A baixa vacinação contra COVID-19 tem alarmado as autoridades de saúde no Brasil. De acordo com dados recentes do Programa Nacional de Imunizações (PNI), órgão vinculado ao Ministério da Saúde, apenas 5% das crianças de pouca idade no país completaram o esquema de três doses do imunizante. Este cenário acontece em um ano que já registrou mais de 1 mil internações e 25 mortes de crianças e adolescentes por complicações da doença, destacando a vulnerabilidade desse grupo populacional diante da cobertura insuficiente.
Eder Gatti, diretor do PNI, ressalta que o Brasil mantém contratos e estoques adequados da vacina pediátrica, garantindo o abastecimento contínuo. Ele atribui o preocupante baixo índice de imunização a uma intensa campanha de ataques e desinformação que circulou durante a pandemia, inclusive com a participação de integrantes do governo federal da época. Essa narrativa desfavorável gerou uma hesitação vacinal generalizada, levando muitos responsáveis a não vacinar seus filhos.
Baixa Vacinação contra COVID: Riscos e Causas da Baixa Proteção Infantil
Desde 2024, a vacina contra a COVID-19 integra o calendário básico de imunização para crianças de 6, 7 e 9 meses de idade, com a possibilidade de aplicação antes dos 5 anos. No entanto, grande parcela da população tem recusado a imunização, influenciada por alegações infundadas sobre a segurança e necessidade da vacina infantil. O resultado direto dessa hesitação se reflete na continuidade de óbitos por COVID-19 entre os menores. Neste ano, mais de 1,1 mil crianças com menos de 14 anos foram hospitalizadas com quadros respiratórios severos devido ao coronavírus. Entre as 25 vítimas fatais, 15 tinham menos de 2 anos.
Em um diálogo exclusivo com a Agência Brasil, Eder Gatti enfatizou que a dificuldade de imunizar crianças contra a COVID-19 não é um fenômeno isolado do Brasil, mas um desafio global. A disseminação de notícias falsas contra os imunizantes tem sido o principal obstáculo para a proteção efetiva contra a doença. “A responsabilidade recai sobre quem deve de fato. Nós adquirimos as vacinas, as distribuímos e cumprimos nossa obrigação constitucional, mas existe um desestímulo à população para vacinar. Atualmente, qualquer dose de vacina de COVID perdida é reflexo do discurso antivacina. E este custo precisa ser explicitado”, declarou Gatti.
Um aspecto logístico importante da vacina pediátrica contra a COVID-19 é sua especificidade no armazenamento. Os frascos devem ser guardados congelados e necessitam de descongelamento antes da aplicação. Após este processo, a validade da vacina diminui consideravelmente para dez semanas, e se não for utilizada dentro desse período, precisa ser descartada. Isso adiciona uma camada de complexidade na gestão das doses e reforça o impacto da baixa demanda causada pela desinformação.
Monitoramento e Segurança: As Evidências da Vacina COVID Infantil
A vacinação de crianças no Brasil começou em janeiro de 2022, após autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e foi marcada por divergências entre entidades médicas e o governo federal da época. Houve, inclusive, uma proposta do Ministério da Saúde de condicionar a aplicação à prescrição médica. Naquele período, o ex-presidente Jair Bolsonaro chegou a declarar que não vacinaria sua filha, afirmando a desnecessidade em função de um “suposto baixo índice de mortes infantis por COVID-19”. Contudo, a realidade sanitária refuta essa visão.
Entre 2020 e 2022, anos cruciais da pandemia, mais de 23 mil crianças até 11 anos desenvolveram Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por COVID-19, com um total de 1.067 óbitos registrados. Em contraste, uma investigação conduzida pela Universidade de São Paulo, utilizando dados de 24 cidades brasileiras, demonstrou que a vacina é altamente eficaz, reduzindo em 97% os casos graves em crianças. Ademais, a COVID-19 pode desencadear, de maneira específica em crianças, a Síndrome Inflamatória Multissistêmica (SIM), uma reação inflamatória severa que afeta múltiplos órgãos. Entre 2020 e 2023, o país documentou 2.115 casos de SIM, com 142 mortes entre crianças e adolescentes.
Pesquisa do IBGE realizada em 2023 revelou que, mesmo no pico da emergência sanitária, 15% das crianças e adolescentes de 5 a 17 anos não foram vacinados. Dentre os responsáveis, cerca de 40% citaram o receio de reações adversas ou de injeção como motivo, 22% consideraram que a vacina não era necessária e 18% declararam não confiar no imunizante. O diretor Eder Gatti insiste que esses temores carecem de fundamento científico. “De fato, houve inovações com as plataformas de RNA mensageiro e vetor viral [usadas nas vacinas de COVID-19], mas todas passaram por rigorosos testes de fase um, dois e três. Desde então, uma vasta série de estudos de fase quatro atesta sua efetividade e segurança”, afirma.
Todas as vacinas administradas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) são continuamente monitoradas. Qualquer suspeita de reação adversa grave é imediatamente investigada, podendo levar a modificações na estratégia ou, em casos extremos, à suspensão do uso, como ocorreu com a vacina da dengue. Das mais de 6 milhões de doses aplicadas em crianças durante a pandemia, nenhum óbito foi registrado, e 92% das reações notificadas foram classificadas como leves e esperadas, como febre e dor no local da aplicação. É fundamental destacar, conforme aponta o Ministério da Saúde, que reações temidas como miocardite e trombose são muito mais frequentes em pessoas contaminadas pela COVID-19 do que em indivíduos vacinados. Para aprofundar a compreensão sobre os imunizantes e a importância da vacinação, recomenda-se consultar as informações disponibilizadas por fontes confiáveis, como o Ministério da Saúde, que reúne dados e diretrizes atualizadas.
“Se buscarmos estudos científicos sobre a vacina tríplice viral, que surgiu nos anos 80, encontraremos aproximadamente 5 mil. Para a vacina da febre amarela, da década de 30, o cenário é similar. No entanto, se procurarmos sobre a vacina da COVID-19, encontraremos cerca de 20 mil trabalhos científicos. Podemos afirmar que esta é a vacina mais pesquisada de todas”, salientou o diretor do PNI.

Imagem: SBIm via agenciabrasil.ebc.com.br
Com a maior parte da população adulta já vacinada durante a pandemia, o governo federal ajustou sua estratégia de vacinação desde 2024, priorizando crianças e grupos mais vulneráveis, como idosos, imunocomprometidos e pessoas com deficiência, que necessitam de doses de reforço periódicas para manter a proteção eficaz.
Panorama e Desafios: A Ampla Atuação do PNI no Cenário da Saúde
Eder Gatti compartilhou esses dados e análises em sua participação na 28ª Jornada Nacional da Sociedade Brasileira de Imunizações, realizada no Rio de Janeiro. À frente do PNI desde 2023, ele salientou o quase dobramento do orçamento do programa, que saltou de R$ 5 bilhões para aproximadamente R$ 10 bilhões previstos para o próximo ano. Embora o desafio na imunização contra a COVID-19 persista, outros imunizantes do calendário infantil têm mostrado melhora na cobertura vacinal. Gatti atribui este avanço à regularização dos estoques e às ações de microplanejamento, que são “estratégias para os municípios utilizarem melhor a estrutura que já têm, otimizando a vacinação na ponta”, esclarece.
Em 2022, no retorno dos serviços básicos de saúde após a pandemia, 12 das 16 vacinas ofertadas no primeiro ano de vida registravam cobertura abaixo de 80%, e apenas uma atingia a meta de 90%. No ano passado, um avanço significativo foi notado, com sete imunizantes superando os 90% de cobertura. No entanto, o desafio de elevar a aplicação de duas vacinas, que ainda se mantêm com taxas inferiores a 80%, e de outras sete, que variam entre 80% e 90%, permanece. Dentre estas últimas, está a segunda dose da tríplice viral, que oferece proteção contra o sarampo, uma doença altamente infecciosa que tem provocado surtos em diversos países das Américas.
“Estamos falando não só de vidas salvas, mas também de uma menor sobrecarga no sistema de saúde. O Programa Nacional de Imunização traz um retorno inestimável à sociedade e deve ser zelosamente preservado”, defendeu Gatti. Um exemplo recente do impacto positivo do PNI é o resultado preliminar após a incorporação da vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) para gestantes e do anticorpo monoclonal para prematuros, no ano passado. Desde então, os casos de bronquiolite em bebês com menos de seis meses apresentaram uma queda superior a 50%.
O PNI também deu início, em 2024, à campanha de vacinação contra a dengue, focada inicialmente em municípios de maior risco e posteriormente expandida para todo o território nacional, com ênfase em crianças e adolescentes de 10 a 14 anos. Quase 12 milhões de doses já foram administradas. “Dada a magnitude da dengue, ainda é prematuro observar resultados perceptíveis para a população. Contudo, já dispomos de estudos de vida real que atestam a eficácia da vacina. Tenho convicção de que, conforme expandirmos a vacinação, presenciaremos um impacto relevante na incidência da doença”, avaliou o diretor do PNI.
A mais recente incorporação anunciada foi a transição da vacina VPC10 para a VPC20, expandindo a proteção contra os tipos de bactéria pneumococo, responsáveis por doenças como pneumonia, sepse e meningite. Este ano, o Brasil contabilizou mais de 1 mil ocorrências de meningite pneumocócica e 320 óbitos, um número que o Ministério espera ver diminuído com o advento do novo imunizante. “Esses produtos foram incorporados seguindo todos os trâmites formais e necessários, com orçamento assegurado. Não foi um processo fácil; exigiu negociação intensa. Almejamos que não haja retrocessos e que o PNI continue honrando sua trajetória de mais de 50 anos, entregando resultados positivos para o país”, concluiu Gatti.
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Em um momento em que a baixa vacinação contra COVID em crianças e outros desafios de imunização estão em pauta, compreender a importância das políticas públicas de saúde e o papel de órgãos como o PNI é fundamental. Continuar acompanhando as iniciativas e os avanços na área da saúde infantil é crucial para a proteção das próximas gerações. Para mais informações e artigos aprofundados sobre temas relevantes que afetam o bem-estar da sociedade, visite o blog horadecomecar.com.br/blog e mantenha-se atualizado sobre análises e notícias impactantes.
Crédito da imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil



