Construtora ITD da Tailândia Enfrenta Banimento por Acidentes Fatais

Economia

A **construtora ITD**, a maior empreiteira da Tailândia, enfrenta a iminente ameaça de ser proibida de participar em licitações governamentais. A possível penalidade decorre de uma série de acidentes fatais em canteiros de obras recentes, um fator que pode estender seus impactos a projetos internacionais da companhia.

As repercussões se intensificaram após incidentes trágicos que causaram mortes e geraram profunda preocupação nas autoridades tailandesas. A empresa já sobressai como um pilar no desenvolvimento da infraestrutura do país, mas sua reputação e viabilidade operacional estão agora sob intenso escrutínio público e governamental.

Construtora ITD da Tailândia Enfrenta Banimento por Acidentes Fatais

Em 16 de janeiro, a província de Samut Sakhon, situada a aproximadamente uma hora e meia de Bangcoc em direção ao oeste, testemunhou um guindaste azul pendurado inerte sobre o que deveria ser uma via expressa elevada. O equipamento havia desabado no dia anterior, 15 de janeiro, resultando na morte de duas pessoas. O primeiro-ministro Anutin Charnvirakul deslocou-se ao local em 16 de janeiro para acompanhar as investigações conduzidas pela polícia e autoridades governamentais. Um trabalhador de Mianmar, com 34 anos de idade, empregado da ITD, expressou o sentimento geral de apreensão, afirmando não ter havido “nenhuma explicação sobre o motivo da queda do guindaste” e considerando “assustador e perturbador continuar trabalhando em um local onde ocorreu um acidente fatal”.

Eventos Críticos e Reação Governamental

Este incidente em Samut Sakhon não foi um caso isolado. Um dia antes, em 14 de janeiro, outro acidente grave chocou a nação: um guindaste desabou de um trilho elevado e atingiu um trem em um canteiro de obras de uma ferrovia de alta velocidade na província de Nakhon Ratchasima, no nordeste do país. Este evento catastrófico ceifou a vida de 32 dos 195 passageiros a bordo, exacerbando as tensões em torno da segurança em projetos de infraestrutura sob a gestão da ITD.

Adicionalmente, um incidente prévio em março de 2025 já havia lançado uma sombra sobre a construtora, quando um edifício em fase de construção na capital, Bangcoc, desabou durante um terremoto, resultando em mais de 90 mortes. Após esse evento, o presidente da ITD, Premchai Karnasuta, foi indiciado juntamente com outros indivíduos sob alegações de violações regulatórias no canteiro de obras, o que sublinha uma sequência de falhas graves na gestão de segurança da empresa.

Diante da gravidade dos acontecimentos, o premiê Anutin Charnvirakul declarou em 15 de janeiro que o governo procederia com o cancelamento dos contratos outorgados à ITD para os dois projetos envolvidos nos acidentes mais recentes. O primeiro-ministro também sinalizou a intenção de incluir a ITD em uma lista de empresas banidas já no final de janeiro, uma medida que impediria a companhia de participar em futuras licitações para empreendimentos governamentais. É esperado que os contratos anteriormente concedidos à empresa passem por um processo de revisão aprofundado, ampliando ainda mais as incertezas operacionais.

Impacto Financeiro e Futuro da ITD

Até o fim de setembro de 2025, a Italian-Thai Development acumulava 122 bilhões de baht (equivalente a US$ 3,9 bilhões) em ordens de serviço pendentes. A vasta maioria desses projetos está vinculada a entidades governamentais tailandesas, como a Ferrovia Estatal da Tailândia e a Autoridade de Rodovias Expressas do país. Somando as obras encomendadas por administrações locais e regionais, os projetos públicos representam mais de 70% da carteira de trabalhos da ITD, evidenciando sua profunda dependência do setor estatal. Um consultor financeiro com conhecimento sobre empresas tailandesas resumiu o cenário ao afirmar que, “hipoteticamente, se a ITD for suspensa de participar de licitações, poderá ser difícil para a empresa continuar operando”, um alerta severo sobre a viabilidade futura da construtora.

A situação fiscal da ITD já apresentava sinais de deterioração antes dos recentes acidentes. Nos resultados divulgados para o período de janeiro a setembro de 2025, a empresa registrou um lucro líquido, impulsionado pela venda de ativos no exterior e outros fatores não operacionais. No entanto, sua receita total sofreu uma queda substancial de 52% em comparação com o ano anterior, atingindo 25,1 bilhões de baht. Essa retração demonstra um enfraquecimento fundamental das operações de construção. Auditores emitiram uma ressalva em sua opinião sobre as demonstrações financeiras consolidadas da ITD de 2023 a setembro de 2025, apontando “incertezas significativas”, entre as quais o impacto direto dos acidentes recentes.

