimento, na avaliação do BBI. A empresa apresentou um forte avanço sequencial em lançamentos e vendas, combinado com a aceleração da VSO, demonstrando boa tração comercial e execução consistente. Segundo o BBI, o expressivo aumento do landbank (terrenos para futuros projetos), agora em R$ 5,9 bilhões, garante uma visibilidade confortável de pipeline para os anos de 2026 e 2027, o que é um diferencial importante no ciclo atual do setor. Apesar do consumo de caixa no trimestre, a margem de manobra operacional da Lavvi permanece preservada. O BBI mantém uma visão construtiva sobre o papel e reforça a recomendação de compra, com LAVV3 sendo negociada a 7,3 vezes o múltiplo P/L (Preço sobre Lucro) para 2026 e um Retorno sobre Patrimônio Líquido (ROE) estimado em 25%. As vendas totais da companhia alcançaram R$ 1,4 bilhão no trimestre, com R$ 719 milhões correspondendo ao percentual da Lavvi, uma queda de 17% na comparação anual.
Para o Itaú BBA, os resultados operacionais da Lavvi foram positivos, com vendas superando as expectativas e um crescimento de 28%, impulsionado principalmente pelo forte desempenho tanto em projetos de alta quanto de baixa renda lançados no trimestre. O Itaú BBA manteve a recomendação de compra para as ações, com um preço-alvo de R$ 19, mas reconheceu que as ações da Lavvi já estão sendo negociadas a um múltiplo de 6,0 vezes o P/L ajustado para 2026, que é relativamente exigente.
O Contexto Geral do Setor Imobiliário
De forma geral, o mercado de construção civil e incorporação segue navegando em águas complexas. Os analistas consistentemente apontam para um ambiente macroeconômico desafiador e uma crescente competitividade, especialmente nos segmentos de média e alta renda. Contudo, projetos voltados para baixa renda continuam a ser vistos como mais defensivos e resilientes, oferecendo um porto seguro em meio às incertezas. A sensibilidade do setor a variáveis econômicas, como a taxa básica de juros, é um fator crucial. Para aprofundar a compreensão sobre a dinâmica do mercado, vale conferir as análises sobre o impacto da taxa Selic no mercado imobiliário.
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Em suma, os dados do 4T25 revelam um mosaico de resultados para as principais construtoras e incorporadoras listadas na B3. Enquanto algumas empresas superaram projeções em vendas e lançamentos, outras enfrentaram desacelerações notáveis. A diversidade de visões entre as casas de análise reflete a complexidade do setor, que continua a exigir atenção detalhada às estratégias de cada companhia e ao cenário macroeconômico. Para mais análises aprofundadas sobre o setor e o mercado financeiro, continue explorando nossa editoria de Economia.
Crédito da imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
