O debate em torno dos **planos de educação dos candidatos à presidência**, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), assume contornos distintos na disputa eleitoral, mesmo em um cenário político dominado por outros temas, como o polêmico caso Master. A educação, embora com menos destaque no fervor público recente, permanece um pilar fundamental nos programas de governo de ambos os aspirantes à chefia do executivo, apresentando visões divergentes para o futuro do sistema educacional brasileiro.
Enquanto o atual presidente e candidato à reeleição, Lula, reiteradamente afirma que a educação é a principal ferramenta para a transformação social e a mobilidade individual e coletiva, Flávio Bolsonaro, senador e postulante ao cargo, posiciona a educação como um elemento central no fortalecimento das estruturas familiares e na qualificação para o mercado de trabalho. Essas abordagens refletem filosofias distintas sobre o papel do Estado na formação dos cidadãos.
Lula Educação Integral, Flávio Propõe Escolas Militares
Lula, por um lado, enfatiza a educação como um “pacto inegociável com o futuro” e um investimento indispensável para assegurar um desenvolvimento nacional sustentável, inclusivo e soberano. Suas propostas incluem um plano robusto de construção de novas creches e pré-escolas, a intensificação de programas de formação e a valorização salarial dos professores, e, de maneira proeminente, a expansão do número de matrículas em regime de tempo integral. Além disso, o petista planeja aperfeiçoar iniciativas já em andamento, como o programa Pé-de-Meia, para garantir a permanência e o sucesso escolar dos estudantes.
Flávio Bolsonaro, em contraste, estrutura suas diretrizes educacionais sob o conceito de “Brasil que prepara” para oferecer às famílias as “ferramentas para vencer”. Segundo sua perspectiva, as famílias devem ser o cerne das políticas públicas, e ele defende um modelo escolar que “ensina, e não que doutrina”, buscando respeitar os valores transmitidos pelos pais em casa. Sua visão sublinha a importância da autonomia familiar na formação dos jovens.
Educação Infantil e Alfabetização
No que concerne à primeira infância e à alfabetização, as abordagens dos candidatos também se diferenciam. Flávio Bolsonaro prevê priorizar o método fônico de alfabetização, focado na associação sistemática entre sons e letras, uma técnica com comprovada eficácia em diversos países. Em relação às creches, o candidato do PL almeja ampliar significativamente a oferta em período integral, garantindo não apenas educação, mas também alimentação nutritiva e foco no desenvolvimento integral das crianças.
Adicionalmente, Bolsonaro propõe a criação do “voucher-creche” para famílias que não encontrarem vagas na rede pública de ensino. Esse subsídio financeiro permitiria o acesso a creches e pré-escolas da rede privada credenciada, buscando assegurar que nenhuma criança fique sem o cuidado e a educação necessários nessa fase vital. No entanto, o plano não detalha as fontes de recursos para o financiamento desse voucher, aspecto que pode gerar questionamentos sobre sua exequibilidade.
Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, estabelece a meta ambiciosa de alcançar 80% das crianças alfabetizadas na idade correta até o ano de 2030, um objetivo que será perseguido por meio da estratégia do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada. No tocante às creches e pré-escolas, o plano de governo de Lula foca na continuidade da construção de 3.562 unidades em 2.360 municípios, utilizando recursos do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC). Ele enfatiza a retomada de obras de equipamentos educacionais que foram paralisadas em administrações anteriores, como creches, escolas e quadras esportivas, como um compromisso central de sua gestão.
Financiamento da Educação Pública
O financiamento da educação pública é outro ponto de contraste relevante entre os programas dos dois candidatos. Na gestão de Flávio Bolsonaro, a alocação de verbas orçamentárias para estados e municípios seria condicionada a resultados concretos, vinculando os repasses ao cumprimento de metas de aprendizagem previamente estabelecidas. Essa medida visa estimular a eficiência e a performance das redes de ensino.
Já Lula, historicamente defensor de investimentos contínuos e valorização profissional, busca manter a política de reajuste do Piso Nacional do Magistério. Essa política, que serve como referência obrigatória para o vencimento-base inicial da carreira de professor, é calculada com base na Lei 15.437/26 e é vista como um mecanismo fundamental para atrair e reter talentos na educação básica.
Estratégias de Aprendizagem e Escolas
Para o aprimoramento da aprendizagem dos estudantes, Lula pretende instituir uma estratégia nacional permanente de recomposição e aceleração das aprendizagens, com especial atenção aos anos finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano) e ao ensino médio. Além disso, o candidato petista promete aumentar o acervo da biblioteca digital da plataforma MEC Livros e integrar novas línguas ao MEC Idiomas, facilitando o aprendizado de idiomas estrangeiros de forma gratuita, um diferencial significativo na formação atual.
A proposta de Flávio Bolsonaro para acompanhar e reforçar a educação dos estudantes inclui a criação do “Programa Acolher”. Este programa inovador recompensaria alunos com bom desempenho, oferecendo-lhes remuneração para que prestem reforço escolar a colegas que apresentem dificuldades, promovendo uma espécie de tutoria entre pares dentro da comunidade escolar. Quanto à filosofia educacional, Flávio defende um modelo de escola voltada ao conhecimento, “sem doutrinação político-partidária ou militância”, priorizando o papel da família na definição dos valores dos jovens. Um dos pilares de seu plano é a expansão das escolas cívico-militares, uma medida que busca aliar disciplina e desempenho acadêmico, seguindo a mesma linha de políticas adotadas pelo governo de seu pai, Jair Bolsonaro. O candidato também assegura que implementará efetivamente a política nacional de atendimento a alunos com altas habilidades, garantindo suporte adequado a talentos específicos.
Valorização dos Professores e Educação em Tempo Integral
No campo da valorização docente, Lula enfatiza medidas de apoio à formação contínua e à elevação do interesse de estudantes de licenciaturas pela profissão, por exemplo, por meio do “Pé-de-Meia Licenciatura”. Através do fortalecimento do programa “Bolsa Mais Professores”, Lula objetiva atrair e manter profissionais qualificados nas redes públicas de educação básica e em áreas do conhecimento com carência de educadores.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, aborda a capacitação continuada de professores, defendendo que ela deve ser baseada em evidências científicas, mas sem detalhar especificamente as propostas para essa formação.
Ambos os candidatos veem na educação em tempo integral um pilar importante, porém com nuances distintas. Lula posiciona a ampliação da educação em tempo integral em todas as etapas e modalidades da educação básica como prioridade em seu plano de governo. A meta é ultrapassar os 25,8% de matrículas atuais, adicionando 1,8 milhão de novas matrículas entre 2023 e 2025, buscando uma jornada ampliada de pelo menos sete horas diárias ou 35 horas semanais.
Flávio Bolsonaro também manifesta apoio à escola em tempo integral, com a finalidade de evitar que as crianças fiquem desassistidas no contraturno escolar. Sua proposta avança, sugerindo que as escolas permaneçam abertas durante as férias, ofertando atividades esportivas, de arte, música e literatura no período de recesso. Nos locais onde houver carência de vagas na rede pública, ele reitera a oferta de vouchers educacionais para que as famílias possam matricular seus filhos em escolas da rede privada, uma estratégia de flexibilização do acesso.
Ensino Médio, Técnico e Conectividade
Para o ensino médio e técnico, Lula busca aprimorar o programa Pé-de-Meia, um incentivo financeiro-educacional crucial para estudantes do ensino médio beneficiários do Cadastro Único (CadÚnico), que desde 2024, alcançou 7,3 milhões de jovens em todo o Brasil. Igualmente, o presidente planeja criar mais oportunidades de acesso ao ensino técnico de nível médio para preparar a juventude para as demandas de um mundo em constante evolução. Seu plano de governo prevê a expansão da rede dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs), com a instalação de mais 111 campi em 106 municípios, priorizando interiorização, periferias urbanas e “vazios educacionais”.

Imagem: agenciabrasil.ebc.com.br
Flávio Bolsonaro, foca na ampliação do ensino técnico profissionalizante em colaboração com o setor produtivo e as indústrias, com uma forte ênfase em inovação. Segundo seu plano, empresas poderão financiar a qualificação técnica dos futuros profissionais através de bolsas, garantindo que o jovem egresso da escola possua as habilidades demandadas pelo mercado de trabalho.
Na inclusão digital, Flávio Bolsonaro afirma que, em um eventual governo, as escolas serão priorizadas na democratização da tecnologia. A promessa é equipar as instituições de ensino com robótica, computadores, tablets e acesso à internet, visando preparar os jovens para o mercado financeiro, empreendedorismo e uso de novas tecnologias, incluindo a inteligência artificial. Lula, em contrapartida, propõe universalizar a conectividade das escolas brasileiras, fornecendo internet de qualidade com foco em inclusão e cidadania digital, ampliando a atual marca de 75% de escolas com conexão adequada por meio de investimentos do Novo PAC.
Ensino Superior, Pesquisa e Pós-Graduação
No que tange ao ensino superior, o candidato do PL propõe uma reestruturação profunda: a transferência da governança de todo o ensino superior do Ministério da Educação (MEC) para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O objetivo declarado é estreitar os laços entre a graduação e o universo científico. Ele também menciona um novo modelo de financiamento estudantil federal, o Empréstimo Contingente à Renda, semelhante ao Fies (criado em 1999 no governo FHC), onde o estudante começa a pagar a dívida apenas após sua inserção no mercado de trabalho, com parcelas proporcionais aos seus rendimentos e um prazo estendido para quitação.