As ressalvas contínuas dos auditores podem, a longo prazo, levar à exclusão da construtora da Bolsa de Valores da Tailândia, o que seria um golpe devastador para a empresa. Além disso, o fluxo de caixa da ITD sofreu uma piora notável. A partir de fevereiro, títulos no valor total de 14,4 bilhões de baht começarão a vencer, colocando uma pressão considerável sobre as finanças da companhia. A mídia local já reporta que a ITD está cogitando solicitar novas prorrogações aos seus credores. Caso esses pedidos sejam negados, a operação da empresa corre um sério risco de paralisação completa, impactando o panorama econômico regional. Para uma compreensão mais aprofundada sobre as tendências da economia e dos grandes projetos de infraestrutura na Ásia, veja os relatórios mais recentes em Reuters – Economia Global.

Construtora ITD da Tailândia Enfrenta Banimento por Acidentes Fatais - Imagem do artigo original

Imagem: guindaste via valor.globo.com

Histórico, Riscos e Desafios do Setor

A ITD, fundada em 1958, desempenhou um papel fundamental em importantes empreendimentos na Tailândia ao longo de sua história, incluindo a edificação do terminal de passageiros do renomado Aeroporto Internacional de Suvarnabhumi, em Bangcoc. Contudo, a empresa não é estranha a períodos de turbulência financeira; em 2001, ela enfrentou um colapso financeiro severo após a crise econômica asiática. Atualmente, a escala das operações da ITD é mais que o dobro da que tinha à época daquela crise, o que intensifica consideravelmente o risco de interrupção no desenvolvimento de infraestrutura vital e na geração de empregos, caso a companhia enfrente uma nova falência.

O impacto de uma eventual proibição ou colapso da ITD transcenderia as fronteiras da Tailândia. A construtora está envolvida em projetos significativos em outras nações, como a Ferrovia de Passageiros Norte-Sul, nas Filipinas, e iniciativas de desenvolvimento de minas de carvão no Laos. Esses projetos no exterior também seriam diretamente afetados se a empresa sucumbir às atuais dificuldades, criando ondas de impacto na infraestrutura e na economia de outros países do sudeste asiático.

No cenário nacional, a concorrente Sino-Thai Engineering & Construction surge como uma possível beneficiária da crise da ITD. A Sino-Thai registrou uma receita de 30,4 bilhões de baht no ano fiscal encerrado em dezembro de 2024, posicionando-se cada vez mais próxima da liderança setorial até então incontestável da ITD. É notável que a Sino-Thai foi fundada pelo pai do atual primeiro-ministro, Anutin Charnvirakul, que também já atuou como presidente da empresa. Apesar de sua ascensão, a Sino-Thai também enfrentou desafios: um projeto de metrô em Bangcoc, operado por uma joint venture com investimento da empresa, sofreu um grande desabamento em setembro passado, sugerindo problemas estruturais que afetam a indústria da construção civil tailandesa de forma mais ampla.

Esses incidentes repetidos apontam para fragilidades disseminadas na gestão e segurança do setor. Amorn Pimanmas, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade Kasetsart, em Bangcoc, identificou a “falta de gestão e supervisão rigorosas nas obras” como o maior problema. Ele detalhou que, em projetos governamentais, grandes empreiteiras como a ITD e a Sino-Thai frequentemente subcontratam pequenas e médias empresas para cortar custos, uma prática que leva à supervisão inadequada. Corroborando essa análise, um engenheiro com mais de 30 anos de experiência na ITD, ao comentar sobre o acidente do guindaste em 15 de janeiro, lamentou a ausência de “engenheiros suficientes com a experiência necessária para verificar minuciosamente os detalhes da obra e supervisioná-la adequadamente”. Tais observações reforçam a necessidade urgente de uma revisão nas práticas de segurança e gestão em toda a cadeia de construção da Tailândia.

Confira também: Imoveis em Rio das Ostras

Em suma, a construtora ITD está em uma encruzilhada crítica, com a ameaça de banimento de licitações públicas na Tailândia e graves implicações financeiras, enquanto os desafios se estendem para a reputação e segurança de todo o setor de infraestrutura do país. Para acompanhar as últimas novidades e análises sobre o cenário econômico e político na Tailândia e na Ásia, continue navegando em nossa editoria de Economia.

Crédito da imagem: Foto: Pixabay (Valor Econômico)