A intensa mobilização na Maré por acesso a locais de votação tem sido a pauta central no Complexo da Maré, zona norte do Rio de Janeiro. Moradores da vasta comunidade, composta por dezesseis conjuntos e lar de aproximadamente 140 mil pessoas, organizam-se para fornecer informações cruciais sobre as significativas alterações nos pontos de exercício do voto para as eleições gerais de 2026. O objetivo principal é assegurar que todos os eleitores tenham pleno conhecimento dos novos endereços e consigam exercer seu direito democrático.
A mudança, que gerou incômodo e desafios logísticos, impactou mais de dezessete mil eleitores da Maré, conforme revelado por depoimentos como o do fotógrafo Marlon Soares. O residente expressou a exaustão e a dificuldade enfrentada no dia do primeiro turno, 4 de outubro, quando precisou lidar com longas filas e o deslocamento para um local de votação inesperado, distante de sua residência e do local habituado por sua família. Essas vivências reforçam a urgência da campanha de esclarecimento.
Mobilização na Maré por Acesso a Locais de Votação
A decisão de alterar os locais de votação para a disputa dos seis cargos em pauta nas eleições de 2026, incluindo a presidência que se dirige ao segundo turno em 25 de outubro, partiu do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ). A medida teve como propósito principal a desativação de seções eleitorais situadas em áreas consideradas de alto risco ou sob o controle de grupos criminosos. Segundo a justificativa oficial do TRE, os novos pontos foram escolhidos em zonas fora do domínio de facções criminosas ou milícias, porém mantendo a maior proximidade possível com as localizações originais.
No cenário fluminense, setenta e dois endereços de votação sofreram alterações em comparação com as eleições de 2024, visando aumentar a segurança do processo eleitoral. Essa ação foi implementada em vinte cidades, incluindo a capital, afetando um contingente de cerca de 202 mil cidadãos. Especificamente no Complexo da Maré, os números mostram que 16.907 eleitores, distribuídos por 41 seções eleitorais da 161ª Zona Eleitoral, tiveram seus locais modificados, de acordo com informações fornecidas pelo TRE-RJ.
As modificações no Complexo da Maré envolveram a transferência de eleitores de três escolas municipais para outros estabelecimentos na região ou em bairros vizinhos, visando garantir maior segurança e acessibilidade:
- 7.268 eleitores, anteriormente alocados na Escola Municipal Professor Josué de Castro, foram realocados para o Centro Educacional Gama E Souza.
- 4.907 eleitores que exerciam o voto na Escola Municipal Teotônio Vilela agora votam no Bonsucesso Futebol Clube.
- 4.732 eleitores que votavam na Escola Municipal Professor Paulo Freire tiveram suas seções transferidas para a Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso de Inhaúma.
Importante ressaltar que, para o segundo turno das eleições deste ano, apenas um local de votação no Rio de Janeiro será alterado: as seções 123, 124, 125, 126 e 127 da 188ª Zona Eleitoral, localizadas no bairro de Brás de Pina, zona norte da capital fluminense, conforme informado pelo TRE-RJ.
Impacto na Abstenção e Desafios para o Eleitor
Os dados da Agência Brasil, baseados nos Boletins de Urna do primeiro turno de 2026, indicam um aumento considerável na abstenção nas 41 seções da Maré cujos endereços foram transferidos. A taxa atingiu 31,07% nessas localidades, superando de forma expressiva a média nacional, que foi de 21,08%. Um estudo detalhado intitulado “Como Vota a Maré”, conduzido pela organização não governamental Redes da Maré, embora reconheça o crescimento do eleitorado, salienta que não é possível estabelecer uma relação de causalidade direta entre as mudanças e a abstenção. Contudo, o relatório sublinha a preocupação com as barreiras de acesso criadas pelos deslocamentos para fora do território da Maré. Inicialmente, no dia da votação, o TRE não fez uma correlação entre o aumento da abstenção e a realocação das seções eleitorais.
Meses antes do pleito, a Justiça Eleitoral havia instruído os eleitores a verificar previamente seus locais de votação. O TRE-RJ, em comunicação com a Agência Brasil, enfatizou a gratuidade do transporte público em todo o país no dia da votação, conforme estabelecido pela Resolução 23.759/2026 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Adicionalmente, o TRE-RJ divulgou que o projeto “Seu Voto Importa” ofereceu transporte especial adaptado para eleitores com mobilidade reduzida no Complexo da Maré, embora não tenha havido demanda por esse serviço.
Redes da Maré em Ação: Esquinas por Direitos
Para mitigar a abstenção e oferecer suporte aos moradores, a ONG Redes da Maré lançou a iniciativa “Esquinas por Direitos”. Entre terça-feira, 20 de outubro, e sexta-feira, 23 de outubro, a organização promove diálogos nas comunidades sobre a relevância do direito ao voto. A agenda e os locais exatos das atividades são atualizados diariamente no perfil da instituição, visando alcançar o maior número possível de eleitores. A mobilização em torno dos locais de votação na Maré demonstra a capacidade da comunidade de se organizar diante de desafios impostos pela gestão eleitoral.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
Paralelamente às ações presenciais, a Redes da Maré tem utilizado intensamente as plataformas digitais para disseminar informações cruciais sobre o processo eleitoral. A entidade esclarece dúvidas frequentes, como a possibilidade de votar normalmente no segundo turno (25 de outubro) mesmo sem ter comparecido ao primeiro. A mensagem se estende também aos eleitores que ainda não cadastraram a biometria, garantindo que o voto pode ser exercido. Recomendações importantes incluem a verificação do local de votação e da situação do título eleitoral antes de sair de casa. A expectativa é de que as filas no segundo turno sejam menores, já que o Rio de Janeiro votará apenas para o cargo de Presidente, não havendo disputa para governador. A troca de informações entre os moradores, por meio de aplicativos de mensagens, também tem sido fundamental nesse esforço coletivo pela garantia do direito democrático.
Efeitos Prolongados das Mudanças e o Direito ao Voto
O relatório “Como Vota a Maré” aponta que a abstenção nas eleições de 2026 foi superior à de 2024, quando o Complexo da Maré já havia passado por um processo similar de grandes alterações nos locais de votação. Segundo cálculos da organização, ao longo de quatro anos, cerca de cinquenta por cento dos eleitores da Maré foram impactados por novas designações de pontos de votação. Para a Redes da Maré, o principal reflexo dessas constantes mudanças está nas questões de acessibilidade e mobilidade urbana. A alteração de rota pode implicar maior tempo de deslocamento a pé, a necessidade de transpor vias expressas como a Avenida Brasil e a Linha Amarela, a carência ou inadequação do transporte público, percursos percebidos como perigosos, e a obrigação de se deslocar para fora do próprio território para votar.
A ONG enfatiza que esses fatores afetam desproporcionalmente jovens, mulheres chefes de família, pessoas com deficiência e idosos que residem na Maré, dado que aproximadamente 62% da população do Complexo é composta por pessoas pretas e pardas. A organização também argumenta que a disponibilidade de transporte gratuito, por si só, pode não ser suficiente quando o acesso do transporte ao território é precário ou inexistente.
Lia Manso, analista de Incidência Política da Redes da Maré, ressalta a centralidade do voto e da participação democrática na vida de qualquer cidadão, lembrando que o sufrágio foi um direito arduamente conquistado e reiterado no contexto da redemocratização, e que “a luta por ele não está terminada”, segundo suas palavras à Agência Brasil. Ela pontua que grande parte dos habitantes da Maré vive em condição de precarização de diversos direitos, desde a segurança pública ao saneamento básico, passando pela educação, cultura e o próprio voto. Para Lia Manso, o trabalho da Redes da Maré neste período eleitoral é essencial: “estar nas ruas, trazer a dinâmica do debate sobre o voto e a importância da participação democrática, exercendo o direito ao voto, dizendo que o nosso voto importa, não só porque é um direito individual, mas porque impacta coletivamente o território e a vida de todas nós”, afirma a advogada, em defesa do fortalecimento cívico da comunidade. A justiça eleitoral do Rio de Janeiro divulgou as alterações dos locais de votação previamente para as comunidades.
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Em suma, a movimentação da Redes da Maré reflete um esforço comunitário robusto para assegurar a participação eleitoral plena, apesar dos obstáculos logísticos impostos pela realocação das seções. Para se aprofundar nas discussões sobre políticas públicas e cidadania, continue acompanhando a editoria de Política em https://horadecomecar.com.br/blog/categoria/politica e mantenha-se informado sobre os desdobramentos locais e nacionais.
Crédito da imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil

