Filme ‘100 Dias’: Amyr Klink e a Travessia Histórica

Economia

A aguardada produção cinematográfica “100 Dias” já chegou aos cinemas brasileiros, revisitando a impressionante aventura de Amyr Klink, que em 1984 realizou a primeira travessia solo do Atlântico Sul a remo. O navegador e explorador, interpretado na tela por Filipe Bragança, teve um papel crucial na definição do tom da adaptação, expressando claramente o que não desejava ver transposto para as imagens dirigidas por Carlos Saldanha.

Klink, aos 71 anos, revelou em entrevista ao Valor, durante o 28º Festival do Rio onde a superprodução teve sua première mundial, que tinha uma visão específica para o filme. O ícone da navegação brasileira fez questão de que a narrativa evitasse clichês de isolamento introspectivo, remetendo ao filme “Até o fim” (2013), que ele classificou como “muito chato”. Segundo Klink, ele “odeia tudo o que é I, me, myself”, enfatizando o desejo de uma abordagem mais pragmática e menos egocêntrica. Sua aversão a um foco excessivo na primeira pessoa influenciou profundamente o roteiro da obra que narra seus 100 dias no Atlântico.

Filme ‘100 Dias’: Amyr Klink e a Travessia Histórica

A empreitada original de Klink em 1984 foi um marco: ele se tornou a primeira pessoa a cruzar o Atlântico Sul a remo, partindo de Lüderitz, na Namíbia, e aportando na Praia da Espera, na Bahia. Ao longo de cem dias, ele percorreu aproximadamente 7 mil quilômetros, um feito que o inseriu no renomado Guinness World Records, que reconhece feitos extraordinários. Sua jornada solitária no barco I.A.T., de 5,94 metros, capturou a imaginação de milhões, e seu livro autobiográfico “Cem dias entre céu e mar”, lançado em 1985, vendeu mais de um milhão de exemplares. Na obra literária, Klink dedicou um cuidado especial para não centralizar a narrativa apenas em suas emoções pessoais, preferindo aprofundar-se no planejamento técnico, na engenharia do barco, nos cálculos complexos de navegação sem auxílio de GPS, na logística alimentar e nos fascinantes encontros com a vida marinha.

Essa perspectiva buscou equilibrar o pragmatismo da aventura com reflexões existenciais sem que estas dominassem. Para o diretor Carlos Saldanha, a adaptação para o cinema almeja replicar essa visão, embora o aspecto de aventura seja realçado, resultando em uma dinâmica mais visual. Esta escolha, inevitavelmente, confere ao personagem de Klink (Filipe Bragança) uma profundidade psicológica um pouco menor na tela em comparação com o autor do livro. Klink, entretanto, elogia a versão de Saldanha: “Saldanha foi feliz na sua versão para o cinema do meu livro, mas é uma outra obra”, complementando que optou por não interferir no processo criativo, distinguindo-se de outros autores “preciosistas” que “sempre reclamam de alguma coisa”. Ele compreende que o cinema oferece “um recorte da história”.

O roteiro de “100 Dias”, que intercalam a travessia no presente com flashbacks, amplia elementos pouco abordados no livro, como aspectos familiares do navegador. Enquanto Klink enfrenta tempestades, correntes e a ameaça de tubarões, o público é introduzido à sua infância em Paraty, à memória dolorosa de um incidente marítimo envolvendo seu irmão, e às complexidades de seu relacionamento com o pai autoritário, Jamil Klink (Felipe Camargo), e a mãe Asa (Philippine Leroy-Beaulieu), além de interações por rádio com seu irmão Tymur (João Vitor Silva) e um enigmático comandante. Essas incursões no passado oferecem maior dramaticidade e contextualização para a jornada de autodescoberta do navegador. Segundo Carlos Saldanha, ele percebeu, após extensas conversas com Klink, que o filme representa um “coming of age”: “Pelo que eu deduzi, de tanto conversar com Amyr, ele saiu do Brasil como filho de Jamil e voltou como Amyr Klink”. Para o diretor, a travessia foi uma busca pessoal de Klink, transformando sua vida e carreira, marcando um divisor de águas entre sua vida antes do feito, trabalhando em banco, e a pessoa que ele se tornou.

Carlos Saldanha, aos 61 anos e conhecido pelas animações “A Era do Gelo” e “Rio”, aborda seu primeiro longa-metragem inteiramente em live-action com uma perspectiva peculiar: ele buscou evitar aprofundar-se excessivamente no “porquê” de Amyr Klink ter feito a travessia. “É o espírito humano. Não é uma pergunta simples de responder. Se você perguntar a Amyr, ele não sabe dizer por que fez. Pelo menos, eu lhe perguntei milhões de vezes”, contou Saldanha, sorrindo. O diretor sugere que talvez Klink só compreenda a resposta depois de assistir ao filme. Klink, por sua vez, mencionou que foi divertido revisitar sua versão mais jovem na tela e ressaltou que a produção foi tão épica quanto o próprio feito de navegação. A concepção do filme, desde o primeiro contato de Klink com Saldanha, durou oito anos, contrastando com os dois anos de preparação da viagem, cem dias de execução e um ano para a escrita do livro.

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Imagem: valor.globo.com

A ideia de levar “Cem dias entre céu e mar” para as telas precede o envolvimento de Saldanha e a participação de diversos roteiristas, incluindo a versão definitiva de Elena Soarez e Thaís Tavares, e a passagem do falecido Breno Silveira pelo projeto. A iniciativa pioneira foi de Marina Klink, esposa de Amyr, antes mesmo do casamento em 1996, que via no título do livro um potencial para o cinema. Amyr Klink, sempre com bom humor, fez uma comparação recente: ele menciona Raphael Garcia, que atravessou o Atlântico Sul em 136 dias este ano, e o próprio Klink o recebeu na Bahia. O navegador brincou sobre a diferença de tempo: “Só que 136 dias não dá nome de livro”. A contribuição de Amyr Klink para a exploração e o reconhecimento de outros navegadores continua a ser uma parte vital de sua lenda, como detalhado por diversas fontes, incluindo o prestigiado site oficial do navegador.

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O lançamento de “100 Dias” oferece uma nova perspectiva sobre a saga de Amyr Klink, equilibrando a grandiosidade de seu feito com as nuances de uma vida marcada por desafios e autodescoberta. O filme não apenas celebra a capacidade humana de superação, mas também convida o público a refletir sobre os impulsos que levam à exploração. Para aprofundar-se em outras análises sobre cultura e personagens marcantes, explore mais em nossa editoria. Continue a leitura em nosso blog.

Crédito da imagem: Fabio Braga/Divulgação

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