O Organic Festival Trancoso se posicionou, em sua nona edição, como um catalisador para a gastronomia sustentável e o turismo regenerativo. Realizado no distrito baiano de Trancoso, o evento reúne notáveis chefs, produtores locais, empresários visionários e ativistas ambientais, todos com um objetivo comum: enraizar a sustentabilidade no coração de suas atividades profissionais e culinárias.
Na Casa de Festas do Povo, localizada no histórico Quadrado, o público se envolveu em uma experiência interativa, manipulando variados biomateriais. Curiosos, os presentes tentavam decifrar a composição e utilidade de películas flexíveis, possivelmente de alga, e placas escuras e rígidas. A decifração desses itens ficou a cargo da chef Pía León, uma das ilustres convidadas desta edição, que ocorreu em setembro.
Organic Festival Trancoso foca em sustentabilidade e culinária local
León questionou a audiência sobre a perspectiva limitada no uso de ingredientes, exemplificando com a vieira. Tradicionalmente, apenas a parte gastronômica do molusco é valorizada. A chef provocou: “Por que não ampliar essa visão e utilizar o descarte, a concha que usualmente é descartada?”. Durante sua apresentação, ela exibiu amostras de biomateriais derivados de algas, cascas de cacau e conchas, transformados em utensílios ou embalagens ecológicas aplicados em seus próprios estabelecimentos. No Organic Festival, a chef destacou a ala de pesquisa de seu instituto, focada em desenvolver soluções ecologicamente viáveis, convertendo resíduos de cozinha em objetos práticos como copos, jogos americanos, potes e até elementos decorativos.
Reconhecida internacionalmente por seu apreço pela biodiversidade peruana e pela gastronomia inovadora, Pía León, eleita a melhor chef mulher do mundo em 2021 pelo prestigiado World Best Restaurants, comanda o restaurante Kjolle, em Lima. Seu estabelecimento alcançou a nona posição no ranking global em 2025. Contudo, ela considera o Instituto Mater seu empreendimento mais significativo. Descrito como o “cérebro científico e cultural” por trás de restaurantes do grupo, incluindo o premiado Central, o instituto tem como meta o aproveitamento integral dos produtos. “No restaurante, buscamos não só um momento para comer bem, mas também um espaço para aprender, despertar curiosidade e surpresa, compreendendo que a gastronomia transcende a comida e envolve design, arte, cultura e trabalho artesanal, elementos de grande valor,” enfatizou a chef.
O festival, ao longo de suas nove edições, tem evoluído na sua missão de ressaltar a gastronomia local, a riqueza da biodiversidade de terra e mar, a profunda conexão humana e a prática do turismo que ativamente protege e revitaliza. Nesse cenário, o evento atrai chefs, produtores, empreendedores e ativistas que veem na sustentabilidade a essência de seu labor. Conforme Charles Piriou, um dos cofundadores do festival, ao lado de Bob Shevlin (um dos idealizadores dos hotéis Uxuá) e da produtora Lili Torres, o “evento foi evoluindo com o tempo na missão de colocar o foco nos pequenos produtores rurais, na necessidade de uma cadeia mais local, de agrofloresta, de valorizar os insumos. Assim, o Organic Festival é hoje um encontro de cultura alimentar e turismo consciente”.
Jaime Rodríguez, o renomado chef responsável por alavancar a cozinha contemporânea colombiana no cenário internacional, também marcou presença. Em um jantar especial no Almar, situado na Praia dos Pescadores em Trancoso, Rodríguez demonstrou sua maestria ao replicar seu distintivo repertório caribenho – com destaque para flores, frutas e algas – utilizando impressionantes 80% de ingredientes regionais. O menu foi uma jornada culinária, iniciando com um ceviche de tamarindo e moringa, seguido por casabe (beiju) com presunto defumado de peixe, uma lagosta curada com caju que surpreendeu pela combinação de texturas e flor de bastão-do-imperador.
O restaurante Celele, comandado por Rodríguez em Cartagena, Colômbia, não só garantiu o 48º lugar no ranking mundial, mas também foi laureado como o “restaurante sustentável do ano” pelo The World’s 50 Best Restaurants no ano passado. Este reconhecimento deve-se à sua profunda atenção à origem dos ingredientes e ao compromisso em valorizá-los, estabelecendo parcerias diretas e de longo prazo com agricultores e pescadores, e promovendo a identidade cultural por meio de iniciativas comunitárias. A Associação dos Restaurantes Sustentáveis, sediada em Londres, define comunidade de forma abrangente: não apenas o vilarejo, cidade ou município do entorno, mas uma complexa rede que engloba todos os envolvidos com o negócio, incluindo a localidade, clientes, parceiros, funcionários e toda a cadeia de suprimentos.
Há mais de uma década, o chef Jaime Rodríguez dedica-se intensamente à compreensão da região caribenha de seu país através de seu “Caribe Lab”, um projeto de pesquisa de campo que ilumina a diversidade de insumos locais. Ao Valor, ele contou que, ao chegar a Cartagena há 14 anos, notou que muitos profissionais da gastronomia estavam priorizando produtos estrangeiros. Seu projeto visa conscientizar as comunidades de que “ecossistemas não podem acabar, que são lucrativos, que podem alimentar melhor do que buscar comida de fora, que isso também beneficia a fauna”. Segundo ele, as pessoas começaram a perceber o benefício econômico de vender sementes, frutas e flores sem agredir o território, considerando isso “mais um benefício do que fazer monocultura, palmeira ou criação de gado”. Essa filosofia inspirou outros restaurantes, e o panorama gastronômico de Cartagena hoje é visivelmente diferente, com muitos estabelecimentos adotando produtos locais do Caribe. No Celele, opta-se por um menu à la carte, sem menu degustação, visando tornar as descobertas de sua cozinha acessíveis a um público mais amplo.

Imagem: nicoferri via valor.globo.com
Robert Shevlin, fundador e patrocinador atual do Organic Festival e do hotel Uxuá – eleito pelo oitavo ano consecutivo o melhor resort da América do Sul pela Condé Nast – descreve o evento como “oxigênio e integração”. Desde sua primeira edição em 2017, Shevlin e Piriou buscaram um formato de encontro que revivesse a autenticidade de Trancoso. Eles queriam evidenciar a essência do lugar: o acolhimento, a convivência genuína com os moradores, e o prazer de frequentar as sorveterias e barracas de praia que as famílias locais apreciam. Em meio a uma crescente expansão imobiliária que por vezes é predatória, o Organic Festival propõe resgatar o ritmo tranquilo e o estilo de vida “slow” da região, incentivando um turismo verdadeiramente regenerativo. “Trancoso não é glamour, não é VIP, não é tapete vermelho. É um lugar de moradores com tradição na região, sempre muito amigáveis,” defende Shevlin.
Shevlin também integra a OTT (Organização de Turismo de Trancoso). Juntamente com outros expoentes da indústria da hospitalidade, como Mario Leite, diretor-geral do Fasano Trancoso, ele trabalha para engajar novos investidores. O objetivo é fomentar a construção de empreendimentos imobiliários de alto padrão que respeitem e valorizem tanto a atmosfera local quanto a relação intrínseca com a natureza. Nesse sentido, o festival opera como um convidativo cartão de visitas para uma Trancoso idealizada, continuamente expandindo seu alcance e apelo. Piriou relatou ter encontrado, na edição atual, “viajantes de outros países que vieram atraídos pelo conceito do Organic”, evidenciando o crescente reconhecimento internacional.
Além de acolher chefs renomados, tanto locais quanto de outras regiões, para jantares exclusivos, o festival ofereceu um robusto programa de 16 atividades abertas ao público, todas gratuitas. A agenda incluiu debates instigantes, palestras esclarecedoras, trilhas botânicas educativas, e eventos culturais marcantes. Destaques foram o piquenique no Quadrado Histórico, um autêntico caruru de domingo preparado por Lidia Sá (Lina Cozinha), e um luau de despedida, com as iguarias de Ieda de Matos (Casa de Ieda) e um show emocionante da cantora Céu. Piriou ressalta a natureza colaborativa e sem fins lucrativos do evento: “Todos os chefs e a equipe de produção não tiveram cachê, foi tudo pro bono”. Desde o ano anterior, o festival conta com o apoio do Ministério da Cultura, possibilitando a captação de patrocínios via Lei Rouanet.
O piquenique no Quadrado, área central e histórica da cidade, foi um evento de confraternização aberto à comunidade. Chefs do Brasil e da América Latina comercializaram seus quitutes por R$ 25, em um cenário efervescente que incluía rodas de capoeira e samba, partidas de futebol animadas e cangas estendidas à sombra para aqueles que buscavam um momento de descanso. A diversidade gastronômica se destacou, com delícias como um espetinho com farofa e vinagrete da Janaína Torres (Bar da Dona Onça), um battilocchio napoletano (uma mini pizza frita) do Nello Cassese (Lumio/Copacabana Palace), e um exótico tartar de pato florido do Jaime Rodríguez. Dentre os vários jantares que fomentaram o espírito comunitário do festival, a chef Roberta Sudbrack, do Sud, O Pássaro Verde, e madrinha do evento desde sua primeira edição, comandou um evento que ela nomeou “uma fábula tropicalista”. As mesas foram estrategicamente dispostas em um amplo círculo em uma clareira da Mata Atlântica, área de regeneração adjacente ao hotel Uxuá Maré. O cenário foi magistralmente iluminado por tochas, sob uma lua cheia espetacular. No centro do imenso círculo, adornado com galhos e plantas, irradiava um grande símbolo luminoso de paz e amor. O cardápio refinado apresentava lagosta com milho assado e carambola; peixe do dia servido em vinagrete de ora-pro-nóbis; e costela na brasa acompanhada de tucupi preto, cuscuz e mostarda. A mensagem de Sudbrack reverberou profundamente: a culinária que brota da terra e do mar executa com maestria o papel que o afeto desempenha: ela circula. “O que é de um torna-se de todos. E, ao compartilhar o alimento, também partilhamos aquilo que nos define como seres humanos.”
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Em suma, o Organic Festival Trancoso consolida-se como um marco na valorização da culinária regional e no fomento do turismo com propósito. Através da inovação e da colaboração de grandes nomes da gastronomia, o evento redefine a experiência em Trancoso, focando na riqueza local e no impacto positivo na comunidade. Para explorar mais iniciativas que promovem o desenvolvimento sustentável em diversas regiões, visite nossa seção de Cidades e continue acompanhando as novidades do setor em nossa editoria.
Crédito da Imagem: Nico Ferri/Divulgação
