Em uma avaliação geopolítica marcante, a China domina a área de energia global, superando os Estados Unidos em setores críticos de tecnologia. Essa é a análise de Ian Bremmer, renomado cientista político americano, fundador e presidente do Eurasia Group, uma influente empresa de consultoria de risco internacional. A declaração, concedida em entrevista exclusiva ao GLOBO, destaca uma guinada significativa no balanço de poder global, especialmente no que tange às novas tecnologias e à sustentabilidade energética.
Ian Bremmer, cuja trajetória é marcada pela especialização em política externa, atua à frente do Eurasia Group com escritórios estrategicamente posicionados em Nova York, Washington, Londres, Tóquio, São Paulo, São Francisco e Cingapura. Ele é amplamente reconhecido pela criação do conceito G-Zero, uma teoria que descreve um panorama mundial desprovido de uma liderança global clara e o consequente declínio da dominância exercida outrora pelo G7. Neste contexto de incertezas e multipolaridade, a disputa pelo domínio das novas tecnologias – sobretudo inteligência artificial e robotização – se intensifica, tendo China e EUA como protagonistas.
China domina área de energia: Um Cenário de Transformação Global
O cenário geopolítico atual reflete transformações profundas que desafiam as noções tradicionais de poder e liderança. A perspectiva de Ian Bremmer ilumina não apenas a crescente supremacia tecnológica da China em áreas específicas, mas também a reconfiguração do que historicamente representou o “livre mercado” para os Estados Unidos. A onda de intervenção estatal promovida durante a administração de Donald Trump levantou questionamentos sobre o alinhamento americano com esses princípios.
De fato, a era Trump testemunhou uma orientação governamental mais pronunciada para a intervenção no mercado. Essa abordagem incluiu a aquisição direta de participações em empresas consideradas estratégicas e o fornecimento de apoio a essas companhias. Paralelamente, a plataforma “America First” intensificou a imposição de tarifas comerciais, um movimento que teve como consequência uma retração na globalização. Tais políticas representam um afastamento estrutural dos ideais de livre comércio, pondo em xeque a imagem de “exemplo de livre mercado” que os EUA projetaram ao longo das últimas décadas.
Erosão do Soft Power e Novas Lideranças Tecnológicas
Ao longo dos últimos trinta anos, os Estados Unidos mantiveram uma posição estável em diversas dimensões do poder global, incluindo poder geopolítico, econômico e tecnológico. Contudo, Ian Bremmer aponta uma notável exceção: o soft power. Essa área de influência, que abrange a capacidade de atrair e persuadir por meio da cultura, dos valores e das políticas externas, tem experimentado um processo de deterioração que se arrasta há bastante tempo. Essa erosão, segundo Bremmer, ganhou aceleração com as políticas implementadas no segundo mandato de Donald Trump, enfraquecendo a vantagem uniforme que os EUA desfrutavam em décadas anteriores.
A competição entre os Estados Unidos e a China no campo tecnológico é um dos pilares dessa mudança global. Enquanto o panorama econômico se inclina para uma maior multipolaridade, o desempenho tecnológico chinês demonstra um avanço considerável. Apesar de os EUA ainda preservarem uma posição de liderança no setor de semicondutores e na inteligência artificial, a China vem reduzindo rapidamente essa distância. Entretanto, em outras esferas, a dinâmica de poder já se alterou significativamente.
O Domínio Chinês nas Novas Tecnologias de Energia
Um dos pontos mais enfáticos da análise de Bremmer é o claro domínio chinês em novas tecnologias de energia. Nesse setor vital para o futuro global, a liderança chinesa é inquestionável. Adicionalmente, na robótica, a China já se encontra à frente. A biotecnologia, por sua vez, apresenta um cenário de intensa disputa, com ambos os países competindo lado a lado.
A amplitude do domínio da China na área de energia se estende a múltiplos componentes cruciais para a transição energética global. Isso inclui a produção de eletricidade e a expansão de energias renováveis, como a energia eólica, solar e nuclear. A expertise chinesa também se manifesta no avanço em tecnologias de baterias, na implementação de infraestrutura inteligente e na fabricação de veículos elétricos. De acordo com o especialista do Eurasia Group, os chineses “estão dominando o mundo em tudo isso”.

Imagem: infomoney.com.br
Bremmer sublinha que, mesmo com uma eventual superioridade americana em inteligência artificial, a China desenvolverá uma capacidade de grande escala e custos mais acessíveis para suprir as demandas energéticas da IA. Diante dessa perspectiva, o cientista político expressa sua preferência pela posição da China nos próximos cinco anos, no que diz respeito ao avanço energético e tecnológico. “Mesmo que os americanos tenham IA melhor, os chineses terão capacidade mais barata e em grande escala para alimentar a IA. Então, eu preferiria estar na posição da China daqui a cinco anos nesse aspecto do que nos EUA”, afirmou.
Para contextualizar a evolução do setor energético, dados da Agência Internacional de Energia (IEA) frequentemente corroboram a expansão acelerada das energias renováveis em nível global, reforçando o argumento de que nações como a China estão à frente na adoção e escala de tecnologias verdes.
Apesar dessa constatação sobre o domínio tecnológico e energético da China, Ian Bremmer faz uma ressalva importante e pessoal. Ele manifesta uma preferência inequívoca pelo sistema político americano em detrimento do chinês. Essa distinção ressalta a complexidade das avaliações geopolíticas, onde a eficácia econômica e tecnológica coexiste com diferentes modelos de governança e valores sociais.
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A análise de Ian Bremmer reforça a compreensão de que o domínio tecnológico e, em particular, a China na área de energia representam um pilar central na redefinição da ordem global. Enquanto os EUA buscam manter sua hegemonia em certas frentes tecnológicas, a capacidade de escala e a abordagem estratégica chinesa em energia renovável e tecnologias futuras sinalizam uma mudança profunda no panorama internacional. Para continuar acompanhando as nuances da geopolítica global e os desdobramentos dessa competição, mantenha-se conectado à nossa editoria de Política e Análises.
Crédito da imagem: O GLOBO