Lula, por sua vez, pretende dar sequência ao fomento do ensino superior com verbas de custeio e investimentos em infraestrutura universitária, incluindo laboratórios, restaurantes, salas de aula e novas sedes. Entre suas metas estão a conclusão da implantação de novas universidades, como a unidade do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no Ceará, a Universidade Indígena (Unind) e a Universidade Federal do Esporte (UFEsporte), ambas em Brasília. Adicionalmente, o presidente sinaliza a expansão de novos hospitais universitários da rede HU Brasil, vinculada ao MEC, em articulação com o programa “Agora tem Especialistas” do Ministério da Saúde, para oferecer serviços gratuitos especializados no SUS.
Em pesquisa científica e pós-graduação, Flávio Bolsonaro defende que o sistema educacional deve ser o ponto de partida para a inovação, alinhando o aprendizado às exigências do mercado de trabalho contemporâneo. Sua “Nova Política Nacional de Formação de Talentos” propõe identificar as habilidades dos estudantes e desenvolver competências futuras. Ele também visa reorientar o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para priorizar o impacto produtivo, a inovação e a transferência de tecnologia. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) seria incentivada a apoiar cursos de pós-graduação focados no mercado, estreitando a relação entre universidades e empresas.
Lula, em sua visão, continuará a investir na expansão e melhoria da qualidade da pós-graduação em todas as áreas do conhecimento e em regiões e localidades pouco ou não atendidas. Seu governo reforçará o investimento em ciência, tecnologia e inovação para sustentar o desenvolvimento produtivo do país, por meio de uma rede institucional que financia modernização, conecta pesquisa ao agronegócio e à indústria, capacita pequenas e médias empresas e forma novos talentos, visando aumentar a competitividade brasileira.
Panorama Histórico da Educação no Brasil
Um dos programas educacionais de maior destaque durante o terceiro governo Lula foi o Pé-de-Meia, iniciativa lançada em 2024. Este programa concede um incentivo financeiro aos alunos do ensino médio da rede pública para promover a permanência e a conclusão escolar. Historicamente, o Pé-de-Meia obteve sucesso ao reduzir a evasão escolar para o menor nível desde 2007 e diminuir a reprovação no ensino médio público em 62%. Embora não conste explicitamente em seu plano de governo, o presidente Lula tem expressado a intenção de expandir esta iniciativa para o ensino superior, criando o “Pé-de-Meia universitários”, um indicativo de seu foco na trajetória educacional completa dos jovens.
No quesito alfabetização, o Brasil superou uma importante meta em 2025, atingindo 66% das crianças aptas a ler e escrever ao final do segundo ano do ensino fundamental, evidenciando o progresso nesta área crucial.
Contudo, o período entre 2020 e 2023, sob o governo do então presidente Jair Bolsonaro, foi marcado por um impacto severo na educação, principalmente devido à pandemia de COVID-19. Em novembro de 2020, dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) revelaram que mais de 5 milhões de crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos estavam sem acesso à educação no Brasil. Preocupantemente, 40% desse contingente correspondia a crianças de 6 a 10 anos, uma faixa etária em que a educação estava praticamente universalizada antes da crise sanitária. O fechamento prolongado das escolas elevou o analfabetismo infantil para 30% em 2023, o que representou o dobro dos 14% registrados em 2019, antes da pandemia, ilustrando um retrocesso significativo na educação básica.
Uma das principais propostas de Jair Bolsonaro para a educação em sua gestão (2019-2022), e que foi retomada pelo candidato Flávio Bolsonaro, foi a oficialização do Programa Nacional de Escolas Cívico-Militares (PECIM). Este programa visava transferir a administração das escolas geridas pelas Secretarias Estaduais de Educação para a Polícia Militar. O foco era acentuar a disciplina, implementando regras rígidas de corte de cabelo e uniforme, incluindo o uso de boina, moldando-as aos colégios militares, enquanto as Secretarias de Educação mantinham a gestão pedagógica.
No contexto do ensino superior, no primeiro ano de seu governo, Bolsonaro efetuou um corte de 30% no orçamento das universidades federais, alegando que os recursos seriam redirecionados para a educação básica. Em contraste, a expansão da rede universitária teve um histórico diferente. Lula criou oito universidades federais em seu primeiro mandato (2003-2006), seis no segundo (2007-2010) e mais três em seu terceiro (2023-2026). Jair Bolsonaro, em comparação, criou uma universidade federal em 2019 durante seu mandato.
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A eleição presidencial de 25 de outubro apresentará aos eleitores um cenário de escolhas educacionais marcantes, onde **Lula e Flávio Bolsonaro** delineiam futuros distintos para o Brasil. Analise estas propostas detalhadas e mantenha-se informado sobre todos os desdobramentos desta importante pauta em nossa editoria de Eleições 2026.
Crédito da imagem: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil


