Pescadores e Indígenas temem Rio Doce 11 anos após desastre

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Pescadores e indígenas do Espírito Santo ainda enfrentam as severas consequências do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais, ocorrido há 11 anos. O desastre ambiental, que teve sua efeméride não celebrada nesta quinta-feira (5), transformou irremediavelmente a relação dessas comunidades com o Rio Doce e o mar, marcando a história como a maior catástrofe ambiental do Brasil.

A lama de rejeitos da Samarco, que outrora invadiu a bacia do Rio Doce, estendeu-se até o litoral capixaba, alterando permanentemente a dinâmica das águas, a presença de espécies marinhas e, por conseguinte, o sustento e a cultura de inúmeras famílias. A esperança de um retorno à normalidade para as comunidades tradicionais continua distante, mesmo após mais de uma década dos eventos catastróficos.

Pescadores e Indígenas temem Rio Doce 11 anos após desastre

Em Regência, distrito de Linhares, no Norte do estado, a memória e a experiência de Leônidas Carlos, presidente da Associação de Pescadores local, ecoam o trauma vivido. Ele dedicou 55 anos de sua vida ao mar, garantindo a subsistência de seus nove filhos através da pesca. Hoje, assombrado pela insegurança, sente falta de sua antiga rotina, não apenas pela paixão pelo trabalho, mas pela incerteza em comercializar o pescado da região. Essa ausência de segurança impede o retorno pleno à atividade que define sua história.

A Aldeia Piraquê-Açu, situada na vizinha cidade de Aracruz, espelha um cenário igualmente desolador. Conforme relato do cacique Kara’í Perú, há mais de uma década os indígenas cessaram suas atividades de pesca no rio. A desconfiança quanto à qualidade da água, impregnada pelos rejeitos, levou a comunidade a suspender o consumo dos peixes locais, recorrendo à aquisição de pescados de outras localidades, referindo-se aos mesmos como “dos homens brancos”. Essa drástica mudança no modo de vida afeta a alimentação, mas principalmente a cultura e a identidade da comunidade indígena, onde o rio transcende o sustento, sendo um pilar de convivência, transmissão de saberes entre gerações e um elo espiritual com a natureza.

A despeito da recente autorização federal para a retomada da pesca profissional em uma porção do litoral próxima à foz do Rio Doce, no Norte do Espírito Santo, a confiança da população ainda não foi restabelecida. Uma pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) corroborou as apreensões, revelando alterações no ecossistema aquático da bacia, incluindo a identificação de peixes com anomalias como deformações e tumores. Permanece ainda sem respostas definitivas a crucial indagação sobre os possíveis impactos do consumo de pescado contaminado na saúde humana.

A descontinuidade da relação com o rio representa uma ruptura profunda. Kara’í Perú narrou ao g1 a transformação dos hábitos familiares. Com as águas e os peixes sob suspeita, as famílias indígenas passaram a depender da compra de pescados de outras áreas. “Quando a comunidade indígena percebe que o rio está morrendo, nós choramos também. A nossa vida está ali. A vida das meninas, das crianças, está tudo ali no rio”, expressou o cacique, destacando a profunda ligação espiritual e existencial da comunidade com o ambiente aquático. Durante uma visita, Kara’í Perú e sua mãe, Keretxu Emdey, de 86 anos e pajé da aldeia, realizaram uma oração nas margens do Piraquê-Açu, cantando em guarani e pedindo bênçãos e proteção aos rios, mares e peixes, em um testemunho pungente da dimensão espiritual que envolve a luta pela recuperação das águas e a esperança de reaver essa conexão para as futuras gerações.

Leônidas Carlos, que preside a associação de cerca de 130 a 150 pescadores em Regência, expressou o profundo pesar pela interrupção de sua vocação. Criador de filhos que prosperaram em profissões como a engenharia de petróleo e gás, Leônidas vê na perda da atividade pesqueira muito mais do que a cessação de um trabalho, mas o fim de um capítulo de sua vida. “Minha saudade é imensa. Isso foi o maior crime ambiental, acabou com minha vida. Minha vida era no mar pescando”, lamentou. A insegurança também se manifesta na comercialização: sem convicção da qualidade dos produtos, o pescador teme pôr em risco a saúde de quem adquire seu alimento. A sua declaração “Nós não temos segurança no pescado que a gente vende” ressoa a inquietude de toda a comunidade.

José Sabino, de 62 anos, é outro afetado que precisou se reinventar. Criou sua prole com os rendimentos da pesca, mas viu-se obrigado a buscar novas fontes de renda. Atualmente, complementa sua renda com o labor em uma fazenda de cacau. Ele descreve o impacto da mudança não apenas financeiramente, mas emocionalmente: “Você para de fazer o que gosta, você adoece também. Emocionalmente, psicologicamente”. A desconfiança quanto ao pescado é veemente, repetindo “Não é seguro, não. Não é seguro, não.”

Joca Thomé, coordenador nacional do Centro Tamar do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), supervisiona o monitoramento ambiental e as denúncias de pescadores sobre animais com anomalias. Ele apontou que os níveis de metais pesados eram consideravelmente mais altos nos primeiros anos após o desastre, diminuindo progressivamente. No entanto, ressaltou que oscilações, particularmente em períodos de chuvas intensas, provocam picos, pois a força da água ressuspende sedimentos contaminados do leito do rio. Pescadores têm encaminhado animais deformados, com tumores ou outras alterações, mas a identificação precisa das causas da morte é dificultada. “Quando a gente recebe dos pescadores, no máximo consegue ver se tem metais pesados, mas não consegue saber a causa da morte”, esclareceu Thomé. Para uma análise mais aprofundada, seria necessário um congelamento imediato dos espécimes a temperaturas extremamente baixas, de aproximadamente -60°C, condição raramente disponível, o que limita a investigação etiológica dos problemas.

Pescadores e Indígenas temem Rio Doce 11 anos após desastre - Imagem do artigo original

Imagem: g1.globo.com

Uma portaria conjunta, emitida pelos ministérios da Pesca e Aquicultura e do Meio Ambiente, restabeleceu as diretrizes para a pesca profissional em um segmento do litoral adjacente à foz do Rio Doce. Essa atividade permaneceu suspensa por dez anos, conforme determinação judicial relacionada aos severos impactos do rompimento da barragem. Contudo, a normalização regulatória não se traduz em clareza quanto à segurança dos pescados para consumo humano. A Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), encarregada do Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática, informou que seus estudos visam avaliar a qualidade ambiental e as condições da biodiversidade, mas não abrangem especificamente os riscos à saúde humana decorrentes do consumo do pescado. Adicionalmente, a metodologia de coleta da universidade não se direciona para peixes de porte comercial.

Em sua Nota Técnica nº 48/2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) registrou a detecção de concentrações de cádmio acima do limite permitido em quatro amostras de peixes de água doce (acará e pacu). A agência recomendou que esses exemplares não sejam destinados ao consumo humano. Por outro lado, amostras de pescado marinho e caranguejos de mangue avaliadas pela Anvisa apresentaram resultados dentro dos limites para os contaminantes analisados. É importante salientar que esta avaliação também possuía limitações e não investigou todos os possíveis contaminantes. Para os pescadores e indígenas, a carência de respostas conclusivas sobre a segurança hídrica e alimentar persiste, alimentando a profunda insegurança em sua vital relação com o rio e o mar.

As empresas responsáveis pelo desastre foram contatadas e forneceram informações acerca de suas iniciativas de reparação e monitoramento ambiental. A Samarco comunicou que o Novo Acordo do Rio Doce abrange um acompanhamento ininterrupto da qualidade da água, dos sedimentos e da fauna aquática, além de pesquisas para a recuperação do ecossistema costeiro. A empresa afirmou que os dados desse monitoramento são publicamente acessíveis através do Portal Monitoramento Rio Doce e que mais de R$ 278 milhões já foram aportados a instituições de pesquisa de Minas Gerais e do Espírito Santo para monitoramento da biodiversidade aquática. Desde 2018, os investimentos totais nessa área superam os R$ 800 milhões, sendo que no Espírito Santo, a Ufes e 34 outras instituições parceiras são as executoras desses estudos. A Vale, uma das acionistas da Samarco, reafirmou seu empenho na reparação integral dos danos e no cumprimento do novo acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal em 2024. A BHP Billiton foi procurada para comentar, mas optou por não se manifestar.

A Secretaria de Estado de Recuperação do Rio Doce (SERD), instituída no Espírito Santo para coordenar as ações pós-desastre, revelou sua participação ativa na gestão do Plano de Reestruturação da Gestão da Pesca e Aquicultura (Propesca). Este plano prevê investimentos da ordem de R$ 2,44 bilhões para a bacia do Rio Doce, dos quais R$ 450 milhões serão administrados pelo governo capixaba. As iniciativas estaduais englobam o reforço na assistência técnica a pescadores, suporte a projetos de pesca artesanal e aquicultura, aprimoramento da fiscalização pesqueira e a implementação do programa Reflorestar Doce, com a meta de expandir a cobertura florestal em aproximadamente 6,8 mil hectares.

No que concerne à possibilidade de comparação da situação atual da pesca e da fauna com o período anterior ao rompimento da barragem, a secretaria ressaltou uma significativa limitação: a ausência de uma série histórica contínua de monitoramento da atividade pesqueira pré-2015. O último dado oficial e consolidado de produção pesqueira disponível antes do desastre era de 2011. Contudo, após o ocorrido, houve uma expansão notável nos estudos, incluindo o Programa de Monitoramento Socioeconômico da Atividade Pesqueira (PMAP) e o Programa de Monitoramento da Biodiversidade Aquática (PMBA), este último sob a coordenação do ICMBio e executado pela Ufes. A SERD também informou que acompanha diligentemente as ações de reparação por meio de robustos mecanismos de governança, auditorias regulares e encontros periódicos com as empresas responsáveis, além de participação ativa em audiências no Tribunal Regional Federal da 6ª Região, reafirmando seu compromisso com a supervisão e transparência das iniciativas de recuperação.

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Este cenário contínuo de desafios no Espírito Santo, 11 anos após o desastre ambiental no Rio Doce, ressalta a urgência de respostas e ações mais eficazes para garantir a saúde do ecossistema e o restabelecimento da dignidade e segurança de pescadores e comunidades indígenas. A discussão em torno das notícias sobre as cidades do Espírito Santo impactadas pelo ocorrido é essencial para que esses dramas não caiam no esquecimento. Acompanhe nossa editoria para se manter informado sobre este e outros temas relevantes para a sociedade.

Crédito da imagem: Fernando Madeira/Rede Gazeta

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